O açúcar alimenta o cancro?

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Nas consultas de nutrição oncológica, é frequente os doentes perguntarem: “o açúcar alimenta o cancro?”, em virtude da especulação e da falta de informação veiculada pelos meios de comunicação social e por alguns sítios da internet. No entanto, a resposta é bem mais complicada do que “Sim” ou “Não”.

Todas células, cancerígenas ou não, utilizam a glicose como fonte de energia, ou seja, todas são “alimentadas” por este açúcar. A glicose é tão importante para o funcionamento do organismo que este tem uma série de estratégias para manter os níveis de açúcar no sangue (glicemia) normais.

acucar-cancroA glicose é obtida a partir de diversos alimentos, como os vegetais, a fruta, os cereais (integrais ou não) e seus derivados, os laticínios. A lista prosseguiria numa enumeração extensiva. Além da origem alimentar, este açúcar pode ser fornecido às células através da produção pelo próprio organismo, a partir da proteína, quando não se incluem hidratos de carbono na dieta.

Muitos doentes oncológicos evitam os hidratos de carbono, pois pensam que o açúcar pode promover o crescimento das células cancerígenas. Essa atitude é contraproducente, quando se pretende a manutenção de um adequado estado nutricional e quando se está perante os efeitos secundários do cancro e dos tratamentos. A própria eliminação dos hidratos de carbono da alimentação é geradora de stresse, o que proporciona a ativação de mecanismos que aumentam a produção de hormonas que podem elevar a glicemia e prejudicar a função imunitária.

Como é que o açúcar se relaciona com o cancro?

A relação entre açúcar e cancro surge por via indireta. O consumo de grandes quantidades de alimentos ricos em açúcar pode significar uma dieta excessiva em calorias, favorecendo o aparecimento de excesso de peso/obesidade e uma elevada quantidade de gordura no organismo. É esse excesso de gordura que se relaciona com o aumento considerável do risco de diversos tipos de cancro, bem como da agressividade dos mesmos.

A relação também é indireta, quando se fala do crescimento de um tumor já existente, o qual pode ser estimulado não pelo açúcar em si mas através da relação entre este e os níveis elevados de insulina e de fatores de crescimento relacionados. Muitos tipos de células cancerígenas apresentam uma grande quantidade de recetores para a insulina, o que significa que são mais sensíveis que as células saudáveis à capacidade da hormona promover o seu crescimento. Assim, mais uma vez, o que está em causa é uma dieta excessiva, o que não se relaciona apenas com o cancro mas também com outras doenças crónicas.

Apesar do referido, as dietas cetogénicas (dietas com menos de 20g de hidratos de carbono por dia) têm vindo a ser estudadas como possível forma de intervenção em casos de tumores cerebrais e de cancro avançado da próstata e da mama. Contudo, ainda não há conclusões suficientes suscetíveis de considerar este tipo de dietas como adequadas em oncologia, até porque também apresentam desvantagens (sabor, aceitabilidade, possível perda de peso).

Quais são as recomendações?

A alimentação do doente oncológico deve ser baseada nos princípios de uma alimentação saudável, ou seja, equilibrada, variada e completa, de acordo com a Nova Roda dos Alimentos. Além disso, a atividade física tem um importante papel na estabilização dos níveis de açúcar sanguíneos, devendo a sua prática e continuidade ser incentivada nos doentes oncológicos, não apenas por esta mas por outras razões.

Assim, uma alimentação saudável e a prática de atividade física regular são pontos fundamentais na prevenção do cancro mas também para o prognóstico e qualidade de vida dos doentes oncológicos.

Referências: Giovannucci E et al.. Diabetes and cancer: a consensus report. Ca Cancer J Clin. 2010;60:207-21. Vigneri P et al.. Diabetes and cancer. Endocr Relat Cancer. 2009;16:1103-23. Klement RJ & Kämmerer U. Is there a role for carbohydrate restriction in the treatment and prevention of cancer? Nutr Metab (Lond). 2011;8:75. Gallagher EJ & LeRoith D.  Insulin, insulin resistance, obesity and cancer. Curr Diab Rep. 2010;10:93-100. Webster Marketon JI, Glaser R. Stress hormones and immune function. Cell Immunol. 2008;252:16-26. Fontes de imagens: http://www.cancerfrontline.org/study-links-high-sugar-intake-to-increased-breast-cancer-risk/; http://its-uptoyou.com/tag/run/
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Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.