Surdez: causas e consequências

A surdez tem um forte impacto na qualidade de vida das pessoas, assim como na dos seus familiares e na de outros com os quais se relacionam. Este impacto reflete-se nas atividades exercidas, tanto no trabalho como em situações de lazer.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, cerca de 466 milhões de pessoas em todo o mundo têm perda auditiva incapacitante e 34 milhões delas são crianças. Aproximadamente um terço das pessoas com mais de 65 anos são afetadas pela incapacidade auditiva.
O ouvido humano é composto por: (1) ouvido externo (pavilhão auricular e canal auditivo externo); (2) ouvido médio (onde está inserida a cadeia ossicular que engloba o martelo, a bigorna e o estribo) e (3) ouvido interno (cóclea e nervo auditivo e, ainda, o sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio).

Dependendo do local do ouvido onde está presente a lesão, existem quatro tipos de surdez:

  • Condução ou transmissão – ocorre no ouvido externo/médio
  • Neurossensorial – ocorre no ouvido interno
  • Mista – é a combinação dos dois anteriores tipos de surdez
  • Central – as alterações encontram-se a partir do tronco encefálico. Estas lesões são completamente irreversíveis

As causas da surdez podem ser congénitas ou adquiridas. As congénitas surgem logo após o nascimento. As causas podem ser fatores genéticos hereditários e não hereditários, ou complicações durante a gravidez/parto, incluindo: rubéola, sífilis, toxoplasmose, citomegalovírus, herpes; baixo peso ao nascer; anoxia e, ainda, o uso inadequado de medicamentos específicos durante a gravidez. A perda auditiva devido a fatores hereditários corresponde a cerca de 50% de todos os distúrbios auditivos. Estima-se que haja 150 a 175 diferentes síndromes genéticos que incluem a perda auditiva como principal caraterística.

As causas adquiridas podem levar à perda auditiva em qualquer idade.
Entre as crianças, a otite média é uma das causas mais comum.

As principais causas de surdez na idade adulta são:
Otosclerose – Crescimento anormal de osso que imobiliza progressivamente o estribo, provocando uma surdez de condução. Se a doença invade o ouvido interno, pode provocar uma surdez neurossensorial, denominada otosclerose coclear.
Timpanosclerose/miringosclerose – Deposição de placas de cálcio sobre os ossículos do ouvido médio/membrana timpânica.
Doenças infeciosas – Incluindo meningite, sarampo, otites do ouvido externo/médio, entre outras.
Lesões traumáticas – lesões das estruturas do ouvido, como em acidentes com objetos introduzidos no canal auditivo externo provocando perfurações timpânicas; barotraumas provocados por mudanças de pressão do ar, como em voos de avião e mergulhos; traumatismos cranianos com lesão do ouvido interno.
Doença de Ménière – Caracterizada por vertigem, zumbido e perda auditiva flutuante, podendo existir hipersensibilidade a sons altos. Ocorre no ouvido interno.
Doenças autoimunes do ouvido interno – Como exemplos, Síndrome de Cogan, Lúpus eritematoso sistémico ou vasculites primárias, entre outras.
Medicamentos ototóxicos – Medicamentos que podem causar perda auditiva. Os mais comuns são: antibióticos aminoglicosídeos, salicilatos, quinino, agentes antineoplásicos e diuréticos de alça.
Traumatismo acústico – Perda auditiva induzida por prolongada exposição a ruído.
Tumores benignos e malignos – Tumores que atingem o ouvido, nervo auditivo ou áreas relacionadas no cérebro, como por exemplo, o neurinoma do acústico, colesteatoma, hemangioma, carcinomas.
Presbiacusia – Perda auditiva sensorial relacionada com o avanço da idade.
Alterações metabólicas – Doenças como a diabetes ou a hipertensão arterial podem causar perda neurossensorial.
Patologias centrais – Decorre de alterações nos mecanismos do processamento auditivo, ao nível do sistema nervoso central.

A surdez, independentemente das causas, está associada a dificuldades de comunicação que podem levar a um desgaste psicológico devido ao esforço extra necessário para perceber as outras pessoas. Esta condição favorece o isolamento, a frustração, o surgimento de comportamentos depressivos, aumentando o risco de demência e uma maior probabilidade de quedas, particularmente entre as pessoas mais idosas.

Referência: OMS – Surdez e perda auditiva (dados e estatísticas 2020) https://verboemmovimento.com/blog/f/oms—surdez-e-perda-auditiva-dados-e-estatísticas-2020?rdst_srcid=2052522; Créditos de imagem: https://otorrinoesaude.com.br/wp-content/uploads/2013/08/perdaauditiva.png

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pel (...)