Audição do feto: a aventura sonora até ser bebé

A audição do feto começa relativamente cedo na gravidez. Apesar de ter o tamanho duma lentilha e 200 g de peso, o embrião começa a desenvolver características neurofisiológicas da audição durante o 2º mês de gravidez. Segundo dados da investigação, o feto inicia o desenvolvimento da sua capacidade auditiva a partir da 18ª semana. Os pavilhões auriculares surgem a partir de pequenas dobras de pele do lado direito e esquerdo da cabeça. Uma massa de células epiteliais mantém o canal auditivo externo fechado. A partir da sua formação, a ossificação acontece quando o tímpano fica exposto ao líquido amniótico. O ouvido médio e a cóclea estão em formação, começando o desenvolvimento das células ciliadas.

A 21ª semana gestacional marca o início da aventura sonora do bebé. A partir daí, o sistema auditivo do feto já tem condições para começar a receber estímulos sonoros (pulsação do ritmo cardíaco, circulação sanguínea à volta do útero, sons produzidos pelo estômago e intestino, articulações do esqueleto e os passos da mãe). A voz da mãe, é o primeiro contacto que tem com o mundo exterior, sendo a sua entoação e timbre diferenciados das de outras pessoas, e recebida em forma de vibrações.

Para que haja a audição, propriamente dita, é necessário que o sistema auditivo, o cérebro e certas vias se formem, o que ocorre geralmente entre a 22ª e 24ª semanas. Nesta altura, o feto começará a ouvir ruídos de baixa frequência fora do útero. O sistema auditivo requer estimulação através da fala, música e outros sons para crescer adequadamente. Com 26 semanas já pode responder aos sons com mudanças no batimento cardíaco, respiração e movimento.

À medida que o feto cresce, vai sendo capaz de distinguir um número cada vez maior de sons diferentes. Pesquisas sugerem que o tempo mais importante para o desenvolvimento da audição é entre as 25 semanas de gravidez e 5 / 6 meses de idade. A estimulação do sistema auditivo é fundamental para o desenvolvimento adequado. Assim, é recomendado pelos investigadores a exposição do feto, tanto à fala como à música.

Por outro lado, a exposição frequente da mãe a ruídos altos, poderá contribuir para a perda auditiva do bebé. Apesar dos pesquisadores do Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional, não terem certeza quanto aos níveis de ruído seguros para o feto em desenvolvimento, recomendam que as gestantes evitem situações de muita exposição a ruídos intensos.

Entre as 32 e as 35 semanas todas as partes do ouvido estão formadas. Os ossículos do ouvido médio (martelo, bigorna e estribo) estão envolvidos num líquido de relativa densidade, chamado mesênquima. Por volta da 34ª semana, os ossículos iniciam o seu movimento, mas só exercerão a sua função completamente após o nascimento, com o início da respiração e com a entrada de ar no ouvido médio, expandindo a cavidade timpânica.

Na gestação, apenas existe audição reflexa. Com o processo de aprendizagem ocorre a inibição das respostas reflexas dando lugar à audição de compreensão”, necessária à produção da fala. Por este motivo, é essencial o rastreio auditivo neonatal, pelo que, os pais/cuidadores deverão estar atentos a eventuais dificuldades auditivas, de forma a que atempadamente se possam realizar avaliações auditivas, e se necessário, proceder à habilitação auditiva precoce.

Referência: Bellefonds, C. Fetal Sense of Hearing: What Your Baby Can Hear in Utero, 2019. Disponível em: https://www.whattoexpect.com/pregnancy/fetal-development/fetal-hearing/.; Créditos de imagem: http://bebedofuturo.mus.br/audicao-do-feto/

Fernanda Gentil é Audiologista na Clínica ORL Dr. Eurico Almeida e Coordenadora da Widex Centros Auditivos – Porto. Licenciada em matemática aplicada – ramo de ciência de computadores, pela FCUP. Professora Adjunta do curso de Audiologia, na ESS do Porto. PhD em Ciências de Engenharia pela FEUP. Investigadora e orientadora de teses de Mestrado e Doutoramento, na FEUP. Os seus principais interesses relacionam-se com a Audiologia e Reabilitação Auditiva, assim como simulações matemáticas de modelos computacionais do ouvido. Fernanda Gentil is Audiologist at the ORL Clinic Dr. Eurico Almeida and Coordinator of Widex-Porto. Degree in Applied Mathematics - Computer Science, FCUP. Audiology Professor at ESS, Porto. PhD in Engineering Sciences, FEUP. Researcher and advisor of Master's and PhD theses at FEUP. His main interests are related to Audiology and Auditory Rehabilitation, as well as mathematical simulations of computational models of the ear.