Microbiota oral e cancro: conheça a relação

Muito se tem falado sobre a influência da microbiota intestinal em diversas doenças, mas neste artigo vamos olhar para a microbiota oral.

À semelhança do que acontece no intestino, a cavidade oral é colonizada por diversos microrganismos como bactérias, fungos e vírus. Alterações na microbiota oral – a disbiose têm sido associadas a alguns tipos de cancro, entre os quais se encontram o cancro do pâncreas, do esófago e colorretal. Justifica-se, por isso, conhecer um pouco mais sobre os microrganismos da microbiota oral que têm sido associados a estes tipos de cancro.

Microbiota oral: bactérias anaeróbicas

As bactérias Fusobacterium nucleatum e Porphyromonas gingivalis têm sido associadas à progressão de diversos carcinomas. As Fusobacterium fazem parte da microbiota oral, mas têm sido consideradas agentes infecciosos oportunistas em humanos. E de facto, níveis aumentados destas bactérias foram identificados nas fezes de doentes com cancro colorretal, podendo significar que ocorreu uma translocação destas bactérias, da boca para o intestino. A espécie Fusobacterium nucleatum, em particular, é uma espécie patogénica anaeróbica – o que significa que não precisa de oxigénio para se desenvolver – e Gram-negativa, envolvida na periodontite, uma inflamação das gengivas que afeta as estruturas de suporte dos dentes. A análise de tecidos de cancro esofágico de células escamosas mostrou que níveis aumentados desta bactéria, estavam associados a menor sobrevivência dos doentes, possivelmente contribuindo para uma maior agressividade do tumor.

As bactérias Porphyromonas gingivalis são também bactérias anaeróbias Gram-negativas capazes de perturbar os tecidos, também envolvidas na periodontite, e com potencial envolvimento no desenvolvimento de diversos tipos de tumor. A translocação destas bactérias da boca para outros locais e tecidos do corpo pode ocorrer a quando da passagem de bebidas e alimentos pela boca, mas também através da corrente sanguínea, em situações de infeção bacteriana oral. De facto, a má higiene oral tem sido associada a displasia esofágica, um tipo de lesão pré-maligna do cancro esofágico de células escamosas e a doença periodontal, tem-se relacionado com maior risco para o desenvolvimento de cancro do pâncreas.

Microbiota oral: bactérias aeróbicas

As bactérias aeróbicas – que precisam de oxigénio para sobreviver – são, na sua maioria, comensais, contribuindo para a manutenção do equilíbrio da microbiota oral. Apesar disso, foi identificada uma redução na concentração oral das bactérias Parvimonas no carcinoma escamoso celular oral, enquanto estas bactérias se encontravam aumentadas nos tecidos destes tumores. O género Pseudomonas também foi associado a alguns tipos de cancro.

Como pode a disbiose contribuir para o desenvolvimento de cancro? Doenças orais podem alterar o equilíbrio dos microrganismos que compõem a microbiota deste local, reduzindo a concentração de bactérias que, em situação de equilíbrio, se encontrariam em maiores concentrações, aumentado a concentração de bactérias que, em equilíbrio, se encontrariam em menores concentrações ou alterando a diversidade geral das bactérias. Estas alterações podem contribuir para alterações funcionais do ecossistema oral durante o processo de carcinogénese.

Referências: Yamamura K, Baba Y, Nakagawa S, et al. Human Microbiome Fusobacterium Nucleatum in Esophageal Cancer Tissue Is Associated with Prognosis. Clin Cancer Res. 2016;22(22):5574-5581. Sun J, Tang Q, Yu S, et al. Role of the oral microbiota in cancer evolution and progression. Cancer Med. 2020;9(17):6306-6321. Crédito das imagens: atlasbiomed.com

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em atividades, tais como workshops sobre alimentação direcionados a doentes hemato-oncológicos. Tem como atuais áreas de interesse e pesquisa a nutrição em oncologia, atividade física em doentes oncológicos e alterações de estilo de vida após o diagnóstico. Inês Almada Correia, nutricionista, has a post-graduate course in Nutrition in Oncology by Universidade Católica Portuguesa and is taking a masters degree in Medical Biochemistry by Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa. Has participated in projects with Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), such as food and nutrition workshops for hemato-oncologic patients. Her main research interests are nutrition in oncology, physical activity in cancer patients and lifestyle changes after diagnosis.