Privação Sensorial Auditiva: como deve ser abordada

A privação sensorial auditiva (ausência de estímulos sonoros) provoca uma diminuição sistemática no desempenho auditivo, ao longo do tempo. Está associada a uma surdez existente e não estimulada. O cérebro perde gradualmente a capacidade de processar a informação, pois a mesma não chega ao córtex auditivo.

A privação sensorial pode conduzir a graves problemas, pelo que é importante um diagnóstico precoce, que identifique qualquer perda auditiva, visando uma intervenção adequada, recorrendo à utilização de próteses auditivas. A adaptação gradual aos aparelhos auditivos (aclimatação auditiva), permite reverter numa melhoria o desempenho auditivo, à custa do treino.

O sistema auditivo está organizado para que ao longo da cóclea sejam detetadas as diferentes frequências, desde as mais agudas na sua base, até às mais graves no seu ápex. Se alguma destas áreas estiverem lesadas, o individuo não ouvirá esses sons. Toda a informação é direcionada, através do nervo auditivo para o córtex que irá interpretar os sons.

A privação sensorial auditiva deve ser abordada na perspetiva da criança e do adulto.

As crianças passam o primeiro ano de vida a aprender sobre todos os sons que as rodeiam e aos poucos, por imitação, vão reproduzindo o que ouvem. Todas as conexões neurais estão ainda em formação e em amadurecimento, necessitando de estímulos (som) para se desenvolverem. Não podem, de maneira alguma, estarem privadas de ouvir. Assim, se é detetada surdez num recém-nascido, deve ser feita a sua habilitação através de aparelhos auditivos, o mais precocemente possível, para facilitar o desenvolvimento da fala e da linguagem. Se nada for feito até aos 2-3 anos, a linguagem ficará para sempre comprometida, sendo um processo irreversível.

No caso dos adultos, a forma mais comum de perda auditiva, a partir de certa idade, recai sobre uma perda sensorial nas altas frequências (presbiacusia), e que resulta numa redução da compreensão da fala. Como a informação recebida das frequências mais agudas nos fornece a capacidade de perceber melhor as consoantes e como as frases são constituídas por combinações de sons graves (vogais) e agudos, na prática o que se passa é que apenas se ouve parte da informação. O mais vulgar, nestas circunstâncias, é deduzir o que se perde no meio da frase, por vezes de forma errada, percebendo-se outra palavra e atribuindo um sentido diferente ao que foi dito.

Se se deixar agravar esta situação, sem estimular o ouvido, a informação sonora não passa para o cérebro, e este com o tempo, vai “esquecendo” a mensagem.  Se privarmos o ouvido de estímulos auditivos, ele vai “preguiçar”, facilitando a ocorrência de distorção sonora.

Indivíduos com privação auditiva, passam a ter mais dificuldade na compreensão da palavra. Mesmo com a reabilitação adequada, através de aparelhos auditivos, o sistema que ficou privado da estimulação terá sempre alguma distorção, necessitando de mais tempo de treino auditivo. Para maximizar a audibilidade e a compreensão, a privação sensorial deve ser evitada.

Assim, procurar ajuda aos primeiros sinais de surdez (deteção precoce) é essencial para prevenir alterações biológicas, psicológicas e sociais.

As causas mais comuns que levam à privação auditiva são:

1) Não aceitação da perda auditiva e recusa do uso de aparelhos auditivos.

2) Perda auditiva bilateral e opção pelo uso de apenas um aparelho auditivo. Muitas vezes, só tardiamente a pessoa aceita o aparelho para o outro ouvido, podendo ter muito mais dificuldade em se adaptar.

3) Adaptações desajustadas ou inadequadas de aparelhos auditivos, não sendo programados corretamente de acordo com a surdez.

Se existe perda auditiva, o uso de aparelhos auditivos é sinónimo de “exercitar” a audição e o cérebro, melhorando a capacidade de reconhecimento e perceção dos sons à medida que se utilizam. A prevenção é a melhor solução para a privação auditiva recorrendo a um processo de seleção e programação correta dos aparelhos auditivos.

Referência: Dawes PD, Munro K, Kalluri S, Edwards B: Auditory acclimatization and hearing aids: Late auditory evoked potentials and speech recognition following unilateral and bilateral amplification. The Journal of the Acoustical Society of America 135(6):3560, 2014. DOI: 10.1121/1.4874629;Créditos da imagem:https://loreamartinez.com/2016/08/11/we-feel-therefore-we-learn/

Fernanda Gentil

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pel (...)