Pandemia por COVID-19: alimentação do doente com cancro

No caso dos doentes com cancro, das suas famílias e dos seus cuidadores, a pandemia causada pela COVID-19 é vivida com bastante preocupação, na medida em que os doentes necessitam fazer tratamentos e exames, além de poderem ter necessidade de recorrerem às urgências, devido a efeitos secundários dos tratamentos ou a COVID-19complicações da doença.

Além disso, o sistema imunitário do doente com cancro pode estar afetado pela doença e pelo tratamento, o que traz mais motivos de preocupação, já que o coloca num grupo de risco de infeção, devendo ter cuidados acrescidos. Os doentes com linfomas, os mielomas múltiplos e com a maioria dos tipos de leucemia têm maior risco de infeções. Todavia, os doentes que passaram por uma cirurgia recente e aqueles que estão em tratamento (quimioterapia, radioterapia, terapias-alvo ou imunoterapia) podem também apresentar um risco mais elevado. Alguns fármacos prescritos após transplantes de medula também debilitam o sistema imunitário. Um mau estado nutricional, a existência de outros problemas de saúde e a toma de certos medicamentos não relacionados com o cancro propriamente dito podem, também, colocar o doente oncológico em maior risco de desenvolvimento de infeção.

No caso dos sobreviventes de cancro (sem tratamento ativo e apenas em vigilância), a função imunitária deve estar normal, devendo ter cuidados idênticos aos da população em geral.

Contudo, os cuidadores não devem ser esquecidos. Além de poderem ou não pertencer a grupos de risco (mais de 65 anos, com diabetes ou doença cardiovascular, com doença respiratória pré-existente ou sujeitos a terapêutica imunossupressora, como corticoides ou em hemodiálise), têm de se proteger a si próprios e proteger o doente de quem cuidam. Ter alguém de retaguarda que possa substituir o cuidador, caso este adoeça, é um aspeto importante mas, acima de tudo, é importante minimizar a hipótese de contaminação.

Tanto os doentes oncológicos como os cuidadores devem seguir as recomendações gerais divulgadas pela Direção-Geral de Saúde para redução do risco de contágio. Contudo, ainda surgem dúvidas relativas à alimentação durante esta fase pandémica.

Doente com cancro e COVID-19: compra de alimentos

A compra dos alimentos deve ser responsável e adequada a cada caso e, quando disponível, será preferível a opção por serviços de entrega ao domicílio.

Os alimentos a optar deverão ser aqueles com uma boa durabilidade, que vão de encontro com uma alimentação saudável (variada, equilibrada e completa) e que permitam diminuir a frequência de idas às compras. Para tal, é importante que as compras sejam planeadas, fazendo-se uma lista com base na disponibilidade de alimentos em casa, na capacidade de armazenamento no frigorífico e no congelador e no planeamento das refeições.

Durante a compra dos alimentos, o doente ou o cuidador deverão verificar e cumprir a lista elaborada, optando por alimentos que tenham um prazo de validade mais longo e por aqueles com maior valor nutricional. Quando se trata de frutas e hortícolas, é importante que a escolha incida sobre os mais frescos.

A atitude durante as compras também é importante. Assim, deve-se lavar as mãos antes e depois da ida às compras, evitar o manuseamento de alimentos além do necessário para os colocar no cesto ou carrinho, cumprir o distanciamento social, evitar tocar nos olhos, nariz e boca e usar máscara.

Doente com cancro e COVID-19: alimentação

Relativamente à alimentação, deve ser saudável, devendo a ingestão de água ser frequente e, no mínimo, de 8 copos por dia, garantindo uma boa hidratação.

Assim, a ingestão de fruta e hortícolas (crus ou cozinhados, em sopas e de outras formas) não pode ser esquecida. As leguminosas, como o grão, o feijão, as lentilhas e outros, são boas fontes de fibra e de outros nutrientes importantes, pelo que devem integrar a alimentação. Além destes e de acordo com as orientações de uma alimentação saudável, o doente ou o cuidador não deverão esquecer os outros grupos alimentares abrangidos pela Nova Roda dos Alimentos.

No caso dos doentes oncológicos, a escolha dos alimentos e a sua preparação deve ter em conta todos os aspetos clínicos/sintomáticos, pelo que a alimentação, muitas vezes, tem de ser ajustada. Em caso de alteração ou surgimento de sintomas com impacto na alimentação, é necessária a intervenção por parte de um Nutricionista que adeque essas alterações às necessidades nutricionais do doente.

Doente com cancro e COVID-19: higiene alimentar

À luz dos conhecimentos atuais e de acordo com a European Food Safety Authority, os alimentos não parecem ser uma fonte de transmissão ou uma via de transmissão do vírus. Apesar disso, é importante que as boas práticas de higiene sejam mantidas, sempre que se manusear, preparar e confecionar alimentos.

Assim, as mãos devem ser lavadas frequentemente, de acordo com os passos divulgados pela Direção-Geral da Saúde, com água e sabão, durante 20 segundos, principalmente:

– antes de depois de os alimentos serem manuseados

– antes e depois de comer e fumar

– depois de usar a casa de banho

– depois de mexer em lixo, produtos tóxicos e dinheiro.

Contudo, durante a preparação e confeção de alimentos e além da lavagem das mãos, existem cuidados que também merecem atenção, nomeadamente:

– para limpeza, optar por toalhetes de papel ou toalhas de utilização única

– antes e depois de preparar cada tipo de alimentos, lavar os utensílios, as tábuas/placas de corte e as bancadas com água quente e sabão

– usar utensílios e placas de corte diferentes para alimentos crus e alimentos cozinhados

– separar os alimentos crus dos já cozinhados ou prontos a consumir

– lavar os hortícolas com água corrente abundante

– evitar o consumo de alimentos de origem animal crus ou mal cozinhados

– conservar os alimentos já preparados ou cozinhados que não vão ser consumidos de imediato a temperatura inferior a 5ºC ou superior a 65ºC

– tapar os alimentos, protegendo-os da contaminação do ar, de insetos e de outros animais.

Doente com cancro e COVID-19: suplementos e “superalimentos”

De acordo com os conhecimentos científicos atuais, não existe nenhum alimento específico ou suplemento alimentar que possa prevenir ou ajudar no tratamento da COVID-19.

Contudo, sabe-se que é necessária uma alimentação saudável, para garantir o normal funcionamento do sistema imunitário, a qual fornece nutrientes que contribuem para dar energia (hidratos de carbono, lípidos e proteínas), vitaminas e minerais e água. Deste modo, há que garantir uma alimentação completa, ou seja, que inclua alimentos de todos os grupos, equilibrada nas porções de cada grupo e variada nas fontes alimentares de cada um.

Referências:Cancer Research UK. [acesso em 27 abr 2020]. Disponível em: https://www.cancerresearchuk.org; American Cancer Society. [acesso em 27 abr 2020]. Disponível em: https://www.cancer.org/; Sociedade Portuguesa de Oncologia. [acesso em 27 abr 2020]. Disponível em: https://www.sponcologia.pt; Direção-Geral da Saúde. COVID-19 Orientações na área da Alimentação. 2020 [acesso em 27 abr 2020]. Disponível em https://alimentacaosaudavel.dgs.pt/documentos-para-descarregar/. Fontes de imagens: http://www.cienciaviva.pt/covid19/;https://www.allure.com/story/how-to-reuse-throw-away-surgical-mask-n95-cloth-face-covering

Dina Raquel João é Nutricionista e Mestre em Nutrição Clínica, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas (nº 0204N), com o Título de Especialista para a área de Terapia a Reabilitação da Classificação Nacional de Áreas de Educação e Formação, subárea da Nutrição, tendo desenvolvido a sua atividade profissional principalmente na prática clínica, na docência e formação e na investigação. Como Nutricionista, iniciou atividade clínica em 2001, tendo exercido a nível hospitalar, em centro de saúde e em clínica privada. A experiência profissional na área da investigação decorreu, essencialmente, na área oncológica, tendo sido premiada nesse campo (1º Prémio de Nutrição Clínica da Fresenius Kabi, em 2002). Conta com diversas comunicações científicas orais e em painel, tanto em eventos nacionais como internacionais. Atualmente, é Professora Adjunta Convidada na Universidade do Algarve – Escola Superior de Saúde, lecionando à licenciatura em Dietética e Nutrição.