Timpanosclerose: o que é e como tratar

A timpanosclerose é caracterizada pela deposição de placas esbranquiçadas de tecido conjuntivo denso, sobre a membrana timpânica e estruturas do ouvido médio.

A membrana timpânica, no seu estado normal, é fina e translúcida, com boa mobilidade. Quando estas placas se instalam, a membrana perde a sua transparência, e torna-se mais grossa e menos maleável.

Histologicamente, a timpanosclerose é uma alteração do tecido conjuntivo subepitelial da membrana timpânica e do ouvido médio. As placas de timpanosclerose, (concentração de fosfato de cálcio) ocorrem devido a um processo degenerativo dentro do tecido conjuntivo. Isto leva a uma degradação das fibras de colagénio e origina uma calcificação distrófica (acúmulo de sais em tecidos previamente lesados).

Quando este processo se restringe apenas à membrana timpânica, chama-se miringosclerose. Só se denomina timpanosclerose quando também é invadida a cadeia ossicular.

Vários fatores contribuem para a formação destas placas de cálcio, como sejam:

  • cicatrização da membrana timpânica, após a saída dos tubos de ventilação, previamente colocados para drenagem de líquido do ouvido médio
  • otites do ouvido médio
  • infeções não tratadas, que se tornam crónicas
  • traumas da membrana timpânica
  • eventual processo autoimune

Estudos apontam para que estes depósitos de cálcio se formem como resposta a cicatrização/cura do ouvido, produzindo células extra de tecido.

O diagnóstico deve ser feito por um médico otorrinolaringologista que analisa o estado da patologia. Para confirmação do diagnóstico são ainda necessários exames audiológicos, nomeadamente o audiograma para avaliação auditiva, assim como o timpanograma para avaliar a mobilidade da membrana timpânica. A tomografia computorizada pode ser usada para verificar a dimensão da área afetada por timpanosclerose, no ouvido médio.

A miringosclerose, normalmente, é assintomática, sem causar perda auditiva. A timpanosclerose, embora seja uma condição relativamente benigna, pode originar perda auditiva de transmissão. Esta perda, geralmente, depende da extensão das placas timpanoscleróticas, da sua localização e grau de rigidez na cadeia ossicular. Um estudo de Berdich K. e colegas mostra que a dimensão e a localização destas placas são mais relevantes para a perda auditiva, do que o grau de calcificação.

Quanto ao tratamento, em casos de miringosclerose isolada, não é necessária nenhuma intervenção. Em casos de timpanosclerose, à partida, o tratamento poderá ser cirúrgico. O médico deverá avaliar com muito cuidado a extensão exata da timpanosclerose, analisando quais as estruturas atingidas. Dependendo da situação, a membrana timpânica e a cadeia ossicular podem necessitar de ser reconstruídas individualmente, através de timpanoplastia / ossiculoplastia, respetivamente. Quando ocorre a fixação da cadeia ossicular, ao nível do estribo, e a perda auditiva é mais acentuada, será mesmo necessária a intervenção, com recurso à inserção de prótese do estribo. A cirurgia envolve a excisão das áreas de timpanosclerose e posterior reparação da cadeia ossicular. Existem várias técnicas, às vezes envolvendo duas cirurgias, sendo as taxas de sucesso variáveis. Existe sempre o risco desta intervenção causar dano no ouvido interno, resultando em surdez sensorial.

Noutras situações, pode ser contraproducente a cirurgia, pois, normalmente, ao fim de alguns anos após a intervenção, o processo timpanosclerótico instala-se novamente, voltando a perda auditiva. Se não houver nenhum sintoma clínico, as placas de Timpanosclerose não devem ser removidas.

Cabe ao médico otorrinolaringologista avaliar corretamente a abordagem mais apropriada.

Quando a cirurgia não é o procedimento mais adequado, ou quando a perda auditiva não é restaurada após a cirurgia, pode ser feita adaptação de próteses auditivas convencionais ou implantadas. Dependendo da situação, a perda auditiva pode ser completamente revertida ou, pelo menos, melhorar com o tratamento.

Embora os sintomas da timpanosclerose não sejam graves, é muito importante a correta abordagem para o seu tratamento. O objetivo é a preservação auditiva sem recurso a soluções que possam deixar sequelas.

Referências: Kristin Hayes, RN. An Overview of Myringosclerosis and Tympanosclerosis. EAR, NOSE & THROAT. Medically reviewed by Benjamin F. Asher, MD on February 12, 2020. Critérios de imagem: https://i1.wp.com/www.mommaaddict.com/wp-content/uploads/2017/03/Tympanosclerosis.jpg

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pel (...)