O Efeito Placebo

Quando esperas que algo suceda, o teu cérebro faz com que suceda.
Dan Ariely

Dumbo era um elefante com enormes orelhas que ignorava que com elas poderia voar. Timóteo, o seu amigo rato, deu-lhe uma pena mágica, assegurando-lhe que, com isso, poderia voar. Dumbo, efectivamente, conseguiu voar, mas continuou a ignorar que eram as suas orelhas as responsáveis por esse efeito. No final do conto, Timóteo confessa que não era a pena que era mágica, mas sim que Dumbo podia voar sozinho. Podemos aprender com este conto que a pena não é mágica, mas que produz efeitos.

O investigador Kirsch, entre vários estudos, realizou uma revisão de estudos publicados, e deu-se conta, de que os antidepressivos só tinham um pouco mais de eficácia dos que os placebos, os placebos tinham um alcance, a nível de eficácia, de 82%. A eficácia dos antidepressivos comprova-se comparando os resultados do grupo experimental em que se administra o medicamento e os resultados do grupo de controle que recebe o placebo. Os desenhos são duplamente cegos; os sujeitos não sabem se estão a tomar o antidepressivo ou o placebo, nem o próprio investigador sabe o que estão a tomar.

O efeito placebo foi tratado durante muitos anos como uma variável estranha, uma espécie de contaminante de resultados. Algo que se deveria controlar para se poder observar com claridade o efeito limpo do princípio activo, no caso do medicamento, ou do constructo responsável pela mudança, no caso de uma psicoterapia.

Pouco a pouco o efeito placebo foi atraindo a atenção dos investigadores, passando já não como contaminante, mas sim como princípio activo. É o exemplo de Waber e os seus colaboradores que tentaram chegar à conclusão de que manipulando as expectativas do doente, os benefícios poderiam ser melhores. Para isso levaram a cabo um estudo em que os sujeitos recebiam descargas eléctricas e, para acalmar as suas dores, eram-lhes administradas pastilhas de placebo. A metade dos pacientes foi-lhes informado que as pastilhas tinham um elevado preço e à outra metade que era um medicamento barato. Dan Ariely confirmou com os resultados, que as pastilhas, ditas caras tinham sido mais eficazes. Parece que um medicamento, tem mais probabilidade de ser eficaz, se é caro.

Seguindo esta linha de pensamento, podemos chegar à conclusão de que, nas terapias, os factores preço, localização, fama do terapeuta, etc., podem ter um efeito placebo e podem aumentar a sua eficácia. Seria interessante estudar todos estes factores.

Em que medida se pode desligar uma pessoa daquilo em que acredita: as suas expectativas, todas as mudanças cognitivas, emocionais e fisiológicas que provocam a terapia? Não é possível. A administração de qualquer tratamento, incluindo a cirurgia, têm efeitos fisiológicos e psicológicos no doente, e esses efeitos se relacionam. Sempre que um doente e o clínico percebem que o tratamento é eficaz criam-se efeitos placebos. Os efeitos placebos actuam sinergicamente com os efeitos do tratamento efectivo, real, ou activo.

Referências:  Kirsch, I. (2016). The placebo effect in the treatment of depression. Verhaltenstherapie, 26(1), 55-61. / Waber, R.L., Shiv, B., Carmon, Z. y Ariely, D. (2008). Commercial Features of Placebo and Therapeutic Efficacy. Journal of the American Medical Association, 299, 1016-1017. Foto: flickr/Klesta.  

André Louro

Doutorado pela Universidade Autónoma de Barcelona. Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e com especialidade avançada em Psicologia Comunitária pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Vários artigos publicados na área de Psico-oncologia. Tem interesse pelo estudo do comportamento huma (...)