Reabilitação auditiva e binauralidade: diferentes formas de atuar

Os procedimentos de reabilitação auditiva devem ter como objetivo promover o maior número possível de vantagens binaurais. As principais são: localização sonora, melhor perceção da fala no ruido, redundância binaural e melhor aprendizagem da linguagem nas crianças.

Quando ambos os ouvidos são estimulados para processar o som, existe uma melhoria notável na compreensão da fala. A audição com um só ouvido reduz a capacidade de distinguir a fala no ruído. Por outro lado, quando é feita adaptação de próteses nos dois ouvidos, estas requerem menos amplificação do que se fosse só uma. O resultado é uma melhor qualidade sonora e menor distorção.

Os meios de reabilitação auditiva que visam a reposição da binauralidade são:
1) Prótese auditiva com ou sem sistema cros/bicros (Contralateral Routing of Sound / Bi-Contralateral Routing of Sound) – quando uma prótese convencional não permite repor audição num ouvido com surdez acentuada, o sistema cros/bicros pode ser a solução.

Este sistema consiste em dois dispositivos: um microfone usado no pior ouvido e uma prótese auditiva no outro. Através deste sistema, o som é captado pelo microfone do ouvido que não ouve e transmitido ao ouvido melhor, via wireless, a chamada solução Cros, dando a sensação de estereofonia.
Se, por sua vez, o ouvido melhor tiver algum tipo de surdez, com recurso à solução BiCros, a prótese auditiva repõe também a audição deste lado.

2) Prótese osteointegrada – dispositivo que funciona por condução óssea, com recurso a uma técnica cirúrgica simples.
É, geralmente, indicado em surdez de transmissão, quando as próteses convencionais não são as mais indicadas.

3) Implante coclear – dispositivo eletrónico implantado cirurgicamente que estimula diretamente o nervo auditivo.
Mais direcionado para surdez severa e profunda. A colocação de implantes cocleares nos dois ouvidos tem como objetivo proporcionar uma melhor qualidade sonora.

Há várias situações em que é necessário repor a binauralidade:
a) Audição normal num ouvido e perda auditiva total no outro – a indicação passa por um sistema cros, ou implante coclear.
b) Audição normal num ouvido e perda auditiva parcial no outro – pode beneficiar de prótese convencional, osteointegrada ou ainda sistema cros.
c) Perda auditiva bilateral, mas assimétrica – dependendo do tipo e grau de surdez, podem ser indicadas próteses auditivas convencionais, osteointegradas ou implantes cocleares. Se a perda auditiva do pior ouvido for total, pode ainda beneficiar de prótese com sistema bicros.
d) Zumbido – A utilização de próteses auditivas revela-se eficaz no tratamento do zumbido, quando associado a perda auditiva. Se a adaptação for monoaural pode ser insuficiente, pois a sensação de zumbido pode diminuir apenas no ouvido com prótese, permanecendo no outro.
e) Equilíbrio postural – O equilíbrio depende, basicamente, de três sistemas: visual, propriocetivo e audio-vestibular. Se existe apenas um ouvido funcional, todos os sons se direcionam a este ouvido, favorecendo o desequilíbrio. Assim, a binauralidade pode proporcionar melhor sensação de equilíbrio postural.
f) Crianças com surdez – é importante a intervenção precoce e binaural.

Apesar da importância da binauralidade, não deve ser descurado o fenómeno da interferência binaural, que é uma alteração do processamento auditivo central. É necessário existir integridade do sistema auditivo e do sistema nervoso central, para se processar a informação, analisando as características dos estímulos, de forma a serem interpretados.

Não basta ouvir sons, é necessário percebê-los. Quando este processamento não é feito corretamente num ouvido, a utilização de prótese auditiva pode trazer mais confusão do que auxílio, prejudicando, até, a audição conseguida com o outro ouvido. Este fenómeno resulta numa maior dificuldade de compreensão da fala. Há melhor desempenho e conforto utilizando apenas uma prótese auditiva. Assim, para auxiliar o diagnóstico audiológico desta interferência, são necessários vários testes de processamento central, nomeadamente o teste dicótico de dígitos. Em termos de reabilitação, antes da adaptação da prótese auditiva, pode ser necessário recorrer a treino auditivo.
Qualquer perda auditiva, sempre que haja indicação, deve ser corrigida para prevenir a privação sensorial. De realçar, ainda, que uma correta adaptação protésica, pode minimizar o impacto de outras patologias associadas, como ansiedade, depressão, ou até a demência.

Referências: Frederick J. Gallun, Impaired Binaural Hearing in Adults: A Selected Review of the Literature, Review article, Front. Neurosci., 19 March 2021, Sec. Auditory Cognitive Neuroscience
https://doi.org/10.3389/fnins.2021.610957. Créditos de imagem: https://www.binaural.com.br/wp-content/uploads/2021/10/ouvido-absoluto-2.png

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pela FEUP. Investigadora e orientadora de teses de Mestrado e Doutoramento, na FEUP. Os seus principais interesses relacionam-se com a Audiologia e Reabilitação Auditiva, assim como simulações matemáticas de modelos computacionais do ouvido. Fernanda Gentil is Audiologist at the ORL Clinic Dr. Eurico Almeida and Coordinator of Widex-Porto. Degree in Applied Mathematics - Computer Science, FCUP. Audiology Professor at ESS, Porto. PhD in Engineering Sciences, FEUP. Researcher and advisor of Master's and PhD theses at FEUP. His main interests are related to Audiology and Auditory Rehabilitation, as well as mathematical simulations of computational models of the ear.