Sal e açúcares escondidos nos alimentos processados: os “Cavalos de Troia” da era moderna

Deixo-vos aqui o meu artigo publicado na quinta-feira na LOOKmag, uma alerta sobre o sal e os açúcares adicionados nos alimentos processados.

O sal e os açúcares estão escondidos em quantidades excessivas nos alimentos processados; eles sequestram o nosso paladar e comprometem os comportamentos alimentares saudáveis. É preciso traçar limites sem demora!

Sabemos que a informação sobre a composição nutricional destes produtos é disponibilizada no rótulo alimentar, mas nem sempre nas melhores condições, dado que a indústria alimentar recorre a palavras indecifráveis para a grande maioria de nós que não domina os termos específicos próprios da química alimentar. Em função disto, o que recomendo é que consulte e aprenda a avaliar, nos produtos que mais consome, pelo menos, estes dois aspetos: a quantidade de sal (ou cloreto de sódio) e os açúcares.

Estes dois ingredientes são prejudiciais para a saúde de qualquer um de nós e, atualmente, eles impõem massivamente a sua presença. Analise qualquer informação acerca deste assunto e vai chegar a esta conclusão: quando a alimentação não é à base de alimentos frescos e integrais, estamos condenados a alimentos que nos invadem como “Cavalos de Troia”: parecem ser úteis, estruturados e muito nutritivos mas, na realidade, comprometem a saúde de quem os come.

A expressão “Cavalo de Troia” surgiu da mitologia grega e deu origem a outra expressão também conhecida como “presente de grego”; é um termo usado para qualquer coisa que aparenta ser boa e agradável mas que,  pelo contrário, produz consequências negativas, revelando-se, por isso, perigosa, neste caso, para a nossa saúde.  Na verdade, este termo encaixa que nem uma luva nos alimentos processados altamente ricos em sal ou em açúcares que estamos a comprar.

Parece-me a mim que estamos a ficar mais conscientes e críticos e, gradualmente, a despertar para opções verdadeiramente saudáveis, naturalmente caraterizadas pela ausência do sal e de açúcares artificialmente adicionados. Mas ainda há quem resista a estas verdades e não acredite que a indústria alimentar seja capaz de fabricar “presentes de grego”, convencidos pela máquina da publicidade que a toda a hora os leva a crer que os seus produtos preenchem os requisitos nutricionais adequados para tornar qualquer lanche num lanche saudável e que até são alternativas válidas aos alimentos naturais e integrais nas refeições principais.

A título de exemplo, e por várias razões, selecionei, entre dezenas de alimentos processados bastante consumidos, o pacote de batatas fritas. Arrisco a afirmar que não há criança, jovem ou adulto que lhe resista. Está em qualquer ponto de venda.

Analisemos então um pacote de batatas fritas com o peso de 120 g. Depois de consultar rótulos alimentares de três marcas, recolhi a seguinte informação: em média, em cada pacote há 1,92 g  de sal; detetei também a presença de açúcares adicionados (uma das marcas apresentava 16,8 g) e portanto, uma fonte escondida de calorias.

No que respeita ao consumo de sal, a Organização Mundial de Saúde recomenda que não se ultrapassem os 5 gramas diários. Na maioria dos países desenvolvidos, a ingestão de sal anda à volta dos 9 a 12 g/dia, sendo que  nas crianças com mais de 5 anos este valor geralmente já é superior a 6 g/dia, um valor que vai aumentando com a idade, sobretudo à custa do sal que se ingere nos alimentos processados.

Posto isto, temos que ponderar e fazer contas: se um mero pacote de batatas fritas atinge mais de 1/3 do valor diário aconselhado em sal (38%), restam 3,08 g para todos os outros alimentos e refeições de um dia inteiro. É fácil adivinhar que fica muito difícil ficar por aqui, já que a lista dos alimentos processados altamente salgados é extensa e bastante consumida; é o caso das bolachas, das pipocas, das pizas, dos fiambres, da mortadela, do bacon e das salsichas. Confirme também naqueles queijinhos portáteis que pode levar consigo e que, se comer dois por dia, o sal chega aos 0,7 g. Todos estes exemplos tornaram-se elementos presentes de forma assídua no atual padrão alimentar português.

Por que razão devemos reduzir o consumo de sal?

consumo excessivo de sal aumenta a pressão arterial, o que contribui em grande medida para o risco aumentado de doença cardiovascular e doença renal. Além disso, tem efeitos diretos no risco de morte por acidente vascular cerebral e na hipertrofia ventricular esquerda para além de, provavelmente, ser uma das principais causas de cancro do estômago. Há também evidências crescentes de que o consumo de sal está indiretamente relacionado com a obesidade infantil, por induzir ao consumo de refrigerantes.

Seja pelo sal ou pelos açúcares camuflados, a minha recomendação é que os elimine da rotina alimentar e os substitua por alimentos naturais, livres de rótulos. Pense em fruta e na sua grande variedade como uma opção verdadeiramente saudável para pequenos lanches. A fruta da época, de acordo com as 4 estações, afasta a monotonia imposta pelos “Cavalos de Troia” da era moderna e liberta-nos dos prejuízos devastadores para a saúde.

Não espere que a indústria alimentar baixe o sal ou os açúcares dos seus produtos, sem que a isso seja forçada. Encarregue-se de iniciar o processo de educar o seu ambiente familiar e seja o primeiro a desencadear essa mudança! Lembre-se que a saúde e a família são suas e o dinheiro também!

Referências:WHO. Guideline: Sodium intake for adults and children. Geneva, World Health Organization (WHO), 2012.;He, F. J., & MacGregor, G. A. (2010). Reducing population salt intake worldwide: from evidence to implementation. Progress in cardiovascular diseases52(5), 363-382.

Margarida Vieira, nutricionista, licenciada em Ciências da Nutrição (FCNAUP-1991), mestre em Nutrição Clínica (ISCSEM-2008). Doutorada em Estudos da Criança, na especialidade de saúde infantil pela Universidade do Minho. Membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas com a cédula profissional nº 0052N. Investigadora na Fundação para a Ciência e Tecnologia (2011-2015). Membro do Centro de Investigação em Estudos da Criança – CIEC. Desenvolve a sua atividade na Investigação e na área da Nutrição Clínica. É autora e coordenadora de projectos de prevenção primária na área da saúde, bem como na organização e dinamização de seminários sobre hábitos alimentares saudáveis, predominantemente em ambiente escolar. Os seus atuais interesses de investigação, são no domínio da promoção e da comunicação para a saúde, na prevenção do cancro e de outras doenças crónicas. Responsável pela conceção e coordenação de campanhas para a prevenção do cancro. Trabalhou no Marketing Farmacêutico e especializou-se em Gestão e Comunicação da Marca (IPAM – 2003). Autora e fundadora do Stop Cancer Portugal, adotar um estilo de vida saudável. Usa o novo acordo ortográfico. Margarida Vieira, nutritionist, is PhD in Child Studies of the University of Minho. Member collaborator of the Research Centre for Child Studies - CIEC. 
She is author and coordinator of projects for primary prevention in health care as well as in the organization and promotion of workshops on healthy eating habits in the schools. Her current research interests are cancer prevention and other chronic diseases and health communication.
 Responsible for the design and coordination of the awareness of campaigns for the prevention of cancer. Worked in Pharmaceutical Marketing and specializes in Brand Management and Communication. Author and Founder of Stop Cancer Portugal Project.