Obesidade e excesso de peso: influência no prognóstico de sobreviventes de cancro da mama

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excesso de peso cancro da mamaA manutenção de um peso adequado parece reduzir significantemente a morbilidade e a mortalidade nos sobreviventes de qualquer tipo de cancro. No caso do cancro da mama, o prognóstico para as mulheres com excesso de peso/obesidade parece ser pior, mesmo que o diagnóstico seja o mesmo que mulheres com peso adequado.

Um estudo com 50 mil doentes mostrou que, ao diagnóstico, aquelas com excesso de peso já apresentavam características de pior prognóstico (estadios mais avançados). Verificou-se, também, que as doentes obesas tinham um risco aumentado em 46% de desenvolver metástases ao fim de 10 anos e um aumento de risco de 38% de morrer de cancro da mama ao fim de 30 anos. Assim, a quimioterapia e a hormonoterapia parecem ser menos efetivas no aumento da sobrevivência a longo prazo em mulheres obesas. Todavia, não apenas este mas outros estudos apresentam dados convincentes da associação entre obesidade e um maior risco de reaparecimento do cancro e de morte. O aumento da mortalidade foi de 33%, num trabalho que analisou 43 estudos realizados entre 1963 e 2005.

Durante os tratamentos, 50 a 96% das mulheres diagnosticadas com cancro da mama aumenta de peso e, mesmo aquelas que o mantêm, aumentam progressivamente nos meses e anos seguintes. Este aumento é mais comum em mulheres que recebem quimioterapia e naquelas que recebem tratamentos mais longos e são pré-menopáusicas. Pensa-se que as razões para o aumento de peso se relacionam com a diminuição da energia gasta em repouso, da atividade física e de alterações na dieta (aumento do consumo de alimentos e de uma alimentação mais calórica).

Contudo, também se verificam alterações na composição corporal (aumento da massa gorda e diminuição da massa muscular), diminuindo a apetência para a atividade física e, por conseguinte, favorecendo o aumento do peso. A perda de músculo reduz a tolerância ao tratamento e a recuperação do sistema imunitário após a quimioterapia, o que pode explicar o prejuízo na sobrevivência.

Verifica-se, ainda, um aumento do desequilíbrio ente a produção de compostos agressivos para o organismo (radicais livres) e a sua “desintoxicação”. Ora, estes aspetos são conhecidos como fatores de risco para a recorrência para o cancro da mama.

O tecido adiposo produz adipocinas que podem atuar nas células de cancro da mama e estimular a capacidade de invadirem outros tecidos. Além disso, o excesso de adiposidade pode provocar alterações na ação da insulina, provocando o crescimento tumoral. Assim, tem-se observado que, em mulheres pós-menopausa, a presença da obesidade associada à resistência a insulina se relaciona com tumores mais agressivos.

Enquanto, em mulheres em pré-menopausa, os estrogénios são produzidos nos ovários, nas mulheres pós-menopausa, a maioria é produzida no tecido adiposo. Assim, um aumento deste leva a uma elevação dos estrogénios em circulação, o que, no caso dos tumores da mama recetores de estrogénio positivo, aumenta as alterações no ADN e o crescimento dos tumores.

Contudo, o efeito do excesso de peso/obesidade não é apenas negativo na doença oncológica, já que, no caso das sobreviventes de cancro da mama, aumenta até 4x o risco de desenvolvimento de outras doenças (cardiovasculares, diabetes tipo 2, maior risco cirúrgico, fadiga, osteoartrite, entre outros). Note-se que as mulheres com cancro de mama tem a mesma ou mais probabilidade de morrer em consequência de doenças cardiovasculares que por cancro.

Assim, torna-se importante que as mulheres diagnosticadas com cancro da mama dêem especial atenção ao controlo do peso, para evitarem uma diminuição da qualidade de vida e sobrevivência. Esse controlo deverá incluir a prática de uma alimentação saudável (variada, equilibrada e completa) e de exercício físico que contrarie o aumento de massa gorda.

 

Referências: Ewertz M, Jensen M-B, Gunnarsdóttir KÁ, Hojris I, Jakobsen EH, Nielsen D et al. Effect of obesity on prognosis after early stage breast cancer. J Clin Oncol Off J Am Soc Clin Oncol. 2011; 29(1): 25-31. Felipe MJR, Mastínez AA, Manuel-y-Keenoy B. Influencia del peso corporal en el pronóstico de las supervivientes de cáncer de mama: abordaje nutricional tras el diagnóstico. Nutr Hosp. 2013; 28(6): 1829-1841. Patterson RE, Cadmus LA, Emond JA, Pierce JP. Physical activity, diet, adiposity and female breast cancer prognosis: a review of the epidemiologic literature. Maturitas. 2010; 66(1): 5-15. Protani M, Coory M, Mertin JH. Effect os obesity on survival of women with breast cancer: systematic review and meta-analysis. Breast Cancer Res Treat. 2010; 123(3): 627-35. Rock CL, Doyle C, Demark-Wahnefried W, Meyerhardt J, Courneva KS, Schwartz AL et al. Nutrition and physical activity guidelines for cancer survivors. CA Cancer J Clin. 2012; 62(4): 242-74. Fonte de imagens: http://breast-cancer-zone.blogspot.pt/; http://muathuoctot.com/one-xs-weight-loss-pills-thuoc-giam-can-an-toan-tang-nang-luong-va-ngan-chan-cam-giac-them-an-60-vien-277.html
Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.