Não é uma laranja, é uma toranja!

toranjaDiz-se que passamos muito tempo das nossas vidas a dormir, cerca de um terço. E, quanto tempo gastamos para comer?

Entre decidir comprar os alimentos, prepará-los e comê-los, que se pode repetir quatro, cinco e até mais vezes por dia, não deve estar muito longe de outro terço.

Mas, por incrível que pareça, se dedicar alguma atenção ao que anda a comer, bem como ao que anda a comer a maioria das pessoas com quem convive, chega à seguinte conclusão: passamos a vida a comer sempre o mesmo!

Sabemos que, uma escolha muito seletiva na alimentação não é a adequada para os seres humanos. Os benefícios que colhemos da alimentação saudável residem na sua diversidade, não na eficácia de características específicas de uma dezena de alimentos.

A propósito disto, de nos acostumarmos a comer mais ou menos sempre a mesma coisa, adotando comportamentos rígidos, há dias decidi fazer uma experiência: ao pequeno-almoço, preparei uma pequena surpresa e, em vez de laranja, servi toranja.

Enquanto preparava as toranjas, não houve qualquer manifestação. Toranja e laranja são citrinos e são difíceis de distinguir pelo seu aspeto exterior, têm o mesmo tom de casca. Mas, depois de descascadas e em rodelas, as reações foram demais.

Tudo começou com a primeira reação à cor: está estragada! Ao que tive que responder: Não é laranja, é toranja! Entre mais explicações da minha parte, seguiram-se mais reclamações que culminaram com o comentário: não vás dizer a ninguém que isto é bom! E soltei uma gargalhada porque as minhas cobaias perceberam que foram alvo de mais uma experiência minha.

Entenda-se que, se não somos educados para apreciar e conhecer os alimentos, e se fixam hábitos, dificilmente haverá espaço para outras possibilidades; mesmo com alimentos ligeiramente diferentes, não há hipótese.   

Para testar e gostar da toranja é necessário alguma abertura de espírito; nunca nos devemos agarrar à ideia de que, por a toranja ser parecida com a laranja, é suposto que tenha o sabor da laranja. Ao provar uma toranja fica a conhecer um sabor diferente e bastante complexo; entre as suas variedades mais amargas, a toranja com polpa de cor rubi é a mais doce (foi esta a utilizada na “experiência”). A toranja é para os aventureiros, é para os inovadores. Para quem não receia novos sabores!

O perfil nutricional da toranja conjuga-se na perfeição com as necessidades humanas básicas. Uma metade de toranja contém 52 calorias e excelentes quantidades de vitamina C (38,4 mg), de potássio (166 mg), de cálcio (27,1 mg) e cerca 2 gramas de fibras onde é predominante a pectina, uma fibra solúvel que se encontra distribuída pela polpa e casca. A substância fitoquímica encontrada em maior concentração é uma flavonona, denominada naringenina, com 53 mg por 100 g de parte edível do fruto.

Os dados científicos sugerem que a naringenina é capaz de suprimir a expressão da enzima  iNOS (óxido nítrico sintase) e a atividade da COX-2 (ciclo-oxigenase-2), regulando os níveis do fator de transcrição NF-kB. A  enzima iNOS e a pronstaglandina COX-2 estão envolvidas na inflamação crónica e contribuem para o desenvolvimento de outros processos patológicos, criando o ambiente celular favorável ao desenvolvimento da carcinogénese, sobretudo na fase de promoção do cancro do colon.

Apesar dos efeitos benéficos da toranja e dos seus nutrientes, é conveniente alertar para outros efeitos possíveis: a toranja tem o potencial de interferir com mais de 85 medicamentos prescritos e frequentemente usados; tem a capacidade de aumentar a potência da dose terapêutica dos fármacos, causando efeitos secundários graves devido à sobredosagem do efeito resultante (anticancerígenos, anti-infeciosos, anticolesterolémicos, cardiovasculares, imunossupressores, antidepressivos e outros para o sistema nervoso central, para o trato gastrointestinal e para o sistema urinário).

A toranja não é para todos os gostos, mas também não é para todos os dias.

Referências: U.S. Department of Agriculture, Agricultural Research Service. 2011. USDADatabase for the Flavonoid Content of Selected Foods, Release 3.0.; VANAMALA, Jairam, et al. Suppression of colon carcinogenesis by bioactive compounds in grapefruit. Carcinogenesis, 2006, 27.6: 1257-1265.; Grapefruit: A Nutritional Fruit Fraught with Danger of Severe Drug Interactions; AGARWAL, Shashi K. Grapefruit: A Nutritional Fruit Fraught with Danger of Severe Drug Interactions. Drug discovery, 2013, 3.9: 43-44.

Margarida Vieira

Margarida Vieira, nutricionista, licenciada em Ciências da Nutrição (FCNAUP-1991), mestre em Nutrição Clínica (ISCSEM-2008). Doutorada em Estudos da Criança, na especialidade de saúde infantil pela Universidade do Minho. Membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas com a cédula profissional n (...)