Cancro do pulmão e alimentação: melhorar e manter um bom estado nutricional

A prevalência de malnutrição em doentes com cancro do pulmão varia entre 45% e 69%, estando a mesma relacionada com piores resultados clínicos.cancro do pulmao

Em doentes com cancro, a malnutrição prejudica o sistema imunitário e a capacidade funcional para a realização das atividades do dia-a-dia, dado que afeta a função muscular. Além disso, contribui para a depressão, para o cansaço, para uma diminuição da resposta à quimioterapia, para um aumento dos efeitos secundários desse tratamento e para um aumento da frequência e da gravidade das complicações. Tudo isto, resulta numa sobrevivência mais reduzida.

Assim, o que pode ser feito para melhorar e manter o estado nutricional dos doentes? Existe algum alimento que ajude a tratar a doença?

Cancro do pulmão: “super-alimentos” e “super-suplementos”

Apesar de existir muita publicidade a “super-alimentos” e a “super-suplementos”, o facto é que não existe evidência científica de que algum alimento ou suplemento alimentar específico possa curar ou ajudar a curar o cancro do pulmão.

Uma alimentação rica em vegetais, fruta, cereais integrais e fontes magras de proteína pode contribuir para que o doente se sinta melhor, tolere melhor os tratamentos e aumente as possibilidades de levar até ao fim os tratamentos oncológicos propostos e, deste modo, melhorando o prognóstico.

Cancro do pulmão: qual a melhor alimentação?

Fundamentalmente, é importante que sejam seguidas algumas recomendações gerais, as quais devem ser ajustadas de acordo com a situação clínica e características individuais. Eis alguns princípios básicos:

– comer com regularidade, de 3 em 3h, não esperando para ter fome

– incluir proteínas, hidratos de carbono e gorduras, em cada refeição, optando por refeições ricas em proteínas e em energia, com base em alimentos saudáveis

– ao acordar, ingerir 1-2 copos de água e outro copo ao deitar, além da ingestão frequente ao longo do dia, de modo a evitar a desidratação. Aromatizar a água ou variar as infusões de ervas pode ser uma alternativa à água ingerida de forma isolada. Optar por fazê-lo fora das refeições, de modo a contrariar possíveis sensações de enfartamento.

– evitar alimentos processados, preferindo os vegetais frescos, os cereais integrais e a fruta

– optar por lanches ricos em proteínas

– evitar fritos, alimentos açucarados e limitar a ingestão de sal

– optar por ter alimentos na carteira, secretária e no carro, para que se tenha sempre alguns disponíveis, evitando-se ter fome em momentos em que a aquisição é difícil

Contudo e em muitos doentes, surgem efeitos secundários dos tratamentos que tornam difícil a ingestão alimentar. As náuseas e os vómitos, a falta de apetite e as alterações do paladar podem prejudicar a alimentação e, em consequência, o estado nutricional dos doentes.

A intervenção de um nutricionista é fundamental no controlo destes sintomas, bem como na orientação da suplementação alimentar, já que muitos suplementos poderão interferir com os tratamentos. Contudo e de acordo com a avaliação efetuada, o nutricionista poderá prescrever suplementação específica para complementação da dieta, nomeadamente os chamados suplementos nutricionais orais.

Cancro do pulmão: a alimentação é um aspeto individual

A alimentação de um doente com cancro do pulmão depende de uma série de fatores que devem ser avaliados. Assim, devem ser consideradas as necessidades nutricionais individuais, o estado nutricional, os tratamentos, os efeitos secundários dos mesmos e todo o historial clínico (outras condições, doenças ou intolerâncias, além do cancro).

Não há dúvida de que não “existe uma receita” para alimentação do doente com cancro do pulmão, devendo esta ser adaptada às características individuais do doente e elaborada sempre com base na evidência científica atual. Apenas nestas condições a nutrição poderá dar o seu contributo como adjuvante no tratamento oncológico.

Como focos podemos considerar que o doente deverá manter um peso saudável, obter os nutrientes que o organismo precisa, principalmente tendo a alimentação como fonte, e evitar os alimentos que agravam os efeitos secundários dos tratamentos, como, por exemplo, a mucosite.

Cancro do pulmão: a higiene alimentar

Outro aspeto importante é a higiene alimentar. Quando em tratamento para o cancro do pulmão, o sistema imunitário dos doentes poderá estar afetado, aumentado o risco de infeções. Assim, é importante:

– lavar as mãos antes e durante a confeção das refeições, bem como antes da ingestão alimentar

– lavar rigorosamente a fruta e os vegetais

– a higiene das mãos é fundamental, antes e após a manipulação de produtos crus e de ovos

– todos os utensílios que entraram em contacto com os produtos crus não devem ser usados para preparar, guardar e/ou consumir os produtos cozinhados

– evitar utensílios de madeira (tábuas de preparação, colheres de pau, entre outros), que facilitam a proliferação dos microrganismos, por apresentarem poros onde estes de acumulam

– os alimentos crus e os confecionados sejam conservados às temperaturas recomendadas (<5 ºC, se refrigerados, e -18 ºC, se congelados) e consumidos num prazo adequado, variando este com a natureza do alimento

– evitar os alimentos de maior risco: sushi, saladas ingeridas fora de casa, carnes mal passadas e todos os pratos em que exista manipulação após a confeção -frango desfiado, por exemplo.

– dar atenção à qualidade microbiológica da água, evitando-se aquela de furos, poços e fontes e preferindo-se a água municipal ou engarrafada.

Referências: American Lung Association. Disponível em www.lung.org. Atualizado a 22/3/2020 e acedido a 28/3/2020. Kiss NK et al. The effect of nutrition intervention in lung cancer patients undergoing chemotherapy and/or radiotherapy: a systematic review. Nutr Cancer. 2014; 66(1): 47-56. Van Cutsem E & Arends J. The causes and consequences of cancer-associated malnutrition. European Journal of Oncology Nursing 2005;9:S51–S63. Suppl 2:S51-63. Fontes de imagens: https://www.everydayhealth.com/breast-cancer/diet/how-eat-well-while-being-treated-breast-cancer/; https://prognoshealth.com/blog/in-the-race-to-defeat-lung-cancer-every-day-counts/

Dina Raquel João

Dina Raquel João é Nutricionista e Mestre em Nutrição Clínica, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas (nº 0204N), com o Título de Especialista para a área de Terapia a Reabilitação da Classificação Nacional de Áreas de Educação e Formação, subárea da Nutrição, tendo desenvolv (...)