As Faces do Cancro

Todas as palavras possuem um significado próprio, uma definição que as tornam únicas e diferentes das restantes. No entanto, nós, humanos, atribuímos a essas mesmas palavras sentimentos e valores e elaboramos a nossa interpretação. Será que quando pensamos na palavra “cancro” estamos a pensar na sua definição biológica ou nos remetemos de imediato para o nosso significado? Será que pensamos que é uma doença que resulta de um crescimento anárquico e descontrolado de células, ou pensamos na nossa representação da doença?

Quando se fala em cancro, para algumas pessoas, estão logo associadas as palavras punição, castigo, dor, má sorte, doença sem retorno… Punição ou castigo por actos realizados ao longo da vida. Para outros poderá ser um “veneno” ou “bicho” que nos consome por dentro, silenciosamente, sem dar sinais. Já outros poderão associar a mutilação, a alterações da imagem corporal, a dor, a sofrimento e até à própria morte.

Mesmo após a evolução científica das últimas décadas, o cancro tem uma conotação muito negativa. Estas representações podem afectar a adesão a tratamentos e, até mesmo, a própria vivência do processo da doença. Para além disso, predispõem para sentimentos de insegurança, medo, impotência, pavor, que se podem alastrar aos familiares e amigos… Se estivermos perante uma pessoa que associe a castigo, por exemplo, por mais tratamentos que se realizem, por melhor que seja a resposta a esses tratamentos, existirá sempre uma fraca expectativa. Essa pessoa, muito provavelmente, no seu íntimo, afirmará que nada será suficiente para a cura e controlo da doença. Poderá inclusive achar desnecessário o tratamento.

Perante isto, cabe assim a todos nós estarmos atentos a estas representações para perceber a sua génese, para depois as desmistificar e construir de novo. Dúvidas e incertezas surgirão certamente, mas não se esqueça que vai ter sempre um enfermeiro e um médico para colaborar consigo.

Bibliografia: MENDES, A.; EUSTÁQUIO, F. – Medos, crenças, representações sociais. Revista Nursing. N.º 141 (2000), p. 20-22.

Miguel Oliveira, natural de Braga, licenciado em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian – Universidade do Minho (2007), com passagem por Itália na área oncológica ao abrigo do programa de intercâmbio Europeu ERASMUS. Formador com CAP (2008), Pós-Graduado em Neuropsicologia de Intervenção pelo CRIAP/Associação Portuguesa de Neuropsicologia (2010). Colaborou no IEFP como formador. Iniciou a atividade de enfermagem em 2008 num hospital oncológico em Portugal, atualmente exerce a profissão no Reino Unido. Colaborou em vários projetos relacionados com a prevenção primária e apoio a doentes com cancro colo-rectal e seus familiares (Europacolon Portugal). Membro ativo na Associação de Enfermagem Oncológica Portuguesa, atualmente colaborador no Workgroup Dor. Por indicação do autor, os seus textos não obedecem ao novo acordo ortográfico.     Miguel Oliveira, born in Braga, Portugal, completed the Nursing License Degree at Calouste Gulbenkian Superior Nursing School, University of Minho (2007), with oncology experience in Italy under the European student exchange program ERASMUS. Former certified by IEFP (2008), completed the Post-Graduate Degree in Neuropsychology Intervention at CRIAP/ Portuguese Society of Neuropsychology (2010). Collaborated with IEFP as a former. Started as a Nurse Staff in 2008 in a cancer hospital in Portugal, at the moment is a Registered Nurse working in the UK. Collaborated in several projects dedicated to cancer primary prevention and support to colorectal cancer patients and its family (Europacolon Portugal). Active member of the Portuguese Association of Oncology Nursing, at the moment collaborates with the Pain Workgroup.