Conheça o impacto do omega-3 na microbiota e no cancro

Os ácidos gordos omega-3 são considerados ácidos gordos essenciais por não serem sintetizados em humanos e por este motivo, as necessidades diárias de omega-3 têm de ser asseguradas pela dieta.

O consumo de ácidos gordos polinsaturados n-3 tem sido associado a múltiplos benefícios para a saúde. Entre eles contam-se a melhoria na resposta inflamatória, com impacto positivo no tratamento e prevenção de diversas patologias, tais como doenças neurodegenerativas, cardiovasculares, inflamatórias, depressão e em alguns tipos de cancro.

Uma percentagem significativa dos casos de cancro no mundo têm sido relacionados com a dieta e os estilos de vida adotados antes do diagnóstico. Estima-se que cerca de 50% a 60% dos casos de cancro colorretal nos Estados Unidos sejam atribuídos a estes fatores modificáveis que também incluem a ingestão de ácidos gordos omega-3, uma vez que, apesar de não serem totalmente compreendidos os mecanismos associados, parecem ter ação na prevenção deste tipo de cancro.

A composição em gorduras da dieta parece influenciar a composição da microbiota intestinal. Os omega-3 têm sido associados a uma maior diversidade da microbiota intestinal e dietas ricas nestas gorduras têm sido associadas a melhoria da disbiose induzida por antibióticos ou excesso de ácidos gordos n-6. Os omega-3 parecem também induzir o aumento das bactérias produtoras de butirato, em particular os géneros Lactobacillus, Bifidobacteria, Lachnospira, Roseburia, assim como a diminuição da abundância de bactérias com ação pró-inflamatória produtoras de lipopolissacarídeos, sendo este um dos possíveis mecanismos associados aos benefícios destes ácidos gordos essenciais no contexto da doença oncológica mas também de outras patologias.

Um estudo observacional publicado em 2019 identificou uma associação positiva entre os níveis séricos de ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosahexaenoico (DHA) e a abundância de Bifidobacterium e também de Actinobacteria em sobreviventes de cancro da mama sem histórico de quimioterapia. Por outro lado, a baixa ingestão de omega-3, alterou a composição da microbiota de ratinhos, aumentando a abundância de Teneticutes, Coriobacteriaceae e Anaeroplasma.

A ingestão de omega-3 parece modular diversas respostas inflamatórias que muitas vezes estão relacionadas com o desenvolvimento de cancro, tendo também impacto na modulação da microbiota intestinal, promovendo uma maior concentração de bactérias benéficas como as produtoras de ácidos gordos de cadeia curta e a menor concentração de bactérias produtoras de lipopolissacarídeos.

Os benefícios da modulação da microbiota intestinal estendem-se aos diversos estádios da doença oncológica, parecendo haver benefícios na cirurgia, na resposta aos tratamentos, na caquexia e na gestão da disbiose, tão frequente durante os tratamentos.

Referências: Costantini L, Molinari R, Farinon B, Merendino N. Impact of Omega-3 Fatty Acids on the Gut Microbiota. Int J Mol Sci. 2017;18(12):2645. Published 2017 Dec 7. Noriega BS, Sanchez-Gonzalez MA, Salyakina D, Coffman J. Understanding the Impact of Omega-3 Rich Diet on the Gut Microbiota. Case Rep Med. 2016;2016:3089303. Song M, Chan AT. The Potential Role of Exercise and Nutrition in Harnessing the Immune. System to Improve Colorectal Cancer Survival. Gastroenterology. 2018;155(3):596-600. Watson H, Mitra S, Croden FC, et al. A randomised trial of the effect of omega-3 polyunsaturated fatty acid supplements on the human intestinal microbiota. Gut. 2018;67(11): 1974-1983. Parolini C. Effects of Fish n-3 PUFAs on Intestinal Microbiota and Immune System. Mar Drugs. 2019;17(6):374. Published 2019 Jun 22. Horigome A, Okubo R, Hamazaki K, et al. Association between blood omega-3 polyunsaturated fatty acids and the gut microbiota among breast cancer survivors. Benef Microbes. 2019;10(7):751-758. G Robertson RC, Seira Oriach C, Murphy K, et al. Deficiency of essential dietary n-3 PUFA disrupts the caecal microbiome and metabolome in mice. Br J Nutr. 2017;118(11):959-970. Crédito das imagens: Freepik

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em ati (...)