Etnicidade e a residência: influenciam a microbiota intestinal?

A microbiota intestinal humana é um conjunto heterogéneo e complexo de microrganismos incluindo bactérias, vírus e fungos, que colonizam o intestino delgado e o cólon, e vivem em simbiose com o seu hospedeiro.

A microbiota intestinal tem uma relação simbiótica com o seu hospedeiro, contribuindo significativamente para a sua saúde metabólica e imunitária, influenciando vários processos, tais como a maturação do sistema imunitário, o metabolismo de nutrientes e drogas, os processos de desintoxificação, a síntese de vitaminas e a regulação das respostas imunitárias.

A etnicidade e o local de residência podem influenciar a composição da microbiota intestinal, mas é uma tarefa desafiante isolar estes fatores do ambiente socioeconómico, dieta, estilo de vida e tradições culturais. No entanto, num estudo em que se comparou a microbiota intestinal de uma população de malawianos, e de ameríndios com a de indivíduos residentes nos Estados Unidos da América, encontraram-se diferenças significativas na composição da microbiota intestinal das três populações, independentemente da idade.

Num outro estudo relevante, que incluiu 1020 indivíduos saudáveis de 23 populações, verificou-se que a abundância de Firmicutes subia com o aumento da latitude, enquanto a abundância de Bacteroidetes descia. Outros autores também encontraram associações entre a composição da microbiota intestinal e a etnia, mesmo depois de se considerarem fatores demográficos e dietéticos. No entanto, as diferenças foram atribuídas ao efeito coletivo de múltiplos fatores do estilo de vida que exercem diferenças subtis, mas distintas entre as etnias.

De facto, numa grande coorte de indivíduos de cinco grupos étnicos residentes nos Estados Unidos da América, verificou-se que as diferenças na composição da microbiota intestinal entre grupos étnicos eram mediadas por hábitos alimentares, mostrando que dos hábitos alimentares e de estilo de vida, que refletem a cultura e os hábitos de uma dada população, podem influenciar mais a composição da microbiota intestinal do que a etnicidade como fator único.

Curiosamente, quando uma população de bebés de três grupos étnicos foi seguida desde o nascimento, durante dois anos, foram encontradas diferenças significativas na composição da microbiota intestinal destas populações, e a etnicidade foi um dos três fatores que impulsionaram estas diferenças, bem como o modo de parto, e o aleitamento materno. Curiosamente, as diferenças estavam presentes aos 3 meses de idade quando os alimentos sólidos são incluídos na dieta.

Finalmente, duas comunidades diferentes da aldeia Bantu no sudoeste dos Camarões, com a mesma ascendência, mas hábitos alimentares diferentes mostraram perfis de microbiota intestinal diferentes, salientando que embora alguns estudos tenham associado variações de microbiota intestinal a variáveis geográficas, em muitos casos, os hábitos de vida podem prevalecer sobre a origem étnica.

Referências: Gupta VK, et al. Ethnicity or Subsistence-Specific Variations in Human Microbiome Composition and Diversity. Front Microbiol. 2017 Jun 23;8:1162; Morton ER, et al. Variation in Rural African Gut Microbiota Is Strongly Correlated with Colonization by Entamoeba and Subsistence. Benson A, editor. PLoS Genet. 2015 Nov 30;11(11):e1005658.; Xu J, et al. Ethnic diversity in infant gut microbiota is apparent before the introduction of complementary diets. Gut Microbes. 2020 Sep 2;11(5):1362–73; Falony G, et al. Population-level analysis of gut microbiome variation. Science. 2016 Apr 29;352(6285):560–4; Borrello K, et al. Dietary Intake Mediates Ethnic Differences in Gut Microbial Composition. Nutrients. 2022 Feb 4;14(3):660; Suzuki TA, Worobey M. Geographical variation of human gut microbial composition. Biol Lett. 2014 Feb;10(2):20131037. Ghosh TS, et al. Adjusting for age improves identification of gut microbiome alterations in multiple diseases. eLife. 2020 Mar 11;9:e50240; Yatsunenko T, et al. Human gut microbiome viewed across age and geography. Nature. 2012 Jun;486(7402):222–7. Crédito das imagens: macrovector por Freepik

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em atividades, tais como workshops sobre alimentação direcionados a doentes hemato-oncológicos. Tem como atuais áreas de interesse e pesquisa a nutrição em oncologia, atividade física em doentes oncológicos e alterações de estilo de vida após o diagnóstico. Inês Almada Correia, nutricionista, has a post-graduate course in Nutrition in Oncology by Universidade Católica Portuguesa and is taking a masters degree in Medical Biochemistry by Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa. Has participated in projects with Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), such as food and nutrition workshops for hemato-oncologic patients. Her main research interests are nutrition in oncology, physical activity in cancer patients and lifestyle changes after diagnosis.