Distúrbios comuns do sistema vestibular: como reabilitar

O sistema vestibular do ouvido interno contém três canais semicirculares (posterior, anterior e lateral) e dois órgãos otolíticos (sáculo e utrículo). Este sistema em conjunto com o visual e o somatossensorial contribuem para o equilíbrio. As células sensoriais enviam mensagens ao sistema nervoso central sobre as mudanças de posição corporal e, por sua vez, o sistema nervoso envia uma resposta para que os músculos se ajustem à postura do corpo, mantendo-se, assim, o equilíbrio.

A disfunção vestibular é uma perturbação deste sistema, que pode ter causas periféricas ou centrais. A história do paciente e a duração dos episódios de vertigem permitem identificar as causas da disfunção.

Os sintomas normalmente consistem em vertigem, náusea, vómito, intolerância ao movimento da cabeça, nistagmo (movimento involuntário dos olhos) e instabilidade postural.

Os exames que podem ajudar ao diagnóstico incluem a Videonistagmografia, Potenciais miogénicos vestibulares ou V-Hit. É, ainda, muito importante a avaliação do nistagmo perante diferentes manobras realizadas pelo clínico.

As patologias vestibulares periféricas mais comuns são:

1) Vertigem posicional paroxística benigna

Os sintomas são curtos episódios de vertigem, que duram menos de um minuto (normalmente desencadeados por mudanças da posição da cabeça), náusea e/ou vómito. Geralmente ocorre quando partículas flutuantes de cálcio (otocónias) são deslocadas para outra parte do ouvido interno (mais comumente para o canal semicircular posterior) quando a cabeça muda de posição. A reabilitação é feita normalmente com manobras de reposicionamento dos cristais para corrigir a lesão.

2) Doença de Ménière

Provoca episódios de vertigem recorrentes que duram minutos a várias horas, sem sintomas neurológicos associados. Os pacientes apresentam perda auditiva unilateral, plenitude aural e zumbido. O tratamento recorre a diuréticos e a uma dieta pobre em sal.

3) Labirintite purulenta

A labirintite é uma inflamação do ouvido interno e pode ter causas diversas, como infeções por vírus ou bactérias. Os principais sintomas são uma vertigem forte e incapacitante, náusea, dor de cabeça e falta de ar, entre outras. A labirintite está associada a alguns fatores de risco, como idade avançada, diabetes, uso de alguns medicamentos, fumo e consumo de álcool. O diagnóstico é feito por exame otoneurológico. O tratamento consiste em medicamentos que aliviam os sintomas. O repouso e a hidratação são essenciais durante o tratamento.

4) Neuronite vestibular

A neuronite (inflamação do nervo) afeta o ramo vestibular do nervo auditivo. Resulta em vertigem súbita, com duração de dias, mas sem alteração da audição. O tratamento é feito com medicação adequada e deve ser mantida por 1 ou 2 meses, mesmo depois de terminarem os sintomas. Podem, ainda, serem úteis exercícios de reabilitação vestibular.

5) Enxaqueca vestibular

É caracterizada por episódios de vertigem, que duram vários minutos a horas. Nesta situação, os pacientes apresentam história de enxaqueca, aversão à luminosidade e ao som, sem perda auditiva. O tratamento é farmacológico.

6) Fístula perilinfática

Esta fístula refere-se a uma pequena abertura entre as membranas que separam o ouvido médio da perilinfa do ouvido interno. Esta situação provoca mudanças na pressão do ouvido médio, que afetam diretamente o ouvido interno, causando perturbações do equilíbrio. Estes sintomas são agravados com tosse, espirros, esforços ou exposição a ruídos altos. O tratamento consiste em repouso, mantendo a cabeça sempre elevada, mesmo a dormir, evitando pegar em pesos. A maioria dos casos cura espontaneamente, podendo haver necessidade de cirurgia.

7) Deiscência do canal semicircular superior

Resulta da existência de osso muito fino do canal semicircular superior, que facilmente pode ser deslocado por estímulos sonoros, criando perturbações vestibulares e/ou auditivas. Para um diagnóstico definitivo, é necessário recorrer a tomografia computorizada de alta resolução.

As patologias vestibulares centrais mais comuns são causadas por AVC (acidente vascular cerebral), doenças desmielinizantes ou tumores que afetem o cerebelo e o tronco cerebral. Estão normalmente associadas a sintomas neurológicos, como ataxia, disartria, diplopia, perda de consciência, entre outros.

O tratamento pode incluir terapia trombolítica intravenosa ou outra adequada a cada situação. Fatores de risco vascular, como hipertensão arterial, diabetes mellitus e tabagismo, aumentam a probabilidade destas patologias. Pode também ser útil a reabilitação vestibular ou terapia de treino de equilíbrio.

Referências: Dougherty, JM, Carney, M, Emmady, PD. Vestibular Dysfunction, 2020. In:https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK558926/   Créditos de imagem: https://conteudo.imguol.com.br/c/entretenimento/c5/2019/08/27/tontura-1566916566115_v2_1254x836.jpg 

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pel (...)