Era uma vez o Lontrinha

Pais e filhos: excesso de pesoCerto dia, num dia igual a tantos outros, recebo na consulta um simpático casal.

O marido que vinha a pedido da esposa, pouco convencido, dizia-me que pretendia perder peso mas que estava pouco disposto a alterar uma série de “maus hábitos” que tinham vindo a ser construídos durante uma vida inteira. Mas não é a história deste marido que lhes quero contar.

Depois de algum tempo de conversa, e pelo meio de uma “negociação” alimentar, o marido diz-me: – Este plano poderá ajudar também o “Lontrinha” ou talvez o possamos trazer cá.

Intrigada, perguntei a quem se referia, ao que este pai me respondeu: – O Lontrinha é o nosso filho do meio, chamamos de Lontrinha desde pequeno.

Nunca está saciado, come a refeição dele e dos colegas na escola e é pouco adepto de desporto.

Incomodada pela forma como este pai se referiu ao seu filho, coloco a seguinte questão: – Qual será o papel destes pais na educação alimentar deste filho e de que forma poderei guiá-los e ajudá-los.

Senti que tinha uma porta aberta e que estes pais precisavam de ajuda. Pedi que me trouxessem o Francisco, até então apelidado de Lontrinha, à consulta. Assim sucedeu.

O Francisco é uma criança calma, educada, mas de uma certa agressividade na sua postura com os pais que se mostraram permissivos ao longo da consulta, a quase todas as atitudes e intervenções do seu filho. Para uma criança que se viu sempre como “o gordo” ou “a lontra“, acha que ganhou um certo direito à sua rebeldia.

A definição do padrão alimentar

O padrão alimentar de uma criança é definido por certos determinantes. Os padrões de aceitação de alimentos desenvolvem-se cedo. A infância é um momento de particular sensibilidade para o desenvolvimento de preferências alimentares que permanecem relativamente estáveis ​​e influenciam as escolhas feitas mais tarde na vida.

Em geral, as crianças optam por comer os alimentos que são servidos com mais frequência e tendem a preferir alimentos que estão disponíveis em casa. Por exemplo, quando as frutas e legumes estão disponíveis as crianças são mais propensas a comer frutas e legumes.

Outras pesquisas têm demonstrado que não só a disponibilidade, como também a acessibilidade de alimentos saudáveis, quando os alimentos são de fácil acesso e prontos para serem comidos, são mais propensos a que as crianças os comam.

Para além das preferências, disponibilidade e acessibilidade, o conhecimento relacionado com alimentos para crianças, preferências e consumo, estão relacionadas com as preferências dos pais, crenças e atitudes em relação à comida.

As crianças aprendem acerca da alimentação, não só através da sua próprias experiências, mas também observando os outros. Um grande número de pesquisas tem demonstrado semelhanças entre pais e aceitação das crianças e preferências alimentares, ingestão e vontade de experimentar novos alimentos.

Alguns pais podem tentar restringir os “maus” alimentos e incentivar o consumo de alimentos “bons”. Os investigadores Birch e Ficher identificaram três padrões de estilos parentais em relação à alimentação da criança: autoritário, permissivo e autoritarista.

O estilo alimentar autoritário, inclui um comportamento de restrição de alguns alimentos, como por exemplo as guloseimas, e a obrigação do consumo de outros, como a fruta ou a sopa. Neste estilo, existe pouca consideração para as escolhas e preferências da criança.

A alimentação permissiva é caraterizada pelo que se pode considerar de “negligência nutricional”. A criança pode comer tudo o que ela quer, à hora e na quantidade que quiser. Numa alimentação permissiva, pouca ou nenhuma estrutura é fornecida, as escolhas são limitadas apenas por aquilo que está disponível. Serão os pais do Francisco do género permissivo? Não tenho grandes dúvidas.

Numa alimentação autoristarista conseguimos o equilíbrio entre a alimentação autoritária e permissiva, em que os adultos determinam quais os alimentos oferecidos e a criança toma a decisão de quais quer consumir. Neste estilo, a criança é incentivada a comer alimentos saudáveis, mas também são dadas algumas escolhas sobre as opções de comer. É exatamente o contexto que se associa a maior disponibilidade de frutos e vegetais, o seu maior consumo e um consumo reduzido de alimentos menos saudáveis.

Numa espécie de pequena conclusão a este texto, porque a história real do Francisco ainda vai no início, posso dizer-lhes que numa conversa mais ou menos longa, com negociação e opção nas escolhas alimentares, o pequeno ficou entusiasmado. Temos um acordo, que o Francisco jurou de coração cumprir, e eu estarei À espera de vencer esta pequena batalha.

 Referencias: Patrick H., Nicklas T., A Review of Family and Social Determinants of Children’s Eating Patterns and Diet Quality. Journal of the American College of Nutrition,Vol. 24, No. 2, 83–92, 2005; Fisher JO, Birch LL: Fat preferences and fat consumption of 3- to 5-year-old children are related to parental adiposity. J Am Diet Assoc 95:759–764, 1995.

Marisa Figueiredo, nutricionista licenciada em Ciências da Nutrição e mestre em Nutrição Clínica, pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, iniciou atividade clínica em 2004. É doutoranda na Faculdade de Medicina de Lisboa no curso de Doenças Metabólicas e de Comportamento Alimentar. Desenvolve atividade docente desde 2007 e colabora frequentemente em ações de divulgação na promoção da saúde e prevenção das doenças crónicas. Dedica o seu trabalho à nutrição clínica, no adulto e na criança, com particular interesse pela alimentação e saúde infantil. Acredita que o seu trabalho deve assentar essencialmente na mudança de atitudes face a comportamentos que possam pôr em risco a saúde. A estratégia adoptada passa por fazer chegar a mensagem aos pais e seus educandos. A prevenção começa in útero. Colaboradora do Stop Cancer Portugal desde Janeiro de 2013. Por indicação do autor, os seus textos não obedecem ao novo acordo ortográfico.     Marisa Figueiredo is a nutritionist, graduated in Nutritional Sciences and has a Master degree in Clinical Nutrition of the Institute of Health Sciences Egas Moniz. Started her clinical activity in 2004. She is a PhD student in Metabolic Diseases and Feeding Behavior at the School of Medicine of Lisbon. Develops teaching activity since 2007 and collaborates frequently in actions and workshops for promoting health and preventing chronic diseases. His work is dedicated to clinical nutrition in adults and children, with particular interest in child´s health and nutrition. She believes that her work should be based on attitudes and behaviours’ changing and prevention begins in utero. Collaborates in Stop Cancer Portugal since January 2013.