O medo da recaída

É do conhecimento geral que o impacto do cancro não se confina apenas à sintomatologia somática. A vivência desta doença envolve uma diversidade de sintomas também psicológicos.

Desde o diagnóstico, passando pelos diversos tratamentos de quimioterapia, radioterapia, hormonoterapia entre outros e finalmente pela reabilitação muitas vezes prolongada, esta doença exige diferentes desafios que contribuem para a morbilidade psicológica de quem a detém.

O medo da recaída e da progressão da doença são frequentes, traduzindo-se numa resposta considerada normal face aos acontecimentos.

O tipo de cancro, as necessidades e os medos variam. São muito específicos e estreitamente relacionados com a doença, sintomatologia que cada um apresenta e com as suas possíveis consequências.

Assim, os doentes oncológicos podem apresentar medo de depender de outras pessoas para o desempenho das suas atividades de vida diárias, medo de não poder ajudar os filhos ou netos no seu percurso de vida, de ficar incapacitados ou de morrer, do sofrimento como a dor ou dificuldade respiratória, medo de ficarem com alterações da sua autoimagem, medo da menopausa precoce, de não poderem ter filhos e de não poderem estar presentes nos momentos importantes da sua vida.

Nos sobreviventes o medo de recaída está muito presente e pode ser de tal forma intenso que provoca uma elevada carga psicológica caracterizada por uma preocupação crónica, um estado de hipervigilância diária para eventuais sinais e sintomas que são interpretados como sendo o regresso do cancro.

Mesmo os sintomas benignos podem servir como trampolim que recordam as suas vulnerabilidades aumentando as suas ansiedades.

Existem dois tipos de pessoas, as que recorrem ao médico por um pequeno sintoma benigno e os que evitam a ida ao médico ou mesmo a consultas de rotina com medo de que se detete uma recorrência, acabando por posteriormente necessitar de tratamentos invasivos.

O medo da recaída tem também impacto na família, verificando-se muitas vezes relutância em discutir o impacto que o medo tem neles próprios, principalmente na presença do doente provocando assim alterações na dinâmica relacional.

É importante que o doente e a família percebam que o medo é uma resposta normal e adequada à situação. No entanto, se for de forma exagerada pode ter implicações negativas a nível da adesão aos tratamentos, na capacidade de concentração na tomada de decisões, nos padrões do sono, na inserção social e consequentemente na qualidade de vida.

É importante não esquecer que muitas vezes os doentes ou seus familiares têm necessidade de recorrer à ajuda de profissionais de saúde especializados, nomeadamente psicólogos e psiquiatras com o intuito de melhorar a sua saúde mental e ajudar a resolver os seus problemas psicológicos.

Referência: Marinho, S. (2015). Medo da recorrência e medo da progressão em doentes oncológicos. Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.;  Créditos da imagem Melanie Wasser on Unsplash

Ana Paula Figueiredo

Ana Paula Figueiredo, natural da Trofa é Licenciada em Enfermagem e Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria pela Escola Superior de Enfermagem do Porto. Mestre em Educação, área de especialização em Educação para a Saúde pela Universidade do Minho. Actualmente exerce a sua actividade pr (...)