Dietas vegetarianas e risco de morte por cancro

A elevada ingestão de alimentos de origem vegetal está associada à prevenção de diversos tipos de cancro, mas será necessário adotar dietas vegetarianas para conseguir ter estes benefícios?

Dietas vegetarianas são regimes alimentares que excluem a ingestão de alimentos de origem animal, existindo variantes mais restritivas, como a dieta vegana, que exclui qualquer alimento de origem animal e outras menos restritivas como as dietas ovo-lacto-vegetarianas, em que tipicamente apenas a carne e o peixe são excluídos.

Uma revisão sistemática publicada em 2017 propôs clarificar a associação entre as dietas vegetarianas e veganas e os fatores de risco para desenvolver doenças crónicas, assim como o risco de mortalidade por estas causas. Os autores identificaram um menor risco para o surgimento de cancro no grupo de indivíduos com padrão alimentar vegano, alertando que os resultados deverão ser interpretados com cautela, já que os estudos incluídos são heterogéneos e com reduzido número de participantes, o que dificulta a análise e as conclusões. Após o surgimento da doença, mais do que a dieta, parecem ser os tratamentos a ter maior impacto na mortalidade por cancro.
Num outro estudo publicado em 2016, não foram encontrados benefícios significativos com a exclusão de proteína de origem animal, quando comparadas dietas que incluíam peixe e dietas vegetarianas. Os autores referem que o benefício para a prevenção do cancro parece estar no elevado consumo de alimentos de origem vegetal e não na exclusão total de alimentos de origem animal.

Mais recentemente, uma revisão sistemática publicada em maio de 2021, com 12 estudos com dietas de base vegetal, onde se incluíam dietas totalmente vegetarianas e veganas, mas também dietas com alguma proteína animal, não encontrou redução no risco de mortalidade para vários tipos de cancro, entre os quais, cancro da mama, próstata, colorretal, pulmão, gástrico, entre outros. É, no entanto, relevante salientar que, nesta publicação, o número de estudos que avaliou a relação entre dietas de origem vegetal e cancro, era muito reduzido, limitando grandemente os resultados e as conclusões.
Os resultados dos estudos referidos neste artigo, ilustram bem a dificuldade em chegar a conclusões, quando se avaliam padrões alimentares, já que raramente é possível isolar a dieta dos restantes estilos de vida.
Por um lado, muitas vezes, indivíduos que adotam dietas vegetarianas também adotam outros estilos de vida mais saudáveis, por outro lado, nem todas as dietas vegetarianas são iguais. Na revisão sistemática deste ano, é mencionada esta diferença, não tendo sido encontrada associação entre dietas com maior ingestão de alimentos de origem vegetal de fontes menos saudáveis, como cereais refinados e açúcares de absorção rápida, e a redução da mortalidade global, o que significa que os benefícios apenas parecem existir para dietas de base vegetal equilibradas.

Referências: Dinu M, et al. Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: A systematic review with meta-analysis of observational studies. Crit Rev Food Sci Nutr. 2017 Nov 22;57(17):3640-364. Jafari S, Hezaveh E, Jalilpiran Y, et al. Plant-based diets and risk of disease mortality: a systematic review and meta-analysis of cohort studies [published online ahead of print, 2021 May 6]. Crit Rev Food Sci Nutr. 2021;1-13

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em atividades, tais como workshops sobre alimentação direcionados a doentes hemato-oncológicos. Tem como atuais áreas de interesse e pesquisa a nutrição em oncologia, atividade física em doentes oncológicos e alterações de estilo de vida após o diagnóstico. Inês Almada Correia, nutricionista, has a post-graduate course in Nutrition in Oncology by Universidade Católica Portuguesa and is taking a masters degree in Medical Biochemistry by Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa. Has participated in projects with Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), such as food and nutrition workshops for hemato-oncologic patients. Her main research interests are nutrition in oncology, physical activity in cancer patients and lifestyle changes after diagnosis.