Hiperacusia, misofonia e phonofobia: particularidades do ouvido

A hiperacusia significa um aumento anormal de ganho auditivo, resultando na perceção exacerbada dos sons externos. É definida como uma hipersensibilidade ao som, sendo a perceção do som maior do que o normal. Existe uma baixa tolerância ao ruído ambiente. Ocorre em crianças e adultos, podendo ter uma duração variável de semanas a anos. Afeta um ou os dois ouvidos simultaneamente.

Os principais sintomas são intolerância e distorção geral dos sons, podendo provocar uma dor aguda de ouvido (noxacusia) e incómodo. Os mecanismos fisiológicos da hiperacusia relacionam as vias auditivas com alterações dos circuitos centrais (sistema límbico, memória, etc.).

As causas mais comuns são a exposição excessiva a sons de alta intensidade, ototóxicos, doença de Lyme, entre outras. No entanto, pode ocorrer, com maior predominância em pessoas jovens, sem qualquer causa aparente.
A hiperacusia também pode ser acompanhada por zumbido, resultando em stress e ansiedade. É uma patologia pouco compreendida e muitas vezes desvalorizada pelos técnicos de saúde. Assim, revela-se muito frustrante para o paciente não encontrar explicação para o seu problema.

Para além do audiograma, o diagnóstico é complementado pela avaliação do limiar de desconforto. Este teste determina o menor nível de som que se torna desconfortável, em cada frequência. Em pessoas com hiperacusia, esse nível é consideravelmente menor do que em indivíduos normais, ou seja, entre 60 e 85 dB HL.
Em casos de noxacusia, o tratamento centra-se essencialmente na redução dos sintomas de dor. Deve-se ser evitada a exposição a sons altos, e uso de proteção auditiva, para atenuar a intensidade do som. Uma dieta baixa em sódio também pode ajudar.
Muitas vezes existem outras particularidades associadas, como sejam a misofonia e a phonofobia.

A misofonia é uma desordem auditiva, que se manifesta pela reação anormalmente exagerada a determinados sons específicos, podendo provocar perturbação emocional.
O problema não é a intensidade sonora, mas sim a irritabilidade provocada por pequenos barulhos do dia-a-dia. Pode ser o riscar de um giz numa lousa, ou o ranger duma faca num prato, barulhos de mastigação, ou sons repetitivos. A misofonia pode tornar-se crónica, durar anos, ou toda a vida. Este termo foi proposto, pela primeira vez em 2001, por Jastreboff. Segundo ele, misofonia poderá ser causada por uma disfunção do sistema auditivo central.

A phonofobia é uma reação de medo a determinados sons. Normalmente associada a situações desagradáveis. Esta fobia pode gerar ativação do sistema nervoso autónomo, podendo desencadear sintomas como hiperventilação, sudorese, aumento da frequência cardíaca, diminuição da atividade gastrointestinal, ou mesmo ataques de ansiedade. Se esse medo se relaciona com sons agudos é denominado de ligirofobia. A phonofobia é tratada da mesma forma que outros tipos de fobias, pela psicologia clínica, neurologia e psiquiatria.

Nestes casos também se pode recorrer ao Tinnitus Retraining Therapy (TRT) – terapia de treino de zumbidos. Esta inclui a terapia sonora e consultas de aconselhamento para o tratamento do zumbido, assim como para a hiperacusia. A terapia sonora tem várias vertentes e é recomendada em diferentes situações. Usa um dispositivo com diferentes ruídos de banda larga, ruido rosa, ou outros sons musicais que melhor se coadunem. O objetivo é ajudar o nosso cérebro a restabelecer a tolerância ao som, reduzindo a sensibilidade auditiva. Muitas vezes esta abordagem é combinada com intervenção psicológica. A dessensibilização sonora poderá implicar 6 meses, ou mais, até à obtenção de resultados. Outras técnicas, como o relaxamento, exercício físico, yoga ou meditação, podem contribuir para o tratamento.

Misofonia e phonofobia podem ser definidas como reações anormais dos sistemas auditivo, autónomo e límbico. Ao nível comportamental, os pacientes têm uma atitude negativa ao som (misofonia), ou têm medo do som (phonofobia).
De referir que nenhuma destas particulares implica a existência de perda auditiva.
Preventivamente, deve-se procurar eliminar a exposição frequente a sons de intensidade elevada, evitando também o uso de auriculares por longos períodos de tempo.

Referência: Pawel J. Jastreboff and Margaret M. Jastreboff. Treatments for Decreased Sound Tolerance (Hyperacusis and Misophonia). Seminars in hearing/volume 35, number 2, 2014.
Créditos de imagem: https://www.artofhearing.com.au/news/does-hearing-loss-improve-your-other-senses/.

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pela FEUP. Investigadora e orientadora de teses de Mestrado e Doutoramento, na FEUP. Os seus principais interesses relacionam-se com a Audiologia e Reabilitação Auditiva, assim como simulações matemáticas de modelos computacionais do ouvido. Fernanda Gentil is Audiologist at the ORL Clinic Dr. Eurico Almeida and Coordinator of Widex-Porto. Degree in Applied Mathematics - Computer Science, FCUP. Audiology Professor at ESS, Porto. PhD in Engineering Sciences, FEUP. Researcher and advisor of Master's and PhD theses at FEUP. His main interests are related to Audiology and Auditory Rehabilitation, as well as mathematical simulations of computational models of the ear.