O vinagre no rastreio do cancro do colo do útero

imagemPortugal tem, já há várias décadas, um programa nacional de rastreio de lesões na região vulvar e colo do útero através da colpocitologia, mais conhecido por “Papanicolau“. Vários outros países desenvolvidos também têm em curso programas idênticos.

Este tipo de rastreio tem custos imediatos demasiado elevados, implica equipas treinadas e meios logísticos e laboratoriais dificilmente alcançáveis para os países mais pobres. A inexistência, deste tipo de rastreios nos países em desenvolvimento, contribui para as elevadas taxas de incidência e mortalidade do cancro do colo do útero. Por isso algumas organizações internacionais têm desenvolvido esforços para criar alternativas mais baratas. Na última reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) foi apresentada a eficácia de uma possível alternativa de baixo custo económico: o vinagre.

O vinagre é um produto de resulta da fermentação alcoólica do vinho em ácido acético. Para além da sua utilidade na culinária e na desinfecção de materiais e superfícies, a comunidade científica identificou mais uma: o ácido acético em contacto com as proteínas das células causa uma alteração da cor dessas células. Ora, as lesões são mais que conglomerados de células, por isso, é expectável que nessa zona haja mais proteínas. Havendo mais proteínas, maior será a alteração da cor. Ou seja, em contacto com uma solução de vinagre, as células normais manterão a coloração rosa, enquanto as lesões irão adquirir uma coloração branca. Isto tudo visível a olho nu, sem necessidade de apoio laboratorial.

Durante 10 anos, mulheres entre os 35-64 anos de idade a viver perto de Mumbai (Índia), sem história de cancro, foram convocadas para uma inspecção da vulva e colo do útero com solução de vinagre, numa periodicidade bianual. Um outro grupo idêntico foi submetido aos mesmos critérios, mas não foi utilizada a solução de vinagre. Durante essa década, a mortalidade relacionada com o cancro do colo do útero no primeiro grupo foi cerca de 30% inferior à do segundo. Isto significa que, em países como a Índia, a inspecção com solução de vinagre pode prevenir, todos os anos, 22 000 mortes e cerca de 72 600 em países em desenvolvimento. Estes dados são promissores para a criação de programas de rastreio: o ácido acético tem um baixo custo económico, esta técnica não implica apoio laboratorial e facilmente se conseguem formar e capacitar equipas de técnicos de saúde para a sua realização!

[fonte] Fontes de informação: BLUMENTHAL, P. D., et al. Training for cervical cancer prevention programs in low-resource settings: focus on visual inspection with acetic acid and cryotherapy. International Journal of Gynecology & Obstetrics, 2005, 89: S30-S37.; http://screening.iarc.fr/doc/viavilimanual.pdf [/fonte]

Miguel Oliveira

Miguel Oliveira, natural de Braga, licenciado em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian – Universidade do Minho (2007), com passagem por Itália na área oncológica ao abrigo do programa de intercâmbio Europeu ERASMUS. Formador com CAP (2008), Pós-Graduado em Neuro (...)