Kefir: as propriedades anticancerígenas

Share on Facebook2.7kShare on Google+0Tweet about this on Twitter

O kefir é um tipo de leite fermentado obtido a partir de grãos de kefir que podem ser adicionados a qualquer tipo de leite.

Os grãos de kefir são compostos por bactérias e fungos num total de 37 espécies diferentes de microrganismos que ao fermentar o leite, originam um produto probiótico.

A simbiose entre os microrganismos presentes torna o kefir diferente de todos os outros leites fermentados e com uma série de possíveis efeitos benéficos: propriedades antibacterianas e antifúngicas, benefícios para o trato digestivo, nos níveis de colesterol e na prevenção do aparecimento de alguns tipos de cancro. Além disso, há estudos a sugerir várias propriedades anticancerígenas do kefir.

Ação anticancerígena do kefir

Num artigo de revisão recente acerca deste leite fermentado e do seu papel no tratamento do cancro, os autores incluíram 11 trabalhos científicos, dos quais 7 tinham sido elaborados com células e 4 em modelos animais. Os autores verificaram que a ação anticancerígena do kefir pode estar relacionada com a presença de uma série de componentes bioativos, como alguns péptidos, polissacáridos e esfingolípidos (por exemplo as esfingomielinas), os quais têm papéis significativos em diversas vias de sinalização e regulação do crescimento das células cancerígenas, da morte celular programada (a apoptose) e da transformação.

No que diz respeito aos péptidos, estes são libertados no processo de produção do kefir e parecem atuar na apoptose, através de dois processos distintos. Um deles, através da produção, no interior da célula cancerígena, de espécies reativas de oxigénio, as quais ativam a cascata das caspases e, logo, vão provocar a morte da celular. Outro processo tem por base a ativação das endonucleases dependentes de Ca/Mg (cálcio/magnésio), responsáveis pela “quebra” do ADN, durante a apoptose. A natureza destes péptidos, em termos de carga, faz com que a sua ação seja restrita às células cancerígenas, poupando as células saudáveis.

Quanto aos polissacáridos presentes nos grãos de kefir, podem exercer o seu efeito anticancerígeno através da ativação dos macrófagos, as células “assassinas” que integram o sistema imunitário inato, e de algumas populações de linfócitos T que libertam o fator de necrose tumoral provocando a morte das células do tumor.

O kefir pode induzir a morte celular ainda de outras formas: através da inibição de TGF-a, responsável pela proliferação das células cancerígenas, e através do estímulo de TGF-b, um elemento que induz a apoptose. Além disso, o kefir, através do importante papel na inibição de genes supressores da destruição celular e no estímulo de outros que funcionam como ativadores, pode promover a morte das células malignas.

As esfingomielinas presentes no kefir, por sua vez, aumentam a produção do interferão b, uma citocina com efeitos na inibição da proliferação das células tumorais.

Os resultados não são ainda suficientes para validar todos esses efeitos, tendo em conta que não foram efetuados estudos em humanos. No entanto, apesar de limitados, os dados incluem o kefir como um adjuvante promissor no tratamento do cancro.

Referências: Chen C et al. Kefir extracts supress in vitro proliferation of estrogen-dependent human breast cancer cells but not normal mammary epithelial cells. J Med Food. 2007; 10(3): 416 – 422. Furuya H et al. Sphingolipids in cancer. Cancer Metastasis Rev. 2011; 30(3-4): 567 – 576. Gao J et al. Induction of apoptosis of gastric cancer cells SGC7901 in vitro by a cell-free fraction of Tibetan kefir. Int Dairy J. 2013; 30(1): 14 – 18. Lopitz-Otsoa F et al. Kefir: a symbiotic yeasts-bacteria community with alleged healthy capabilities. Rev Iberoam Micol. 2006; 23(2): 67 – 74. Maalouf K et al. Kefir induces cell-cycle arrest and apoptosis in HTLV-1-negative malignant T-lymphocytes. Cancer Manag Res. 2011; 3: 39 – 47. Murofushi M et al. Immunopotentiative effect of polysaccharide from kefir grain, KGF-C, administered orally in mice. Immunopharmacology. 1986; 12(1): 29 – 35. Osada K et al. Enhancement of interferon-beta production with sphingomyelin from fermented milk. Biotherapy. 1993; 7(2): 115 – 123. Pepe G et al. Potential anticarcinogenic peptides from bovine milk. J Amino Acids. 2013; 2013:939804. doi: 10.1155/2013/939804. Rafie N et al. Kefir and cancer: a systematic review of literatures. Arch Iran Med. 2015 Dec;18(12):852-7. Fontes de imagens: http://www.foodtrients.com/news-page/aging-gracefully/getting-cultured-kefir-vs-yogurt/; http://bodyecology.com/articles/the-link-between-homemade-kefir-and-your-immune-system

Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.