Caquexia no cancro: nutrição, fármacos e exercício físico

A caquexia é uma condição complexa associada à presença de doença e caracterizada por perda de massa muscular com ou sem perda de massa gorda. Esta definição é suportada por: perda de peso superior a 10%, ingestão calórica inferior a 1500 kcal/dia e o doseamento de proteína C reativa maior que 10 mg/L. Assim, um doente caquético apresenta perda de peso, índice de massa corporal reduzido e diminuição da massa e da força musculares, em combinação com uma doença que manifesta índices bioquímicos de atividade inflamatória elevada.

A caquexia afeta até 80% dos doentes com cancro avançado, principalmente do trato gastrintestinal e da cabeça e pescoço, influenciando negativamente a tolerância e a resposta aos tratamentos, piorando a qualidade de vida e reduzindo a sobrevivência. Para além disso, sabe-se que 25% das mortes por cancro ocorrem devido à caquexia e não à doença em si.

A perda de massa muscular em doentes oncológicos é preditor da diminuição da tolerância aos tratamentos, da diminuição da capacidade de desenvolver as atividades quotidianas e da redução da sobrevivência. A perda da qualidade de vida é outra das consequências associadas à perda de massa muscular, independentemente das taxas de sobrevivência.

Em doentes oncológicos, a diminuição da massa muscular é atribuída a alterações no metabolismo energético e das proteínas, bem como no prejuízo da síntese muscular, os quais assentam na diminuição da ingestão alimentar, em alterações hormonais e num quadro de inflamação sistémica.

Face a todas as implicações referidas, é de extrema importância que sejam desenvolvidas estratégicas terapêuticas que permitam prevenir ou atrasar a perda muscular induzida pelo cancro. Os resultados de estudos experimentais e clínicos mostram que as terapêuticas focadas em apenas uma área de intervenção dificilmente conseguirão ser bem-sucedidas no tratamento da caquexia. Deste modo, a intervenção deverá ser sempre multidirecionada, para além de individualizada. Além do tratamento farmacológico e da intervenção nutricional, a prática de atividade física programada deve estar incluída.

Caquexia e intervenção farmacológica

A intervenção farmacológica assenta, essencialmente, em compostos com ação no aumento do apetite, no controlo da inflamação e na interferência com vias anabólicas e catabólicas envolvidas na modelação do músculo esquelético. Contudo, não existe um único agente que seja completamente eficaz, levando à necessidade de integrar a terapêutica farmacológica numa abordagem multidisciplinar.

A flora intestinal é outro dos campos de estudo. Em estudos animais, estratégias que interferem com os microrganismos existentes no intestino têm mostrado melhorar o quadro de caquexia, pelo que teremos de aguardar por mais resultados e mais estudos.

Caquexia e intervenção nutricional

A intervenção nutricional deve ser uma parte essencial da abordagem de prevenção e tratamento da caquexia. A avaliação do risco nutricional deverá ser efetuada a todos os doentes oncológicos, aquando o diagnóstico da doença, e todos aqueles que estejam em risco deverão ser encaminhados para a consulta de nutrição. Este é o primeiro passo para uma abordagem que se quer preventiva, podendo incluir o aconselhamento nutricional ou a nutrição artificial, passando pela prescrição de suplementos orais.

Um dos aspetos da definição de caquexia diz respeito ao facto desta não ser completamente revertida através de um suporte nutricional. No entanto, recentemente, a evidência científica tem sugerido que os doentes oncológicos têm um potencial anabólico explorável, antes de atingirem a fase refratária da caquexia, constituindo um fundamento para intervenções precoces.

Para além de responder às exigências proteicas e energéticas, a intervenção nutricional deverá representar uma estratégia para contrariar a inflamação e interferir com os mecanismos envolvidos na caquexia, através de nutrientes específicos.

  1. Os ácidos gordos ómega 3 têm sido uns desses compostos. Apesar de existirem resultados acerca de um possível benefício, o facto é que são necessários mais trabalhos, nomeadamente que incidam em apenas um tipo de cancro, em fases iniciais da doença e com diferentes doses, dependendo da localização do tumor e do perfil inflamatório do doente.
  2. Aminoácidos de cadeia ramificada, bem como o beta-hidroxi-beta-metilbutirato (metabolito da leucina, um dos aminoácidos de cadeia ramificada), parecem atenuar a perda muscular. Todavia, também aqui são necessários mais trabalhos para confirmar os possíveis benefícios e indicar a dose ótima.
  3. L-Carnitina como  suplementação tem mostrado ser benéfica em estudos experimentais e em ensaios clínicos mas é necessária mais investigação para clarificar o seu potencial terapêutico na caquexia.

Caquexia e exercício

Considerando a heterogeneidade dos doentes e a possível presença de outras doenças associadas que limitem a capacidade individual, é importante que sejam investigados os efeitos de programas de exercício personalizados, de modo a assegurar a segurança e a eficácia das prescrições dos exercícios.

Por outro lado, o exercício tem mostrado impedir ou, pelo menos, retardar o crescimento do tumor.

Face ao referido, não existe, à luz dos conhecimentos atuais, nenhuma terapêutica efetiva contra a caquexia, devendo ser implementada uma abordagem multidisciplinar. Por esta razão, é mandatório implementar estratégias que previnam ou atrasem esta condição. Para tal, a avaliação do risco a todos os doentes oncológicos, na fase de diagnóstico, e a intervenção nutricional atempada são cruciais, para prevenir ou atrasar a caquexia. O exercício físico, estabelecido num plano de treino compatível com a capacidade dos doentes, é uma ferramenta importante para potenciar os efeitos anabólicos da intervenção nutricional, prevenindo as consequências negativas da inatividade física no músculo e na capacidade funcional.

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Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº0204N, mestre em  nutrição  clínica  pela  Universidade  do  Porto  e  doutoranda  da  Faculdade  de  Medicina  da Universidade de Lisboa. Iniciou a sua atividade profissional em 2001 e, atualmente, a (...)