Caquexia: fique a conhecer esta síndrome

A caquexia é uma síndrome complexa, que se carateriza por um estado de inflamação que afeta todo o organismo, pela alteração no metabolismo e por malnutrição provocada pela doença. Estamos na presença de caquexia, quando se verifica uma redução no peso superior a 5% do peso habitual em 6 meses, um índice de massa corporal inferior a 20 kg/m2 e/ou baixa massa muscular. Esta síndrome está presente em cerca de 50% dos doentes com cancro avançado e é frequentemente sub-diagnosticada.

Apesar da caquexia estar presente em diversos tipos de cancro, um estudo transversal publicado recentemente e que analisou a prevalência de caquexia em doentes com idade superior a 70 anos, identificou uma maior prevalência desta síndrome em doentes com diagnóstico de cancro no trato gastrointestinal (fígado, pâncreas, esófago, gástrico e colorretal), cancro do pulmão, cancro da cabeça e pescoço, cancros hematológicos, sendo menos prevalente em doentes com cancro da mama e próstata. Os autores identificaram ainda maior prevalência de caquexia em doentes hospitalizados, com metástases, com menor mobilidade e menor ingestão alimentar. Um outro estudo publicado em 2017, que incluiu uma população com idade média de 65 anos, encontrou também maior prevalência de caquexia em doentes com cancro gástrico e do pulmão.

A caquexia tem impacto na sobrevivência dos doentes, estimando-se que seja responsável por cerca de 20% das mortes por cancro, no entanto, apesar deste facto, apenas 30% a 60% dos doentes recebe apoio nutricional. Justifica-se, assim, uma maior sensibilização dos profissionais de saúde que acompanham estes doentes, no sentido de identificarem atempadamente a presença de caquexia e iniciarem a abordagem multidisciplinar necessária.

As diretrizes para a caquexia oncológica da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO), têm exatamente como objetivo informar os profissionais de saúde sobre as abordagens a utilizar neste contexto. Neste documento é recomendado que seja feito o rastreio regular da malnutrição, a todos os doentes que estão a receber tratamento antineoplásico, com o objetivo de identificar doentes em risco. Na presença de caquexia e se o doente apresentar risco nutricional, após uma avaliação detalhada da sua situação clínica, deverá definir-se uma intervenção multidisciplinar individualizada, que inclua intervenção nutricional, terapêutica para melhor gestão dos sintomas, apoio psicológico e social e também exercício físico supervisionado, que deverá incluir exercício de treino de força.

Em particular, no que diz respeito às intervenções nutricionais, deve ser privilegiado o acompanhamento nutricional feito por um nutricionista, com o objetivo de melhorar a ingestão alimentar, recorrendo, sempre que necessário, a suplementos nutricionais orais.

Referências: Vagnildhaug OM, Balstad TR, Almberg SS, et al. A cross-sectional study examining the prevalence of cachexia and areas of unmet need in patients with cancer. Support Care Cancer. 2018;26(6):1871-1880. Poisson J, Martinez-Tapia C, Heitz D, et al. Prevalence and prognostic impact of cachexia among older patients with cancer: a nationwide cross-sectional survey (NutriAgeCancer) [published online ahead of print, 2021 Sep 14]. J Cachexia Sarcopenia Muscle. 2021;10.1002/jcsm.12776. Arends J, Strasser F, Gonella S, et al. Cancer cachexia in adult patients: ESMO Clinical Practice Guidelines. ESMO Open. 2021;6(3):100092.Crédito das imagens: rawpixel.com

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em ati (...)