Aceitação ou resignação?

Para aqueles de nós que olham para o mundo com uma perspectiva interventiva não é fácil falar de aceitação. A ideia de aceitar algo faz-nos sempre pensar em conformismo, frustração, submissão e consequentemente abatimento e desistência. E não é assim que nós concebemos o mundo nem a existência humana. Se a humanidade se tivesse resignado perante os obstáculos que tem vindo a enfrentar nunca teríamos sequer sobrevivido enquanto espécie.

Contudo, se pensarmos em aceitação enquanto etapa de um processo que compreende muitas outras etapas em direcção à mudança e ao crescimento pessoal, acabaremos por conseguir interpretar a aceitação como algo fundamental até para a própria sobrevivência.

Aliás, a aceitação é justamente considerada por Viktor Frankl como um dos cinco ingredientes que explicam a sobrevivência e sanidade mental de indivíduos que se confrontam com experiências profundamente dramáticas tal como mencionámos no artigo “O Optimismo Trágico de Viktor Frankl”.

Esta aceitação é apenas uma etapa, um pequeno troço de caminho que é preciso percorrer para chegar aquilo que é próprio do Homem, ou seja, a transformação do mundo e da sua realidade e não a simples resignação.

Pode parecer paradoxal mas para mudarmos algo temos que começar por identificar os aspectos da nossa experiência que não podemos mudar e aceitá-los. Contudo o caminho não termina aí pois é justamente dessa aceitação que é possível a seguir identificar o que é possível mudar e, então, dirigirmos a nossa jornada para metas muito mais realistas. Nesta perspectiva, a aceitação do que não podemos mudar permite-nos parar de consumir tempo e energia com o que é infrutífero e dirigir a jornada para o que é passível de sofrer mudança e intervenção. Aceitar, torna assim os nossos esforços mais eficazes.

A aceitação é uma oportunidade de aprendizagem

A aceitação dos factos incontornáveis da vida, dos acontecimentos que escapam ao nosso controlo, é sobretudo um exercício de humildade e uma oportunidade de aprendizagem de uma nova atitude perante a vida, nomeadamente, da atitude de rendição perante o que não controlamos.

Esta oportunidade é particularmente frutuosa para aqueles de nós que vivem permanentemente a tentar controlar tudo em seu redor na expectativa de que nada corra de modo diferente do planeado. Esta atitude é compreensível e em algumas situações até desejável mas é simultaneamente esgotante e faz-nos perder a oportunidade de vivenciar experiências que até nos poderiam proporcionar muito prazer e crescimento pessoal. Se não permitirmos, de vez em quando, que a corrente nos leve, se não nos abandonarmos, de vez em quando, à nossa sorte, confiando na vida, não possibilitamos a experiência do que é novo, do que é surpreendente, do que é a sensação de liberdade que advém de não termos a necessidade de controlar tudo e, no fundo, do que é a aventura e o mistério da vida.

E quando o homem assume uma atitude de aceitação ante dos condicionamentos, no momento em que opta pela responsabilidade, a despeito da irreversibilidade da situação factual, então ele tem a possibilidade de libertar-se para encontrar um sentido real para a sua existência.

Referências: Moreira, Neir & Holanda, Adriano (2010). Logoterapia e o sentido do sofrimento: convergências nas dimensões espiritual e religiosa. Psico-USF, v. 15, n. 3, p. 345-356, set./dez. 2010.; Fonte da imagem: http://praticazen.com/a-aceitacao-incondicional-de-si-mesmo/ 

 

Rita Rosado nasceu em 1974 no Barreiro apesar de viver actualmente numa aldeia do Concelho de Tomar com a sua família. Licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1997, é membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses com a cédula profissional nº 007261 e concluiu o Mestrado em Ciências da Educação – Formação de Adultos em 2007, pela mesma Universidade. Fez formação em Psicoterapia durante 2 anos, na Sociedade Portuguesa de Psicologia Clínica e exerceu esta actividade entre 1998 e 2005. Actualmente trabalha na área de Orientação Profissional e concilia esta atividade com a formação amadora na área musical. O seu interesse pela problemática da prevenção do cancro aprofundou-se após a experiência que vivenciou enquanto familiar de doentes de cancro. A sua abordagem perante a prevenção dos estados de doença tem por base uma visão holística dos seres humanos enquanto seres com uma dimensão física, emocional e até espiritual ou existencial com necessidade de cuidados ao nível de todas estas facetas.     Rita Rosado was born in Barreiro in 1974 but now lives in a small village near the city of Tomar (Central Portugal). Rita studied Clinical Psychology at Psychology and Educational Sciences College at Lisbon University and got her degree on 1997. She also got a Master degree in Educational Sciences – Adults Education, at the same College, ended in 2007. Rita had 2 years training in Psychoterapy at Portuguese Clinical Psychology Society and worked as a Psychoterapist between 1998 and 2005. At the moment she works has a Career Counselling and spends also some time learning music. Rita´s interest in cancer prevention grows when she had to face this problem in her family. Her vision about health prevention is: “We should see human beings in their multiple dimensions, physical, emotional and spiritual or existential and realize the need to care for all these dimensions”.