Alimentação no controlo da dor em doentes oncológicos

Em doentes oncológicos paliativos, a dor e a desnutrição são comuns e relacionam-se num ciclo; quanto mais desnutrido, menor o limiar de perceção da dor (sente mais dor), o que conduz a uma menor ingestão alimentar e, logo, a um maior grau de desnutrição. Além disso, as doses de quimioterapia, calculadas em função da superfície corporal, são sub-ótimas, aumentando os efeitos adversos, como a dor.

Assim, as necessidades nutricionais devem ser avaliadas e os sintomas que impedem uma correta nutrição identificados.

A falta de apetite, a saciedade precoce e a dificuldade em engolir são frequentes, sendo difícil alcançar as necessidades nutricionais. Produtos que exigem uma mastigação mais prolongada, como algumas carnes e vegetais, produtos duros ou estaladiços, ou que sejam ácidos como algumas especiarias, o vinagre, alguns frutos e sumos, podem agravar significativamente a dor.

Isto acontece principalmente em doentes com uma mucosa mais débil após a radio ou quimioterapia, com boca seca e com doenças inflamatórias das gengivas e dos dentes. Uma das orientações é fazer refeições frequentes (8-10/dia) e pouco volumosas ( um volume máximo de 150-250ml).

A consistência deve ser mole/pastosa, sem partículas duras/afiadas (sopas, cremes, batidos, fruta passada, purés de vegetais, mousses, gelatina e queijos de pasta mole). A carne deve ser triturada e os alimentos ricos em hidratos de carbono, como os cereais de pequeno-almoço ou o pão, devem ser macios e ensopados em leite ou em caldos. Todavia, mesmo com estas estratégias, uma ingestão adequada pode ser difícil de atingir. Muitas vezes, é necessário fortificar a dieta com manteiga, mel, frutos secos, farinhas, carne/peixe triturados ou ovo ou através da introdução de fortificantes (pós ou soluções), sendo a primeira opção a usualmente melhor tolerada pelos doentes paliativos. Também os suplementos orais constituem uma opção.

Os doentes com inflamações orais deverão evitar as refeições com frutos naturalmente ácidos (citrinos e bagas, sumos dos mesmos, temperos picantes), pois estes podem desencadear ou exacerbar a dor. Bochechar com infusão de linhaça, de malmequeres ou salva pode ter um efeito calmante, anti-inflamatório e adstringente, diminuindo a dor.

No caso dos doentes com cancro avançado, as recomendações para a ingestão de fibra são menores do que para indivíduos saudáveis (15-20g contra 25-40g), pois uma dieta rica em fibras é pouco tolerada e agrava a obstipação, a dor abdominal e pode ser a causa de obstrução gastrintestinal. Isto aplica-se particularmente a doentes que comem pouco, estão desidratados, estão acamados ou a receber opióides. Os produtos ricos em fibra requerem uma mastigação mais longa, o que não é possível em grande parte dos casos, e aqueles que engolem porções de grande tamanho podem apresentar náuseas, distensão abdominal e vómitos. Além disso, a fibra capta vários nutrientes, reduzindo a disponibilidade para serem absorvidos, o que agrava a condição de doentes paliativos já desnutridos.

Um excesso de gordura e açúcares simples também poderá levar a um aumento da dor abdominal, náuseas, distensão abdominal, flatulência e diarreia, contribuindo ainda para uma sensação de saciedade e, logo, à diminuição da ingestão alimentar.

A intolerância à lactose é uma situação comum, usualmsente temporária, em resultado da radio e da quimioterapia. Manifesta-se por náuseas, dores abdominais, diarreia e distensão abdominal após a ingestão de leite e queijo. O iogurte apresenta níveis baixos, sendo bem tolerado e recomendável. Contudo, caso a sintomatologia se mantenha, será necessário retirar todos os laticínios e substituí-los por fontes vegetais de cálcio e proteína.

Os ómega 3 (peixes gordos, linhaça e nozes) são outros componentes da dieta importantes nestes doentes, já que têm efeitos anti-inflamatórios e analgésicos, contribuem para a destruição das células tumorais e aumentam a sensibilidade das mesmas à quimioterapia, diminuindo a toxicidade.

Lange E, Kapala A. Possibility of pain reduction by dietary intervention in patients with advanced cancer. Ann Agric Environ Med. 2013; 1: 18-22. Stuver SO, Isaac T, Weeks JC, Block S, Berry DL, Davis RB, Weingart SN. Factors associated with pain among ambulatory patients with cancer with advanced disease at a Comprehensive Cancer Care. J Oncol Pract. 2012; 8(4): 17-23. Imagem: http://washington.providence.org/clinics/providence-supportive-care/

Dina Raquel João é Nutricionista e Mestre em Nutrição Clínica, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas (nº 0204N), com o Título de Especialista para a área de Terapia a Reabilitação da Classificação Nacional de Áreas de Educação e Formação, subárea da Nutrição, tendo desenvolvido a sua atividade profissional principalmente na prática clínica, na docência e formação e na investigação. Como Nutricionista, iniciou atividade clínica em 2001, tendo exercido a nível hospitalar, em centro de saúde e em clínica privada. A experiência profissional na área da investigação decorreu, essencialmente, na área oncológica, tendo sido premiada nesse campo (1º Prémio de Nutrição Clínica da Fresenius Kabi, em 2002). Conta com diversas comunicações científicas orais e em painel, tanto em eventos nacionais como internacionais. Atualmente, é Professora Adjunta Convidada na Universidade do Algarve – Escola Superior de Saúde, lecionando à licenciatura em Dietética e Nutrição.