Gordura corporal e cancro da mama: peso excessivo aumenta o risco

Estar acima do peso ou ter obesidade durante a vida adulta aumenta o risco de cancro da mama nas mulheres pós-menopausa. Esta associação positiva entre excesso de gordura corporal e cancro da mama na pós-menopausa foi observada em todo o mundo.

A obesidade afeta 15, 9% da população feminina portuguesa e 32,5% estão a cima do seu peso, de acordo com dados disponibilizados pelo Observatório Mundial da Obesidade.

Também em Portugal, o cancro da mama tem uma enorme expressão; é o tipo de cancro que mais afeta a população feminina, com cerca de 7000 novos casos anuais, ocupando atualmente o 5º lugar na mortalidade por cancro.

Como é que o excesso de adiposidade corporal e o aumento progressivo de gordura corporal durante a vida adulta afetam o risco de desenvolver este tipo de cancro?

O tecido mamário é constituído principalmente por gordura, por tecido glandular que se organiza em lóbulos, por ductos e tecido conjuntivo. Ao longo da vida, nas suas diferentes etapas, o tecido mamário sofre alterações em resposta ao estado hormonal, sobretudo na puberdade, na gravidez e na lactação. Estrogénios, progesterona, insulina e fatores de crescimento são as hormonas que mais controlam o estado hormonal, além de outras influências ambientais. Algumas destas hormonas desempenham um papel importante na progressão do cancro da mama porque modulam a estrutura e o crescimento das células tumorais.

Entre os principais mecanismos que ligam a obesidade e o excesso de gordura corporal ao cancro estão:

  1. o excesso de estrogénios, produzidos pela enzima aromatase nos adipócitos, que promovem o crescimento de alguns tipos de cancro da mama
  2. os altos níveis de leptina promovem a migração e invasão de células cancerosas
  3. os baixos níveis de adiponectina e que possui propriedades anti-inflamatórias, antiproliferativas e pró-apoptóticas
  4. inflamação crónica de baixo grau acompanhada de resistência à insulina e hiperinsulinemia facilitam o crescimento e a progressão do tumor.

Também o ganho de peso a curto prazo pode estar associado ao aumento da leptina, a marcadores pró-inflamatórios e resistência à insulina. Já a perda de peso intencional, sustentada e a manutenção de um peso estável pode estar associada à redução da leptina, redução de estrogénios circulantes e melhoria da sensibilidade à insulina.

No tecido adiposo da mama, a leptina estimula a atividade da enzima aromatase, o que contribui para níveis mais elevados de estrogénio e estes dois mecanismos hormonais (leptina e níveis de estrogénio) promovem o desenvolvimento do cancro e mama.

Assim todas as mulheres devem procurar manter um peso saudável e sustentável durante a vida adulta por ser inequivocamente uma medida protetora, e contributiva para a diminuição do risco de desenvolver cancro da mama pós-menopausa.

Os estudos e a investigação também mostram existir fortes evidências de que a prática de atividade física regular não só promove a manutenção de um peso saudável como diminui o risco de cancro da mama na pós-menopausa.

Referências: World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research. Continuous Update Project Expert Report 2018. Diet, nutrition, physical activity and breast cancer.; Christakoudi, S., Pagoni, P., Ferrari, P., Cross, A. J., Tzoulaki, I., Muller, D. C., … & Tsilidis, K. K. (2021). Weight change in middle adulthood and risk of cancer in the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC) cohort. International Journal of Cancer148(7), 1637-1651.;World Obesity Federation; Cancer Today;  Créditos da imagem: World Obesity Federation

Margarida Vieira, nutricionista, licenciada em Ciências da Nutrição (FCNAUP-1991), mestre em Nutrição Clínica (ISCSEM-2008). Doutorada em Estudos da Criança, na especialidade de saúde infantil pela Universidade do Minho. Membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas com a cédula profissional n (...)