Amamentação e microbiota intestinal, haverá relação?

No mês em que se assinala a semana mundial da amamentação, falamos da influência da amamentação na definição da microbiota intestinal e de todo o impacto que estes microorganismos terão na saúde ao longo da vida.

A amamentação exclusiva até aos 6 meses é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde. Os inúmeros benefícios de curto e longo prazo que traz, tanto para a mãe como para o bebé, estão largamente documentados e incluem melhor resposta anti-inflamatória, impacto positivo no índice de massa corporal e no desenvolvimento cognitivo. O leite materno é o alimento ideal para qualquer criança até aos 6 meses, tanto pela sua constituição como por esta se alterar para assegurar as necessidades da criança ao longo do seu crescimento.

Estudos recentes demonstram que ao impacto do leite materno na microbiota da criança é dose-dependente e que também a microbiota do leite materno se vai alterando ao longo do tempo.

Um dos seus constituintes principais, os oligossacarídeos, promovem um microbioma intestinal saudável, servindo como substrato para microorganismos como as Bifidobacterium spp. Sabe-se hoje que o conteúdo em oligossacarídeos do leite materno varia de pessoa para pessoa, sugerindo que o leite materno poderá ser um alimento “produzido à medida” das necessidades específicas da criança a que se destina.

A microbiota intestinal de crianças alimentadas exclusivamente com leite materno é diferente da de crianças alimentadas com fórmula infantil, tendo sido identificada uma alteração rápida com a transição entre leite materno e fórmula. De facto, as bactérias Bifidobacterium spp surgem em maior quantidade em crianças amamentadas e as bactérias Clostridium spp e Bacteroides spp surgem em menor quantidade, ocorrendo o inverso com a fórmula infantil. Apesar destas bactérias fazerem parte da microbiota intestinal, a maior abundância de Bacteroides spp tem sido associada a um maior índice de massa corporal em crianças.

As diferenças na microbiota intestinal de crianças amamentadas exclusivamente até aos 6 meses e crianças alimentadas com fórmula infantil, não se limita aos primeiros 6 meses de vida, mantendo-se mesmo após a diversificação alimentar. A alimentação exclusiva com fórmula, assim como um menor tempo de amamentação, tem sido associado a uma composição bacteriana mais próxima da constituição da microbiota de adultos e menor abundância de marcadores associados ao metabolismo de gorduras, vitaminas e processos de detoxificação, assim como a uma maior abundância de marcadores associados ao metabolismo de hidratos de carbono.

Em adultos, a microbiota intestinal em equilíbrio apresenta benefícios para o seu hospedeiro, tais como síntese e metabolismo de nutrientes, desenvolvimento epitelial e regulação de respostas imunes. Por outro lado, quando em desequilíbrio, pode contribuir para o desenvolvimento de patologias tais como doença inflamatória intestinal, doenças metabólicas, diabetes mellitus tipo 2, aterosclerose, esteato hepatite não alcoólica, doenças auto-imunes, alergias, doenças neuropsiquiátricas, entre outras. É por isso de extrema importância adotar estratégias que promovam o seu desenvolvimento equilibrado. Tendo em conta os diversos benefícios do leite materno também neste contexto, não havendo contraindicação para a amamentação exclusiva até aos 6 meses, esta deverá ser privilegiada.

Referências:Toca MDC, Burgos F, Fernández A, et al. Gut ecosystem during infancy: The role of “biotics”. Ecosistema intestinal en la infancia: rol de los “bioticos”. Arch Argent Pediatr. 2020;118(4):278-285. Ho NT, Li F, Lee-Sarwar KA, et al. Meta-analysis of effects of exclusive breastfeeding on infant gut microbiota across populations. Nat Commun. 2018;9(1):4169. Published 2018 Oct 9. Praveen P, Jordan F, Priami C, Morine MJ. The role of breast-feeding in infant immune system: a systems perspective on the intestinal microbiome. Microbiome. 2015;3:41. Published 2015 Sep 24. Feldman-Winter L, Kellams A, Peter-Wohl S, et al. Evidence-Based Updates on the First Week of Exclusive Breastfeeding Among Infants ≥35 Weeks. Pediatrics. 2020;145(4):e20183696. Gabbianelli R, Bordoni L, Morano S, Calleja-Agius J, Lalor JG. Nutri-Epigenetics and Gut Microbiota: How Birth Care, Bonding and Breastfeeding Can Influence and Be Influenced?. Int J Mol Sci. 2020;21(14):E5032. Published 2020 Jul 16. Crédito da imagem: Manojiit Tamen por Pixabay

Inês Correia

Inês Almada Correia, nutricionista (3684N), pós-graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa, frequenta o mestrado em Bioquímica Médica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em ati (...)