Ouvido externo: patologias mais comuns e sua reabilitação

O ouvido externo é constituído pelo pavilhão auricular e pelo canal auditivo externo. Este é dividido por uma porção cartilaginosa (1/3 externo) e uma porção óssea (2/3 internos). A pele do canal auditivo externo contém pelos, glândulas sebáceas e ceruminosas. Estas segregam cerúmen, cuja função é proteger o canal de condições que possam predispor a infeções. Quando este se forma em excesso, é necessária a sua remoção.

A entrada de corpos estranhos, de forma voluntária ou involuntária, pode também provocar lesões do canal. Dada a sua sensibilidade, a extração deve ser feita com o maior cuidado possível.

As patologias mais comuns do ouvido externo são:

1) Otites externas – Inflamações cutâneas cuja causa mais comum é a infeção por bactérias e fungos. O diagnóstico deve ser feito pelo médico otorrinolaringologista, a partir da avaliação dos sintomas e com recurso a exame otológico, que permite visualizar as estruturas do ouvido. O tratamento consiste em analgésicos, antibióticos ou antifúngicos. Dependendo da etiologia e gravidade, as otites externas podem ser divididas em: agudas, localizadas, crónicas, granulosas, malignas, fúngicas, herpéticas e bolhosas.

Aguda – Consiste num processo infecioso e inflamatório do ouvido externo. Caracteriza-se por dor intensa, sensibilidade à palpação e manipulação da orelha, prurido e estenose do canal. A otite externa pode, ainda, ser localizada numa área do canal (furúnculo) e geralmente resulta da obstrução das unidades pilossebáceas com infeção secundária. Quando estes processos não são tratados adequadamente, podem levar a otite crónica. Devido às secreções acumuladas e ao edema pode ocorrer surdez de transmissão.

Granulosa – Consiste em otorreia purulenta e prurido leve podendo originar hipoacusia, muitas vezes confundida com otite externa maligna. Esta é uma infeção grave e necrotizante que ocorre com maior frequência em diabéticos idosos e imunodeprimidos, podendo levar à paralisia de nervos cranianos, meningite e morte. São sintomas comuns, otalgia, otorreia e hipoacusia. Neste caso é necessário tratamento médico e/ou cirúrgico.

Fúngica – É uma inflamação crónica ou aguda causada por fungos, que provoca prurido e otorreia espessa. Tem maior incidência nos países de clima tropical. O tratamento é feito através de antifúngicos.

Herpética – Causada principalmente por vírus Herpes simplex e Herpes zoster, cujo tratamento é feito por antivirais.

Bolhosa – É uma das otites mais dolorosas, manifestando-se na forma de vesículas ou bolhas hemorrágicas na porção óssea do canal que, quando rompem, produzem uma otorreia acompanhada de sangue. O tratamento mais comum faz-se com recurso a antibióticos e analgésicos.

2) Outras patologias do ouvido externo

Colesteatoma do canal auditivo externo – Tecido de granulação com necrose óssea e irritação da pele, ocluindo o canal. Pode provocar otalgia e otorreia de odor fétido e hipoacusia. O tratamento é cirúrgico.

Oto hematoma – Causado por trauma do pavilhão auricular. Pode provocar pericondrite (inflamação do pericondrio) ou condrite (inflamação da cartilagem). O tratamento consiste na incisão e drenagem do hematoma.

Dermatites – Eritema, edema, descamação, crostas, vesículas ou fissuras na pele do canal, provocando prurido. As mais comuns são: atópica, seborreica, de contato, psoríase, lúpus eritematoso, neurodermatites, eczema infantil. O tratamento vai depender do agente causador.

Exostoses e osteomas – Formações ósseas localizadas na metade interna do canal, que quando provocam obstrução total levam a hipoacusia de transmissão. O tratamento é cirúrgico e deve ser feito antes da estenose total do canal.

3) Malformações do ouvido externo – Anomalias presentes no nascimento, incluem microtia (pavilhão auricular não totalmente desenvolvido) e atresia do canal (fechamento do canal). O som não é transmitido para o ouvido médio, devido à obstrução mecânica da condução do som, mas geralmente o ouvido interno está integro.

A sua reabilitação é feita cirurgicamente por reconstrução do pavilhão através de implantes de orelha ou por abertura do canal. Podem ainda ser usadas próteses (implantes osteointegrados) para reabilitar a audição. Esses dispositivos conduzem o som ao ouvido interno através da vibração óssea. Podem ser muito importantes para o desenvolvimento normal da fala e linguagem em crianças com atresia bilateral.

Referência: https://forl.org.br/Content/pdf/seminarios/seminario_38.pdf. Créditos de imagem: http://centrodeotorrino.com.br/otite-de-praia-otites-externas/

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pel (...)