Alimentação saudável é sustentável? Não há uma resposta fácil

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Nos últimos 50 anos a procura por alimentos triplicou. Neste momento, chegámos a um ponto em que o consumo alimentar humano é 30% superior aos recursos naturais do nosso planeta. Se por lado é importante que a alimentação seja saudável, por outro é igualmente importante que seja ambientalmente sustentável. Mas será que uma alimentação saudável é sustentável?

Numa revisão de literatura publicada na revista Proceedings of the Nutrition Society, os investigadores concluíram que nem sempre uma alimentação saudável é sustentável em termos ambientais. Isto porque as escolhas alimentares têm naturalmente um impacto ambiental nas mudanças climáticas, na terra, no uso de água e energia, assim como na biodiversidade.

Contribuição das escolhas alimentares para o meio ambiente

De acordo com a Food and Agriculture Organization, dietas sustentáveis são: “dietas com baixos impactos ambientais, que contribuem para a segurança alimentar e nutricional, assim como para uma vida saudável, tanto para as gerações presentes como futuras. Dietas sustentáveis são protetoras e respeitadoras da biodiversidade e dos ecossistemas, culturalmente aceitáveis, acessíveis, economicamente justas e acessíveis, nutricionalmente adequadas, seguras e saudáveis, pois otimizam os recursos naturais e humanos “.

Algumas das mudanças alimentares consideradas para ajudar a reduzir o impacto da alimentação nas mudanças climáticas incluem a redução da ingestão de carne e produtos lácteos. No entanto, a viabilidade de tais abordagens, bem como as suas consequências não desejadas, tanto para a saúde como para o meio ambiente, devem ser consideradas antes de se adotarem tais medidas.

Do ponto de vista do consumidor existe uma resistência à redução da ingestão de carne. Uma alimentação à base de alimentos vegetais é considerada insuficiente em proteínas, especialmente por parte dos homens. Além do mais, há uma tendência cada vez maior para o aumento do consumo diário de proteínas, apesar de muitas pessoas já terem um consumo superior ao recomendado, indicando uma interpretação errónea sobre as recomendações diárias de ingestão de proteínas. A razão para este fenómeno poderá ter como base a atual popularidade das dietas com baixo teor em hidratos de carbono.

Do ponto de vista ambiental, os estudos mostram que a substituição de carne por alimentos de origem vegetal não resulta necessariamente num menor impacto ambiental. Por exemplo, se a carne for substituída por frutas e vegetais, mantendo a energia alimentar total constante, haverá um aumento da emissão de gases com efeito de estufa. Além disso, é importante ter em atenção aspetos como o método de cultivo, a região geográfica, o método de transporte e as condições de crescimento, uma vez que afetam fortemente o impacto ambiental dos produtos alimentares.

Do ponto de vista nutricional, qualquer alteração na alimentação deve ser considerada no contexto de uma alimentação completa e sem consequências para a saúde. Por exemplo, os produtos lácteos são fonte de nutrientes essenciais, tais como, o cálcio. Deste modo, é altamente improvável que uma dieta baseada num baixo consumo de hidratos de carbono, mas como um elevado consumo de carne e produtos lácteos, reduza a emissão de gases com efeito de estufa.

Embora alterações na alimentação, como a redução do consumo de carne, possam ser benéficas tanto para a saúde como para o meio ambiente, existem outros possíveis conflitos entre a saúde e os objetivos ambientais. Por um lado, o peixe é considerado muito saudável por ser rico em ácidos gordos ômega-3. Por outro, a sobrepesca representa uma séria ameaça às atuais populações de peixes. Outro exemplo são os produtos com baixo teor de gordura, onde não há uso para a gordura removida e são necessárias soluções inovadoras para reduzir esse desperdício de alimentos.

A questão que se coloca é se os hábitos alimentares são, simultaneamente, saudáveis e sustentáveis. Embora isso seja viável, as evidências científicas mostram que dietas saudáveis ​​são muitas vezes dietas não necessariamente sustentáveis ​​e vice-versa.

A noção de alimentação sustentável continua a ser complexa e nem sempre é bem compreendida. Enquanto os consumidores estão conscientes de que a produção de alimentos tem um impacto nas mudanças climáticas, a maioria dos estudos mostra uma clara falta de conhecimento por parte do consumidor sobre uma alimentação sustentável, assim como muitos equívocos sobre o que são, o que são barreiras para a mudança dos comportamentos alimentares.

A verdade é que não há uma resposta fácil para a questão: se uma alimentação saudável é sustentável, em termos ambientais. Devido à complexidade do termo sustentabilidade e os potenciais conflitos quando pensamos na alimentação saudável é necessária uma abordagem conjunta. Para isso, devem ser incluídos todos os intervenientes ao longo da cadeia alimentar, desde o campo até ao prato. É necessária uma informação e uma comunicação transparentes para criar uma sensibilização dos efeitos das nossas escolhas alimentares diárias, não só sobre a obesidade e a saúde, mas também nas mudanças climáticas.

Fonte de informação: Tradução e adaptação de um texto publicado pela European Food Information Council (EUFIC) em abril de 2013 em http://www.eufic.org/en/healthy-living/article/can-a-healthy-diet-be-environmentally-sustainable : Créditos da imagem: http://images.deccanchronicle.com/dc-Cover-b71jpd593vtvfvt3esk97okep7-20161116013826.Medi.jpeg

 

 

 

 

 

 

 

Cristina Ferrão

Sobre Cristina Ferrão

Cristina Ferrão é licenciada em Nutrição Humana e Qualidade Alimentar na Escola Superior Agrária de Castelo Branco. Acredita na divulgação do conhecimento com bases científicas, como meio de promover a saúde e ajudar a população a adotar um estilo de vida saudável.