O poder da gratidão

Há muito que penso escrever sobre gratidão, porém não me pareceu até ao momento um tema simples e, afinal, aqui falamos de simplicidade. Mas chegou a altura de o fazer, pois é de “bom senso” e a quadra natalícia pareceu-me o “pretexto” ideal.

O sincero sentimento de gratidão é, a meu ver, uma emoção complexa que emana com toda a simplicidade das pessoas cuja maturidade emocional atingiu uma grande “elevação”. No entanto, para muitas pessoas não é fácil sentir e dar graças naturalmente e, quando em raros momentos são acometidas por este sentimento, é porque conseguiram ir um pouco mais longe na sua “caminhada”.

Por vezes existe alguma confusão entre gratidão e resignação. Quando nos é dito que deveríamos nos sentir gratos por isto ou por aquilo, ou que deveríamos olhar em redor e ver quantas pessoas enfrentam problemas ainda mais sérios do que os nossos, poderemos sentir que o que está a ser pedido é que nos resignemos e nem sempre conseguimos evitar uma certa irritação ou culpabilidade como se não nos fosse reconhecido o direito à indignação, ao lamento e ao reconhecimento de que estamos numa situação que não escolhemos e que sentimos ser difícil.

É comum ouvirmos algumas pessoas ao nosso redor lamentarem-se, ou mesmo nós próprios sentirmo-nos vítimas de alguém ou de alguma situação e perante problemas graves (como por exemplo problemas de saúde sérios) é absolutamente compreensível que assim seja. Trata-se de uma fase que faz parte do trajecto. Há que, antes de mais, reconhecer o direito a esse sentimento de indignação, de revolta e de tristeza perante o sofrimento real que algumas pessoas enfrentam. Sim, parece legítimo que possamos perguntar em certas circunstâncias: “Porquê eu?”

Contrariamente, é comum em situações graves que afectam alguém que nos é muito próximo, como por exemplo, a doença ou a perda de um ente querido, colocarmos a questão oposta: “Porque não eu?” exprimindo, assim, a chamada “culpa do sobrevivente”, uma emoção muitas vezes inconsciente e que afecta subtilmente muitas pessoas em luto, sobretudo se a perda ocorreu de forma traumática. Também neste caso, a caminhada em prol do sentimento de gratidão poderá ser muito libertadora, embora difícil sem a ajuda de outrem. Mas mais uma vez, o trajecto inclui o reconhecimento e tomada de consciência desse sentimento de culpa. Neste caso, injustificado e fundado em crenças irreais.

Eu diria que é como se tivéssemos que percorrer um caminho cujo destino poderá ser o sentimento de gratidão mas cuja condição para alcançar esse destino (pelo menos para alguns) é o reconhecimento de emoções mais primárias, tais como o medo, a raiva, o sentimento de autopiedade ou o sentimento de culpa.

De facto é impressionante conhecer pessoas, que já enfrentaram situações tremendas e, ainda assim, exprimem optimismo e gratidão, quando antes tinham sentimentos de autocomiseração. Isso significa que conseguiram transformar-se e crescer. A nossa perspectiva muda com as circunstâncias e com os cenários que a vida nos apresenta e, paradoxalmente é nos momentos mais difíceis que algumas pessoas conseguem ver todas as graças que a vida lhes concedeu. Mas, não me parece que seja imediata a chegada a um sincero sentimento de gratidão. Vale, contudo, a pena abrirmo-nos a essa possibilidade.

Quando estamos mergulhados nos nossos sentimentos de angústia perante o futuro, sobretudo quando já enfrentámos dificuldades e tememos vir a enfrentar mais dificuldades, parece-nos quase impossível sermos acometidos por sentimentos de gratidão.

Na verdade não somos capazes porque estamos focados nos acontecimentos difíceis do passado ou nos receios do futuro, mas se nos centrarmos no presente e, por instantes, tomarmos consciência de tudo o que crescemos com as dificuldades do passado e, por segundos, não especularmos em relação ao futuro, ficamos com aquilo que é real e imutável. Ficamos com a consciência de tudo o que de bom a vida já nos trouxe e traz através das coisas mais simples. E isso é experiência vivida e, portanto, é o nosso património interior. É nesse momento que conseguimos sentir um verdadeiro sentimento de gratidão. E quando o experimentamos, tudo parece estar bem e tudo parece fazer sentido!

Talvez este genuíno sentimento de gratidão possa ser cultivado pelos nossos actos quotidianos e julgo valer a pena tentá-lo, pelo que vos deixo com um excerto de uma publicação de Leo Babauta, autor do blog Zen Habits:

Seja Grato

 

Seja grato por não ter tudo o que deseja. Se tivesse o que haveria para desejar?

Seja grato quando não souber algo, pois assim tem oportunidade de aprender.

Seja grato pelos momentos difíceis, pois nesses momentos tem oportunidade de crescer.

Seja grato pelas suas limitações, pois elas dão-lhe a oportunidade de melhorar.

Seja grato por cada novo desafio, pois assim constrói a sua força e carácter.

Seja grato pelos seus erros. Eles ensinar-lhe-ão lições valiosas.

Seja grato quando está cansado, pois isso significa que fez a diferença.

É fácil ser grato pelas coisas boas. Uma vida realizada é o que aguarda aqueles que são gratos até pelas contrariedades.

A gratidão pode transformar o que é negativo em algo positivo. Encontre uma forma de ser grato pelos seus problemas e eles tornar-se-ão as suas bênçãos.”

 

Autor desconhecido

 

Referência: http://zenhabits.net/why-living-a-life-of-gratitude-can-make-you-happy/
Fonte da imagem: Pin de Anelise Lima – Pinterest

 

Rita Rosado

Sobre Rita Rosado

Rita Rosado licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (1997). Concluiu o Mestrado em Ciências da Educação – Formação de Adultos em 2007. Trabalha na área de Orientação Profissional e o seu interesse pela problemática da prevenção do cancro aprofundou-se após a experiência que vivenciou enquanto familiar de doentes de cancro.