Exercício físico no cancro da mama para melhoria da composição corporal

O cancro da mama, assim como todos os tipos de cancro, a alteração na composição corporal, em qualquer fase da doença, deve ser valorizada.

Se por um lado, entre 40% a 60% dos doentes com cancro, na altura do diagnóstico, tem excesso de peso ou obesidade, por outro, a prevalência de sarcopenia neste mesmo momento do diagnóstico é de 40% a 50%. É assim muito relevante olhar para a composição corporal, mais do que para o índice de massa corporal, já que este não permite distinguir que componente do peso corresponde a gordura ou massa muscular.

Sabemos que a sarcopenia ou reduzida massa muscular, assim como a obesidade sarcopénica , que se traduz na co-existência de obesidade e baixa massa muscular, estão associadas a desfechos desfavoráveis em doentes oncológicos e que o excesso de peso e a obesidade são prevalentes nos doentes com cancro da mama, estando presentes antes do diagnóstico, mas surgindo também, como consequência dos tratamentos. Justifica-se, por isso, saber o que pode ser feito para conseguir uma alteração na composição corporal positiva, que melhorará os desfechos nesta população.

Relativamente à perda de peso, num artigo publicado em 2020, que relata os resultados de uma intervenção com dieta e exercício físico, antes da cirurgia para ressecção do tumor, num grupo de 17 mulheres com cancro da mama e 15 controlos, com excesso de peso e obesidade, os autores identificaram efeitos positivos no grupo de intervenção. Neste trabalho, os resultados são sugestivos de uma modulação da expressão genética favorável no grupo de intervenção, no entanto os autores sugerem que a perda ponderal ocorra após a recessão do tumor.

Quanto ao melhor tipo de exercício físico a ser praticado, o treino de resistência, durante os tratamentos, tem resultados positivos na melhoria da composição corporal. O treino de força com um menor volume semanal, parece trazer mais benefícios durante o tratamento.

Em resumo, o apoio nutricional e o exercício físico devem ser incluídos nos cuidados de saúde dos doentes com cancro da mama. As intervenções têm resultados positivos na composição corporal e na gestão do peso durante os tratamentos, mas é fundamental encarar a intervenção a longo prazo, persistindo mesmo após a conclusão do tratamento, para que os benefícios adquiridos se mantenham.

É importante lembrar que o exercício físico é geralmente bem tolerado e seguro, mesmo em estadios avançados de cancro. A Sociedade Europeia para a Nutrição Clínica e Metabolismo, recomenda a realização de 3 sessões semanais com duração entre 10 a 60 minutos, de acordo com a tolerância dos doentes.

O exercício físico, nos doentes oncológicos, está associado à manutenção ou melhoria da capacidade aeróbica, força muscular, qualidade de vida, auto-estima e redução da fadiga e ansiedade. É realmente importante que a prática de exercício seja incentivada, já que a inatividade física, em conjunto com os tratamentos, terão um impacto negativo na massa muscular.

Referências: Demark-Wahnefried W, Rogers LQ, Gibson JT, et al. Randomized trial of weight loss in primary breast cancer: Impact on body composition, circulating biomarkers and tumor characteristics. Int J Cancer. 2020;146(10):2784-2796. Lopez P, Galvão DA, Taaffe DR, et al. Resistance training in breast cancer patients undergoing primary treatment: a systematic review and meta-regression of exercise dosage. Breast Cancer. 2021;28(1):16-24. Foucaut AM, Morelle M, Kempf-Lépine AS, et al. Feasibility of an exercise and nutritional intervention for weight management during adjuvant treatment for localized breast cancer: the PASAPAS randomized controlled trial. Support Care Cancer. 2019;27(9):3449-3461. Muscaritoli M, Arends J, Bachmann P, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer [published online ahead of print, 2021 Mar 15]. Clin Nutr. 2021;40(5):2898-2913. Crédito das imagens: rawpixel.com

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em atividades, tais como workshops sobre alimentação direcionados a doentes hemato-oncológicos. Tem como atuais áreas de interesse e pesquisa a nutrição em oncologia, atividade física em doentes oncológicos e alterações de estilo de vida após o diagnóstico. Inês Almada Correia, nutricionista, has a post-graduate course in Nutrition in Oncology by Universidade Católica Portuguesa and is taking a masters degree in Medical Biochemistry by Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa. Has participated in projects with Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), such as food and nutrition workshops for hemato-oncologic patients. Her main research interests are nutrition in oncology, physical activity in cancer patients and lifestyle changes after diagnosis.