Inibidores da bomba de protões e microbiota intestinal

Os inibidores da bomba de protões são uma classe de medicamentos comumente utilizados para tratar condições como refluxo gastroesofágico e úlceras pépticas. Dados do Instituto Nacional da Farmácia e do Medicamento (INFARMED) incluem estes fármacos entre os mais utilizados entre Janeiro e Novembro de 2022. Os inibidores da bomba de protões são fármacos que bloqueiam a produção de ácido gástrico, com o objetivo de reduzir sintomas como azia e indigestão. No entanto, pesquisas recentes sugerem que o uso de inibidores da bomba de protões também pode alterar a microbiota intestinal, o que pode ter um impacto significativo na saúde geral.

A microbiota intestinal é composta por um conjunto diversificado de microrganismos que habitam o intestino humano, tais como bactérias, fungos e vírus. Estes microrganismos desempenham um papel crítico na manutenção da saúde e função do intestino e o seu desequilíbrio tem sido associado a uma ampla gama de condições de saúde, entre as quais obesidade, diabetes, doenças metabólicas, doenças auto-imunes, cancro, alergias, doenças neuropsiquiátricas, entre outras. A composição da microbiota intestinal é influenciada por uma variedade de fatores, incluindo dieta, genética e uso de medicamentos.

Estudos têm mostrado que o uso de inibidores da bomba de protões pode alterar a microbiota intestinal de várias formas. Um dos efeitos mais notáveis é uma redução no número de bactérias benéficas, como Bifidobacterium e Lactobacillus. Estas bactérias desempenham um papel crítico na manutenção da saúde do intestino e a sua redução pode contribuir para o desenvolvimento de diversas doenças, tais como Síndrome do Intestino Irritável e Doença Inflamatória Intestinal.

Os inibidores da bomba de protões podem também aumentar o número de bactérias patogénicas, como Clostridium difficile e Escherichia coli. Estas bactérias podem causar infeções e inflamação, contribuindo para o agravamento e surgimento de certas condições de saúde, tais como o cancro colorretal.

É importante observar que as mudanças na microbiota intestinal associadas ao uso de inibidores da bomba de protões podem não ser permanentes. A pesquisa tem mostrado que a microbiota intestinal pode recuperar e voltar ao normal após a interrupção destes fármacos. No entanto, o uso a longo prazo de inibidores da bomba de protões pode ter efeitos mais permanentes na microbiota intestinal, podendo resultar num maior tempo de recuperação do intestino e da sua microbiota.

Em conclusão, o uso de inibidores da bomba de protões está associado a alterações na microbiota intestinal. Estas mudanças podem levar à redução de bactérias benéficas, aumento de bactérias patogénicas e podem aumentar o risco de certas patologias.

Referências: Imhann F, Bonder MJ, Vich Vila A, et al. Proton pump inhibitors affect the gut microbiome. Gut. 2016;65(5):740-748. Kerr CA, Grice DM, Tran CD, et al. Early life events influence whole-of-life metabolic health via gut microflora and gut permeability. Crit Rev Microbiol. 2015;41(3):326-340. Adak A, Khan MR. An insight into gut microbiota and its functionalities. Cell Mol Life Sci. 2019;76(3):473-493; Naito, Y., Kashiwagi, K., Takagi, T., Andoh, A., & Inoue, R. (2018). Intestinal Dysbiosis Secondary to Proton-Pump Inhibitor Use. Digestion, 97(2), 195–204. Drewes JL, Chen J, Markham NO, et al. Human Colon Cancer-Derived Clostridioides difficile Strains Drive Colonic Tumorigenesis in Mice. Cancer Discov. 2022;12(8):1873-1885. Le Bastard Q, Berthelot L, Soulillou JP, Montassier E. Impact of non-antibiotic drugs on the human intestinal microbiome. Expert Rev Mol Diagn. 2021;21(9):911-924.
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Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em atividades, tais como workshops sobre alimentação direcionados a doentes hemato-oncológicos. Tem como atuais áreas de interesse e pesquisa a nutrição em oncologia, atividade física em doentes oncológicos e alterações de estilo de vida após o diagnóstico. Inês Almada Correia, nutricionista, has a post-graduate course in Nutrition in Oncology by Universidade Católica Portuguesa and is taking a masters degree in Medical Biochemistry by Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa. Has participated in projects with Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), such as food and nutrition workshops for hemato-oncologic patients. Her main research interests are nutrition in oncology, physical activity in cancer patients and lifestyle changes after diagnosis.