Depressão no doente oncológico

Post convidado de Ana Paula Figueiredo, Enfermeira especialista em saúde mental e psiquiatria no IPO Porto.

Depressão no doente oncológico

A depressão no doente oncológico é largamente influenciada pela perda ou diminuição de capacidades físicas, sentimento de impotência, problemas financeiros, perda de estatuto social, do emprego, assim como dor física e o desconforto que envolve a ameaça de perda ou mesmo a perda da identidade e integridade da pessoa e, alteração da sua percepção do futuro. Pode também existir por parte destes doentes uma grande dificuldade em se considerarem física e sexualmente desejáveis, o que influenciará e dificultará a manutenção de relações já estabelecidas ou a formação de novas relações. De facto, uma cirurgia pode envolver a excisão de órgãos pélvicos, com possível distúrbio da função sexual, tanto no homem como na mulher.

Sabemos que o síndrome depressivo pode manifestar-se através de um comportamento agressivo do doente para com a família ou para com as pessoas que o tratam, outras vezes manifestam-se por um comportamento de passividade acompanhado de mutismo. No entanto, o comportamento mais habitual consiste na perda de interesse pelo meio envolvente e por si próprio, perda de confiança no futuro e auto-depreciação.

O conhecimento do diagnóstico, a perda de um órgão e os efeitos colaterais dos tratamentos (quimioterapia, radioterapia ou hormonoterapia), contribuem, em alguma situações, para a doença psiquiátrica assim como os tratamentos efectuados pelo doente, com os seus efeitos colaterais por vezes irreversíveis (esterilidade).

Nos doentes oncológicos que se apresentam em fase terminal, torna-se difícil efectuar um diagnóstico de depressão, uma vez que os indicadores somáticos sugestivos de depressão, tais como alterações do sono, anorexia, astenia, diminuição da libido, perda de peso, cansaço e susceptibilidade emocional, podem estar directamente relacionados com a doença. Verifica-se por vezes que, o doente manifesta ser um peso para a sua família e que seria melhor se morresse. Sente que não tem valor e acredita que já não tem utilidade para si próprio, para a família e para a sociedade. Os sentimentos positivos diminuem e o entusiasmo pelas anteriores actividades sociais desaparece, surgindo a desesperança e os sentimentos de culpa.

Na realidade, a depressão encontra-se presente em pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e classes sociais, sendo importante a detecção precoce e o tratamento adequado, contribuindo-se assim para melhorar o prognóstico, sejam quais forem os factores etiológicos.

Referência Bibliográfica: FIGUEIREDO, Ana Paula. Impacto do tratamento do cancro colorrectal no doente e cônjuge: implicações na qualidade de vida, morbilidade psicológica, representações da doença e stress pós-traumático. Tese de Mestrado, Universidade do Minho; 2007

Ana Paula Figueiredo, natural da Trofa é Licenciada em Enfermagem e Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria pela Escola Superior de Enfermagem do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Educação para a Saúde pela Universidade do Minho. Actualmente exerce a sua actividade profissional na área da oncologia, no Porto. É Coordenadora do workgroup de Educação para a Saúde da Associação de Enfermagem Oncológica Portuguesa. Co-autora do projecto “Com um conto acrescento um ponto à minha saúde” e do Concurso “Com uma história conquisto uma vitória” é também autora de vários artigos científicos na área da oncologia e de histórias infantis na área da educação para a saúde. Colaboradora do Stop Cancer Portugal. Ana Paula Figueiredo, born in Trofa, holds a Bachelor of Science in Nursing with a specialization in Mental Health and Psychiatry awarded by the Porto School of Nursing. Master in Education, specialty subject of Health Education awarded by the University of Minho. Currently undertakes professional practice in the area of Oncology in Porto. Coordinates the Health Education workgroup of the Portuguese Oncologic Nursing Association. Coauthor of the project “With a tale I’ll add a dot to my health” and the competition “With a story I’ll conquer a victory”, she has also authored several scientific articles on the subject of oncology as well as children’s stories on the subject of health education. Collaborates in the project Stop Cancer Portugal.