Diagnóstico para adaptação de aparelhos auditivos

O principal objetivo do diagnóstico auditivo é avaliar o limiar de audição. Paralelamente, permite quantificar a perda auditiva, caso exista, e localizar a lesão causadora dessa perda.

Este diagnóstico, que deve ser feito por audiologistas, é obtido através de exames auditivos, divididos em subjetivos (exigem uma resposta do paciente) e objetivos (não dependem da participação do paciente para obtenção das respostas).

1) Relativamente aos exames subjetivos, o mais importante é o audiograma que engloba a audiometria tonal, a audiometria vocal e os limiares de desconforto. Com o audiograma tonal é possível determinar o limiar auditivo numa gama de frequências, normalmente entre 128 Hz e 8 kHz. O audiograma vocal avalia a capacidade de discriminação verbal, a perceção da palavra. Os limiares de desconforto permitem perceber a partir de que valores (em dB) o som se torna incomodativo.

Com esta avaliação, determina-se o tipo e o grau de surdez.

Quanto ao grau de surdez, existem várias classificações, como sejam, a de Lloyd e Kaplan (1978), da OMS (Organização Mundial de Saúde, 1997) ou do BIAP (Bureau Internacional d´Audio Phonologie, 1997). A que normalmente se aplica em Portugal é a do BIAP, que utiliza o cálculo da média de respostas nas frequências de 512,1k, 2k e 4k Hz. Esta classificação considera:

Audição normal – média menor ou igual a 20 dB.

Perda auditiva leve – média entre 21 e 40 dB.

Perda auditiva moderada – 1º grau: média entre 41 e 55 dB; 2º grau: média entre 56 e 70 dB.

Perda auditiva severa – 1º grau: média entre 71 e 80 dB; 2º grau: média entre 81 e 90 dB.

Perda auditiva profunda – 1º grau: média entre 91 e 100 dB; 2º grau: média entre 101 e 110 dB; 3º grau: média entre 111 e 120 dB.

Pode ainda ser necessário fazer uma avaliação do processamento auditivo central. Esta avaliação fornece-nos informação acerca de algumas competências auditivas, como sejam a localização sonora, a discriminação auditiva e a perceção de aspetos temporais.

2) A audiometria objetiva visa confirmar e complementar a audiometria subjetiva. Os diferentes exames são:

Impedanciometria – engloba o timpanograma (que mede a mobilidade da membrana timpânica) e os reflexos acústicos (que correspondem à contração do músculo estapédico, induzido na sequência de um som intenso);

OEA (otoemisões acústicas) que avaliam o funcionamento das células ciliadas externas da cóclea;

Potenciais evocados auditivos (avaliam a integridade das vias auditivas). São relevantes no diagnóstico pediátrico, bem como na localização das patologias auditivas. Devem ser realizados na suspeita de surdez retrococlear ou de lesões centrais. São, ainda, fundamentais no apoio ao diagnóstico de tumores do nervo auditivo (schwannoma do acústico).

É através da avaliação do tipo e grau de surdez que se determina a escolha dos aparelhos auditivos.

No entanto, é também importante avaliar com a tecnologia existente, qual a escolha mais adequada, se os aparelhos auditivos ou os diferentes implantes (osteo-integrados, do ouvido médio, cocleares ou do tronco). É de referir, ainda, situações que poderão beneficiar mais com intervenção cirúrgica (por exemplo, otosclerose) pelo que é de considerar a opinião do médico otorrinolaringologista.

A seleção do aparelho auditivo requer a opção mais acertada, se retroauricular ou intracanalicular, assim como o tipo de molde. Deve, ainda, ser adaptada a tecnologia mais conveniente, selecionando os parâmetros acústicos necessários, bem como a decisão sobre a adaptação binaural ou monoaural. Não devem ser descuradas as características individuais dos pacientes, respeitando as suas expectativas e os níveis de ansiedade associados a esta decisão, bem como, aspetos estéticos e económicos.

Devido à tecnologia cada vez mais aprimorada dos aparelhos auditivos, estes conseguem contribuir para uma melhor qualidade de vida das pessoas e para uma menor estigmatização relativamente ao seu uso.

Referência: Recomendação BIAP 02/1: Classificação Audiométrica de Deficiências Auditivos. 1996. Disponível em: http://www.biap.org/fr/recommandations/recommendations/tc-02-classification; Créditos de imagem: https://www.eauriz.com.br/graus-de-perda-auditiva/

Fernanda Gentil

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pel (...)