Alcachofra: um coração poderoso

A alcachofra é um dos vegetais com particular destaque na dieta mediterrânea. É um ingrediente fundamental na cozinha italiana, espanhola e francesa, mas está ausente na cozinha portuguesa.

Quando abre o cardápio em qualquer restaurante em Itália, a alcachofra (carciofi em italiano) está presente nas entradas, nas saladas, nas pizzas, massas e risottos. O mesmo se passa, por exemplo, na Catalunha onde lhe chamam carxofa. Aí, por exemplo, é costume colocar algumas alcachofras na grelha depois de temperadas com alho, azeite e sal, deixando-as estar até torrarem. Retiram-se então todas as folhas externas que se encontrem queimadas para se chegar ao seu coração, macio, de sabor sofisticado e poderoso em termos nutricionais.

A alcachofra é portanto uma opção a explorar.

Para além de ser uma boa fonte de vitamina B3, magnésio, fósforo, potássio e cobre, é uma excelente fonte das vitaminas C e K, de folatos, manganésio e fibras alimentares.

Quatro corações deste vegetal (mais ou menos 84 gramas) podem atingir 7 gramas de fibras, um valor considerável para o bom funcionamento intestinal e, aqui, sobressai a inulina, uma fibra solúvel. O papel da inulina e de outros oligossacarídeos têm sido extensivamente estudado, revelando uma influência positiva no equilíbrio da microflora intestinal, onde estimula o crescimento das bifidobactérias, e com efeitos benéficos ao nível da absorção de alguns minerais, no perfil lipídico do sangue e na prevenção do cancro do cólon.

Mas, a actividade antibacteriana, anti-colesterolémica, antioxidante, anti-cancerígena e hepatoprotectora exibida pela alcachofra deve-se não a um único mas ao conjunto dos seus compostos activos que geram sinergicamente estes efeitos farmacológicos, ao que se acrescenta, à sua composição bioquímica, os compostos fenólicos: ácido clorogénico, naringenina, uma flavanona, dois flavonóides – a apigenina e a luteolina, e a cianidina , uma antocianina.

O papel anticancerígeno destes compostos fenólicos é representado em pormenor por diversos mecanismos mas, de uma forma sucinta, se explica por uma supressão das vias de sinalização, interferindo no mecanismo da activação do factor de transcrição NF- kB.

De todos os fitoquímicos, anteriormente referidos, o mais abundante é a naringenina com 12,5 mg por 100 g de alcachofra. Esta flavonona é capaz de inibir o factor de transcrição NF- kB activando macrófagos que suprimem a expressão da enzima  iNOS (óxido nítrico sintase) e a produção de NO (óxido nítrico).

Se a alcachofra era uma desconhecida, a partir de hoje conheça melhor o seu poderoso coração.

Utilizá-la, como fazem os outros povos do mediterrâneo, pode representar uma forma importante de aumentar a ingestão de um conjunto de ingredientes activos na promoção da sua saúde.

[fonte] Referências Bibliográficas: Lattanzio V, Kroon PA, Linsalata V and Cardinali A, Globe artichoke: A functional food and source of nutraceutical ingredients. JFunctional Foods 1:131–144 (2009);Fratianni, F., Tucci, M., De Palma, M., Pepe, R., & Nazzaro, F. (2007).Polyphenolic composition in different parts of some cultivars of globe artichoke (Cynara cardunculus L. var. scolymus (L.) Fiori).Food Chemistry, 104, 1282–1286;  Prasad S, Phromnoi K, Yadav VR, Chaturvedi MM, Aggarwal BB. Targeting inflammatory pathways by flavonoids for prevention and treatment of cancer. Planta Med. 2010; 76:1044-63.[/fonte]

Margarida Vieira

Margarida Vieira, nutricionista, licenciada em Ciências da Nutrição (FCNAUP-1991), mestre em Nutrição Clínica (ISCSEM-2008). Doutorada em Estudos da Criança, na especialidade de saúde infantil pela Universidade do Minho. Membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas com a cédula profissional n (...)