Cancro da mama recetores de estrogénio positivos: leucina e tamoxifeno

Investigadores verificaram uma relação entre os níveis de leucina e o desenvolvimento de resistência ao tamoxifeno, em doentes com cancro da mama com recetores de estrogénio positivosrecetores de estrogénio positivos

Em Portugal, o cancro da mama é o tipo de cancro mais comum entre as mulheres. Anualmente, são detetados cerca de 4500 novos casos de cancro da mama e 1500 mulheres ainda morrem com esta doença.

Recetores de estrogénio positivos e tamoxifeno

Os cancros positivos ao recetor estrogénio representam cerca de 75% dos casos de cancro da mama, em mulheres pós-menopáusicas, e cerca de 50 a 60%, em mulheres pré-menopáusicas. Assim, a maioria dos tumores da mama apresenta recetores de estrogénio positivos (ER+), sendo, frequentemente, tratados com tamoxifeno, o qual bloqueia o efeito da hormona nas células cancerígenas. Contudo, alguns tumores tornam-se resistentes a este fármaco, permitindo que o cancro recidive ou metastize. Assim, as doentes que desenvolvem este tipo de resistência apresentam pior prognóstico, pois os tratamentos disponíveis tornam-se mais limitados.

Recetores de estrogénio positivos e influência da leucina

Num artigo publicado na revista Nature os investigadores associaram a leucina a essa resistência. Esta é um dos 20 aminoácidos, estando entre os 9 que são essenciais, ou seja, que o organismo não é capaz de produzir, sendo necessário obtê-lo através da alimentação. Os alimentos mais ricos em leucina são aqueles que são mais ricos em proteína de origem animal como as carnes de vaca e de porco, galinha ou frango e peixe.

De acordo com o estudo, a diminuição dos níveis de leucina parece evitar a proliferação das células cancerígenas. Por outro lado, o aumento dos níveis foi associado ao favorecimento do desenvolvimento do cancro.

Os investigadores identificaram uma proteína (SLC7A5) existente na superfície das células que, em laboratório, “incorpora” a leucina nas células tumorais ER+, diminuindo a sensibilidade ao tamoxifeno. Quando essa proteína está presente em grandes quantidades nas células cancerígenas, estas absorvem mais leucina, favorecendo a resistência. Assim, o recurso a um inibidor químico da SLC7A5, como já foi testado com sucesso em animais de laboratório, pode vir a ser uma abordagem terapêutica possível no tratamento de cancro da mama ER+.

Os autores do estudo referem, também, que as células cancerígenas que se tornaram resistentes ao tamoxifeno adquiriram, ainda, a capacidade de se desenvolverem, mesmo quando os níveis de leucina eram baixos.

Recetores de estrogénio positivos: possível abordagem no tratamento

Os resultados deste artigo recente revelam uma potencial estratégia para ultrapassar a resistência de fármacos em doentes com cancro da mama ER+. Esta investigação abre a possibilidade de uma dieta pobre em leucina poder ser benéfica nestas doentes, devendo-se garantir, no entanto, um adequado aporte de proteínas.

Referência: Saito Y et al. LLGL2 rescues nutrient stress by promoting leucine uptake in ER+ breast cancer. Nature, 2019; DOI: 10.1038/s41586-019-1126-2; Serviço Nacional de Saúde – Prevenção do cancro da mama. Disponível em: https://www.sns.gov.pt/noticias/2018/10/30/prevencao-do-cancro-da-mama-3/. Acedido em: 3/6/2019. Fontes de imagens: https://elifesciences.org/digests/40854/new-insight-into-er-breast-cancer; https://draxe.com/essential-amino-acids/

Dina Raquel João é Nutricionista e Mestre em Nutrição Clínica, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas (nº 0204N), com o Título de Especialista para a área de Terapia a Reabilitação da Classificação Nacional de Áreas de Educação e Formação, subárea da Nutrição, tendo desenvolvido a sua atividade profissional principalmente na prática clínica, na docência e formação e na investigação. Como Nutricionista, iniciou atividade clínica em 2001, tendo exercido a nível hospitalar, em centro de saúde e em clínica privada. A experiência profissional na área da investigação decorreu, essencialmente, na área oncológica, tendo sido premiada nesse campo (1º Prémio de Nutrição Clínica da Fresenius Kabi, em 2002). Conta com diversas comunicações científicas orais e em painel, tanto em eventos nacionais como internacionais. Atualmente, é Professora Adjunta Convidada na Universidade do Algarve – Escola Superior de Saúde, lecionando à licenciatura em Dietética e Nutrição.