Antibióticos aceleram o aumento de peso

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Atualmente, se entrar numa loja de produtos agrícolas, muito provavelmente irá encontrar sacos contendo antibióticos em pó com a indicação de acelerarem o crescimento de aves e gado. Décadas de investigação na área da agricultura têm mostrado que os antibióticos aceleram o crescimento dos animais jovens, ajudando-os a engordar mais alguns quilos.

Muitos agricultores vangloriam-se dos efeitos miraculosos da associação de antibióticos nas rações dos pintos e dos bezerros. Algumas revistas agrícolas afirmam que, deste modo, estes medicamentos funcionam como “super alimentos” e assim se pode produzir carne mais barata.

Mas, coloquemos esta questão: e se a alimentação dos animais interferir também nos seres humanos?

Recentemente, um grupo de investigadores começou por questionar se os antibióticos podem ter o mesmo impacto nos seres humanos. Há já evidências que relacionam a epidemia da obesidade nos Estados Unidos com o consumo elevado destes medicamentos.

Tudo começou em 1948 quando os antibióticos eram novos e considerados remédios milagrosos e, também nessa altura, a gordura ainda era formosura.

Nesse ano, um bioquímico chamado Thomas H. Jukes produziu um novo antibiótico a aureomicina, capaz de salvar vidas, pensando ter descoberto uma mina de ouro dentro de um frasco. Na época, os cientistas dos laboratórios Lederle tentavam encontrar um suplemento alimentar que tivesse efeito na criação de animais e decidiram testar este antibiótico. Chegaram à conclusão que os antibióticos na alimentação dos animais aceleravam o seu crescimento, chegando alguns deles a pesar o dobro comparativamente aos animais no grupo de controlo. Estas experiências continuaram em porcos, ovelhas e vacas. Todos os animais aumentaram de peso.

Vivia-se uma época em que se valorizavam os animais de grande porte, os bebés gordos e os homens grandes. Em 1955 chegou-se mesmo a organizar competições para se encontrar o vencedor entre os homens que ganhavam mais peso em quatro meses.

Em 1954, Alexander Fleming – o biólogo escocês que descobriu a penicilina – visitou a Universidade de Minnesota. Quando os americanos se vangloriaram informando-o que davam antibióticos aos porcos e, desta forma, os agricultores economizavam milhões de dólares, Fleming mostrou-se perturbado com a ideia de aplicar essa lógica a seres humanos, dizendo: “tornar os indivíduos maiores pode fazer mais mal do que bem.”

Desde então realizam-se experiências em humanos para verificar se os antibióticos têm o mesmo efeito que nos animais.

Na década de 50, uma equipa de cientistas fez um estudo na Guatemala em que crianças em idade escolar foram alimentadas com uma dieta adicionada de antibióticos durante um ano; também na Flórida, um médico tentou um esquema semelhante em crianças com deficiência mental por períodos superiores a três anos.

Podem as crianças, tal como os animais, crescer mais desta forma? Sim, podem. Outro estudo controlado, envolvendo várias centenas de jovens americanos, durante a recruta na Marinha, foi realizado para compreender os efeitos nutricionais dos antibióticos. Os recrutas que tomaram uma dose de antibióticos, todas as manhãs e durante um período de sete semanas, ganharam mais peso, em média, em relação ao grupo de controlo.

Enquanto isso, nos meios agrícolas, foram se realizando outras experiências com animais, entre outros, os leitões que, logo após o nascimento, eram afastados das suas mães e isolados para serem alimentados com antibióticos. E, claro, isso fez deles porcos mais gordos.

Não obstante tudo isto, os cientistas ainda não conseguem explicar o mistério que associa antibióticos e ganho de peso. Mas, na verdade, também não tentaram. De acordo com Luis Caetano M. Antunes, pesquisador em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz, no Brasil, a atitude poderá ser esta: “Quem é que se importa com isto?” Ao longo das últimas décadas, enquanto a indústria agrícola continuou a comprar antibióticos com estes fins, o mundo médico, na sua maioria, perdeu o interesse neste efeito e seguiu em frente.

Na última década, a investigação na área dos antibióticos voltou a aumentar. O seu uso excessivo tem levado ao aparecimento de estirpes de bactérias resistentes aos antibióticos – a salmonela em explorações agrícolas e infeções por estafilococos em hospitais. Os investigadores consideram que este uso excessivo pode justificar a epidemia da obesidade.

Em 2002 os americanos eram mais altos cerca de 2,54 cm e 24 quilos mais pesados do que na década de 1960 e mais de um terço são agora classificados como obesos. Claro que a dieta e o estilo de vida são os principais culpados, mas alguns cientistas questionam-se sobre outras razões para esta transformação impressionante do corpo dos americanos. Os antibióticos podem ser o factor X ou um deles.

O diretor do Programa de Microbioma Humano, Martin J. Blaser, encontra-se a investigar sobre o assunto. Em 1980, Blaser fazia parte do grupo de controlo de infeção por salmonela do Centers for Disease Control and Prevention, visitando quintas para investigar os surtos da doença, e lembra-se de ficar admirado com a quantidade de antibiótico em pó que os agricultores colocavam na ração. Qual é o significado disto?

É claro que enquanto os animais comem ração com uma dose significativa de antibióticos, para os seres humanos a situação é diferente; no momento em que as carnes nos chegam à mesa, elas já contêm pouco ou nenhum antibiótico. Os seres humanos ingerem muito mais antibióticos através dos comprimidos do que nos alimentos. As crianças americanas, em média, fazem um tratamento com antibióticos por ano, geralmente por otites e por infeções respiratórias. Podem estas doses, altas e intermitentes, afetar o metabolismo?

Para saber isto, o Dr. Blaser e os seus colegas passaram anos a estudar os efeitos dos antibióticos no crescimento de ratos recém-nascidos, em laboratório, criados com uma dieta com alto teor calórico e antibióticos. “Como todos sabemos, as dietas dos nossos filhos ficaram muito mais calóricas nas últimas décadas”, refere no seu livro “Missing Microbes”. O que acontece quando se mistura um donut de chocolate com penicilina?

Os resultados do estudo foram dramáticos, particularmente em ratos fêmeas: ganharam cerca de duas vezes mais gordura corporal do que os ratos do grupo controlo que comeram a mesma dieta sem antibiótico.

O laboratório de Blaser também investiga se os antibióticos podem estar a mudar o microbioma dos animais – 100 trilhões de microrganismos (bactérias, vírus e fungos)  que vivem dentro dos seus intestinos. Estes microrganismos parecem desempenhar um papel nos diferentes tipos de respostas imunes e, fundamentalmente, na digestão dos alimentos, na produção de nutrientes e na manutenção do peso saudável. Mas, os antibióticos podem matá-los!

Um estudo recente mostrou que a toma do antibiótico ciprofloxacina dizimou populações inteiras de certos microrganismos no trato digestivo de alguns pacientes – bactérias que tinham desde que nasceram.

Até recentemente, os cientistas simplesmente não tinham como identificar e classificar o microbioma. Mas, graças a uma nova técnica que permite o sequenciamento do genoma microbiano, é possível agora examinar populações bacterianas no interior das pessoas.

A investigação está conseguir juntar informação sobre como as bactérias do intestino moldam cada vida, desde o nascimento, quando os bebés recebem o microbioma das suas mães. Os bebés que nascem por cesariana e não fazem a viagem pelo canal do parto, ao que tudo indica, não recebem alguns microrganismos fundamentais das suas mães – possivelmente estarão incluídos aqueles que ajudam a manter um peso corporal saudável. As crianças nascidas por cesariana são mais propensas a ser obesas na vida adulta.

No momento em que se atinge a idade adulta, cada um de nós desenvolve o seu próprio microbioma, a sua coleção distinta de bactérias – como se o corpo humano fosse o condomínio que as bactérias intestinais ajudaram a construir e a decorar.

No laboratório de Blaser, assim como em outros, os cientistas competem para sequenciar o genoma microbiano do intestino humano e – ainda mais difícil – para descobrir que efeitos é que eles têm sobre nós. E se pudéssemos identificar quais as espécies que podem minimizar o risco de diabetes ou conferir proteção contra a obesidade? E se pudéssemos descobrir como proteger estas bactérias tão importantes para os seres humanos dos antibióticos ou fazer uma reposição quando são eliminadas?

Os resultados podem representar uma farmacopeia inteiramente nova, com medicamentos novos, como probióticos mais sofisticados, os “anti-antibióticos.”

Até chegarmos aí, já sabemos que os antibióticos podem produzir transformações no corpo humano e continuam a ser um recurso valioso que os médicos usam para combater infeções. Mas, enquanto a investigação decorre para desvendar as conexões entre antibióticos e o ganho de peso, deve-se pensar em reduzir o uso desnecessário de antibióticos. Uma maneira de fazer isto é proporcionar testes acessíveis que dão feedback imediato sobre o tipo de infeção contraída. Esta estratégia e outras, como um novo tipo de exame de sangue, estão atualmente em desenvolvimento e podem ajudar a eliminar a prescrição de antibióticos “por via das dúvidas”.

Até lá, temos de continuar a enfrentar o legado que estes medicamentos nos dão, apoiados na possibilidade de que eles são os responsáveis pelas alterações no nosso tamanho e nossa forma, tornando-nos pessoas diferentes.

Texto adaptado do The New York Times Magazine, março 2014 em: http://www.nytimes.com/2014/03/09/opinion/sunday/the-fat-drug.html?_r=1

Cristina Ferrão

Sobre Cristina Ferrão

Cristina Ferrão é licenciada em Nutrição Humana e Qualidade Alimentar na Escola Superior Agrária de Castelo Branco. Acredita na divulgação do conhecimento com bases científicas, como meio de promover a saúde e ajudar a população a adotar um estilo de vida saudável.