Impacto dos omega-3 na microbiota intestinal

Os ácidos gordos omega-3 são importante constituintes das membranas celulares, assegurando a sua fluidez, intervindo na regulação da sinalização celular e expressão génica. Após ingestão, o ácido alfa-linolenico (ALA) é convertido nas formas bioativas, ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosahexaenoico (DHA). Esta conversão ocorre principalmente no fígado.

São considerados ácidos gordos essenciais por não serem sintetizados em humanos, motivo pelo qual as necessidades diárias têm de ser asseguradas através da dieta.

Os omega-3 têm sido associados a inúmeros benefícios para a saúde, estando envolvidos em diversas vias metabólicas de proliferação e diferenciação celulares. Os efeitos positivos de uma adequada ingestão destes lípidos são abrangentes, tendo sido observados na resistência à insulina, na diabetes em adultos, hipertensão, artrite, aterosclerose, depressão, trombose, cancro e declínio cognitivo, estando os processos inflamatórios associados a muitas destas patologias.

A composição em lípidos da dieta parece influenciar a composição da microbiota intestinal. Os omega-3 têm sido associados a uma maior diversidade da microbiota intestinal e dietas ricas nestes lípidos têm sido associadas a melhoria da disbiose induzida por antibióticos ou excesso de omega-6.

Estes ácidos gordos essenciais parecem induzir o aumento das bactérias produtoras de butirato, em particular Lactobacillus, Bifidobacteria, Lachnospira, Roseburia, assim como a diminuição da abundância de bactérias com ação pró-inflamatória produtoras de lipopolissacarídeos, sendo este um dos possíveis mecanismos associados aos seus benefícios no contexto da doença oncológica mas também de outras patologias.

Para além dos efeitos anteriormente referidos, alguns estudos têm demonstrado que os omega-3 são responsáveis pela redução na proporção Firmicutes/Bacteroidetes e redução dos níveis de Coprococcus e Facecalibacterium.

O EPA e o DHA são encontrados em peixes gordos como o salmão, o atum, a maruca, o arenque e a sardinha, assim como em algumas algas marinhas.

Em adultos com uma típica dieta ocidental, a ingestão diária de EPA e DHA é habitualmente inferior a 0.2 g/ dia. Os benefícios para a saúde destes ácidos gordos essenciais dependem de uma adequada ingestão de EPA e DHA mas também de uma proporção equilibrada entre a ingestão de omega-6 e de omega-3. A proporção ideal relatada na literatura varia entre 1/1 a 4/1, quando na dieta ocidental esta proporção se encontra muito desequilibrada, rondando valores entre 15/1 e 16.7/1.

É importante lembrar que, mais do que um fator isolado, será sempre o estilo de vida o fator com maior impacto na redução ou aumento de risco do surgimento de qualquer doença. Por isso, tenha em conta que os benefícios se encontram na adoção de estilos de vida saudáveis mantidos de forma consistente.

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Inês Correia

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em ati (...)