Microbiota intestinal humana: a influência dos fármacos

A microbiota intestinal humana é constituída por um conjunto de microrganismos que colonizam o intestino e vivem em simbiose com o seu hospedeiro, tais como bactérias, arqueas, vírus e fungos. A microbiota intestinal é dinâmica, e quando em equilíbrio apresenta está associada à manutenção de saúde, mas quando em desequilíbrio pode contribuir para o desenvolvimento de diversas patologias.

São vários os fatores que contribuem para as alterações da composição da microbiota intestinal, ao longo da vida, sendo os fármacos, um desses fatores. É amplamente reconhecido que os antibióticos podem alterar a composição da microbiota intestinal humana, mas nem todos os antibióticos são iguais, já que cada classe de antibióticos tem um impacto diferente na microbiota intestinal. Por exemplo, enquanto as quinolonas de primeira geração afetam apenas algumas espécies bacterianas, as de quarta geração inibem quase todas as espécies bacterianas.

A ação dos antibióticos sobre as bactérias intestinais pode ser bactericida, levando à eliminação de comensais que pode levar à perda de bactérias da comunidade de bactérias, enquanto no segundo caso, há um impedimento do crescimento durante a toma do antibiótico, mas as bactérias comensais, restabelecem as suas populações após a suspensão da toma. Os macrolídios e as tetraciclinas são antibióticos com uma forte ação bactericida, as tetraciclinas, mesmo em concentrações baixas, tendo efeitos profundos na composição da microbiota intestinal.

Em indivíduos saudáveis, a comunidade de Bacteroides persiste no intestino por longos períodos de tempo, no entanto, após 7 dias de administração de clindamicina, verifica-se uma diminuição significativa destas bactérias, que em alguns casos pode durar até 2 anos. Curiosamente, o uso concomitante de outros medicamentos com antibióticos pode permitir um efeito antídoto resultando numa diminuição do impacto sobre os comensais bacterianos, sem afetar a eficácia do antibiótico.

Vários medicamentos não antibióticos também podem afetar a microbiota intestinal. Os inibidores da bomba de protões apresentam um maior risco para diarreia associada a Clostridium difficile, a recorrência de Clostridium difficile em pacientes internados e in vitro mostraram atividade contra as bactérias comensais, ou seja, ao alterar o pH do estômago, poderá ocorrer a migração das bactérias da cavidade oral, alterando as bactérias no intestino. As espécies mais frequentemente alteradas são Streptococcus spp, Streptococcus parasanguinis e Veillonella parvula.

A metformina também parece alterar a composição bacteriana da microbiota intestinal. Curiosamente, com a toma de metformina, vários estudos observaram um aumento na abundância de Akkermancia muciniphila, uma bactéria degradadora de mucina geralmente considerada benéfica, e em várias bactérias produtoras de ácidos gordos de cadeia curta como Butyrivibrio, Bifidobacterium bifidum, Megasphasera e Prevotella, significando que os efeitos terapêuticos da metformina podem estar associados à melhora da barreira intestinal.

Referências: Sinha T, Vich Vila A, Garmaeva S, et al. Analysis of 1135 gut metagenomes identifies sex-specific resistome profiles. Gut Microbes. 2019;10(3):358-366. Jernberg C, Löfmark S, Edlund C, Jansson JK. Long-term ecological impacts of antibiotic administration on the human intestinal microbiota [published correction appears in ISME J. 2013 Feb;7(2):456]. ISME J. 2007;1(1):56-66. Le Bastard Q, Berthelot L, Soulillou JP, Montassier E. Impact of non-antibiotic drugs on the human intestinal microbiome. Expert Rev Mol Diagn. 2021;21(9):911-924. Maier L, Pruteanu M, Kuhn M, et al. Extensive impact of non-antibiotic drugs on human gut bacteria. Nature. 2018;555(7698):623-628. Maier L, Goemans CV, Wirbel J, et al. Unravelling the collateral damage of antibiotics on gut bacteria. Nature. 2021;599(7883):120-124. Crédito das imagens: Raman Oza por Pixabay

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em atividades, tais como workshops sobre alimentação direcionados a doentes hemato-oncológicos. Tem como atuais áreas de interesse e pesquisa a nutrição em oncologia, atividade física em doentes oncológicos e alterações de estilo de vida após o diagnóstico. Inês Almada Correia, nutricionista, has a post-graduate course in Nutrition in Oncology by Universidade Católica Portuguesa and is taking a masters degree in Medical Biochemistry by Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa. Has participated in projects with Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), such as food and nutrition workshops for hemato-oncologic patients. Her main research interests are nutrition in oncology, physical activity in cancer patients and lifestyle changes after diagnosis.