Gordura corporal e cancro do endométrio: ganhar peso aumenta o risco

Estar acima do peso ou ter obesidade durante a vida adulta aumenta o risco de cancro do endométrio.

Há evidência crescente que a obesidade e o aumento da gordura corporal, bem como a resistência à insulina (o síndrome metabólico em geral) são factores etiológicos importantes no cancro do endométrio. Por outras palavras, nas mulheres quando há aumento do índice de massa corporal por aumento da gordura corporal isso corresponde a um consequente aumento no risco para o cancro do endométrio.

O cancro do endométrio ocupa atualmente o 8º lugar na lista dos 10 tipos de cancro que mais afetam as mulheres portuguesas. São mais de 1200 casos novos registados por ano (n=1238 em 2020), representando 9,8% de todos os novos casos de cancro nas mulheres.

A maioria dos tipos de cancro que ocorrem no útero são adenocarcinomas e localizam-se no corpo do útero, designando-se por cancro do endométrio. O endométrio é o revestimento do útero que durante os anos férteis da vida da mulher está sujeito a um processo de mudança cíclica.

O cancro do endométrio produz sintomas em estágios relativamente iniciais, pelo que a doença geralmente é diagnosticada precocemente. Por isso, uma visita anual ao ginecologista é sempre importante de fazer parte do plano de saúde feminino.

Como é que a gordura corporal excessiva se relacionam e afetam o risco de desenvolver este tipo de cancro?

A gordura corporal excessiva influencia os níveis de algumas hormonas e, também de alguns fatores de crescimento. Por exemplo, os níveis de insulina e de leptina encontram-se elevados em pessoas obesas, proporcionando o crescimento de células cancerosas. Além disso, devido à gordura abdominal excessiva há resistência à insulina e o pâncreas acaba por fazer uma compensação aumentando a produção de insulina. Essa hiperinsulinemia aumenta o risco para o cancro do endométrio.

O tecido adiposo é o principal local de síntese de estrogénio em mulheres na pós-menopausa devido à atividade da enzima aromatase que é a responsável pela conversão dos androgénios em estrogénios. Níveis aumentados de estrogénios estão fortemente associados ao risco de cancro do endométrio, mas também para o risco aumentado de cancro da mama pós-menopausa.

Além disso, quando há obesidade instala-se um estado de inflamação crónica de baixo grau que pode promover o desenvolvimento do cancro. Esse estado de inflamação tem origem no tecido adiposo que, quando em excesso, desenvolve-se infiltração de macrófagos e que são uma fonte importante de inflamação. A célula de gordura (o adipócito) produz fatores pró-inflamatórios pelo que os indivíduos com obesidade apresentam concentrações elevadas do fator de necrose tumoral circulante (TNF-alfa) da interleucina 6 (IL-6) e da proteína C reativa, em comparação com pessoas normoponderais. A tudo isto acrescenta-se os valores elevados de leptina, uma característica dos indivíduos com obesidade, e que funciona como uma citocina inflamatória.

Com a evidência crescente da relação entre o excesso de gordura corporal e cancro do endométrio, é muito importante que as mulheres procurem manter um peso saudável e sustentável durante a vida adulta por ser inequivocamente uma medida protetora contra o risco de desenvolver este tipo de cancro.

Referências: World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research. Continuous Update Project Expert Report 2018. Diet, nutrition, physical activity and endometrial cancer. Available at dietandcancerreport.org.; https://gco.iarc.fr/today/data/factsheets/populations/620-portugal-fact-sheets.pdf

Margarida Vieira, nutricionista, licenciada em Ciências da Nutrição (FCNAUP-1991), mestre em Nutrição Clínica (ISCSEM-2008). Doutorada em Estudos da Criança, na especialidade de saúde infantil pela Universidade do Minho. Membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas com a cédula profissional n (...)