Microbioma intestinal no tratamento do cancro

Nos últimos anos, a investigação em oncologia tem evidenciado o papel-chave do microbioma intestinal na modelação da resposta do hospedeiro aos tratamentos (quimioterapia, imunoterapia, radioterapia e cirurgia), em vários tipos de cancro.

A flora que habita o intestino humano tem mostrado participar na resistência de uma grande variedade de tratamentos oncológicos, quer pela interação direta com o tratamento, quer indiretamente, estimulando a resposta do hospedeiro através da imunomodelação. Para além do papel na eficácia na terapêutica oncológica, o microbioma intestinal parece ter, também, impacto nos efeitos secundários induzidos pelos tratamentos.

Microbioma intestinal: características

Num microbioma saudável e estável, as espécies comensais providenciam uma resistência à colonização por potenciais agentes patogénicos, os quais podem ultrapassar a barreira intestinal ou permanecer no intestino.

microbioma intestinalDe um modo geral, um microbioma intestinal saudável evolui com uma alimentação rica em fibra. As bactérias intestinais usam os hidratos de carbono não digeríveis, encontrados principalmente nos vegetais, frutos, legumes e cereais integrais, como principal fonte de energia. Por sua vez, as bactérias fermentam estes hidratos de carbono para produzir ácidos gordos de cadeia curta que têm efeitos fisiológicos importantes na saúde do hospedeiro, nas vias de sinalização celular e na imunidade.

Em alturas de restrição a esses hidratos de carbono não digeríveis, as bactérias utilizam as glicoproteínas da mucosa intestinal como fonte alternativa de energia. Contudo, com o passar do tempo e se a situação de mantiver, poderão surgir danos na barreira intestinal.

Outros fatores que podem prejudicar as bactérias residentes e a resistência à colonização por patogénicos são os antibióticos e as infeções agudas.

Microbioma intestinal e cancro

É crescente a evidência que o microbioma influencia a resposta às terapêuticas contra o cancro. Estudos recentes têm mostrado uma ligação entre o conjunto de bactérias que colonizam o intestino e a resposta e a toxicidade a múltiplos tipos de tratamentos. Deste modo, estão a surgir novas prioridades para a investigação em nutrição em doentes oncológicos, tendo a flora intestinal como alvo modificável.

O microbioma intestinal pode influenciar a resposta ao bloqueio do checkpoint imunológico, uma terapêutica revolucionária que deu origem à atribuição do Prémio Nobel da Medicina, em 2018, a James Allison e Tasuko Honjo. Além disso, o perfil, isto é, a “composição” da flora intestinal parece estar fortemente associado à resposta à imunoterapia. Adicionalmente, a modelação do microbioma ditou a resposta aos tratamentos, em modelos pré-clínicos.

Microbioma intestinal e alimentação

Tendo em conta que os fatores que aumentam (alimentos ultraprocessados, açúcares adicionados, cereais refinados) ou diminuem (cereais integrais, frutos secos e sementes, legumes, fibra) o risco de doenças cardiovasculares e de cancro são também determinantes da composição da flora intestinal, uma das temáticas estudadas é o papel do microbioma como mediador-chave na ligação entre nutrição e cancro.

Os hábitos alimentares influenciam a flora do intestino. Além disso, o metabolismo e os metabolitos do hospedeiro interagem com a mesma e com a alimentação. Todos estes fatores influenciam a saúde intestinal e a imunidade, sugerindo que a adequação desse relacionamento co-dependente afeta amplamente o risco de cancro e os resultados da doença. Deste modo, o microbioma intestinal parece poder ser alterado através de intervenções alimentares para prevenir e tratar várias doenças. Contudo, os mecanismos pelos quais os alimentos ou produtos alimentares o fazem permanecem marcadamente desconhecidos.

Tal como os múltiplos componentes dos alimentos interagem entre si, também quanto à flora intestinal o todo parece ser maior do que a soma das partes. Assim, embora alguns microrganismos tenham capacidades metabólicas específicas, cada um está também dependente dos agentes microbianos que “habitam” em seu redor, influenciando-se mutuamente.

É de ressaltar que as atividades metabólicas do microbioma intestinal no seu conjunto pareçam ser mais resistentes a estratégias alimentares. Posto isto, identificar metas e respostas previsíveis e com efeito a longo prazo é um desafio para a ciência.

Alimentação e microbioma intestinal, individualmente e em conjunto, podem ser causa, diagnóstico e/ou prognóstico, devendo ser considerado o potencial de ambos em conjunto. Uma maior compreensão das interações entre a alimentação e o microbioma é fundamental, devido ao enorme impacto na resposta do doente às intervenções nutricionais e no impacto das mesmas na saúde.

Contudo, a nutrição tem amplos efeitos na saúde, através do metabolismo sistémico e muito há ainda por investigar. Um ponto é certo; de entre tudo o que já se conhece da nutrição oncológica, a abordagem a este novo campo relacionado com o microbioma intestinal, deve ser focada num balanço geral, em vez de assentar em fatores singulares. Tal como uma boa nutrição nunca foi alcançada com foco em apenas um alimento ou nutriente (ou suplemento), identificar somente uma espécie ou estirpes bacterianas é improvável que seja uma estratégia eficaz para definir um microbioma intestinal capaz de “fazer frente” ao cancro.

Microbioma intestinal: qual a esperança, em oncologia?

Espera-se que o microbioma seja o biomarcador que permita a definição de recomendações nutricionais e alimentares devidamente suportadas cientificamente, para a prevenção do cancro, para doentes oncológicos em tratamento e para sobreviventes da doença.

O microbioma intestinal constitui uma promissora área de investigação para as comunidades científica e clínica, no sentido da melhoraria da eficácia dos tratamentos oncológicos, em vários tipos de cancro.

Referências: Villéger R et al. Intestinal microbiota: a novel target to improve anti-tumor treatment? Int J Mol Sci. 2019; 20(18); Kolodziejczyk AA et al. Diet-microbiota interactions and personalized nutrition. Nat Rev Microbiol. 2019; doi: 10.1038/s41579-019-0256-8. [Epub ahead of print]; Daniel CR & McQuade JL. Nutrition and cancer in the microbiome era. Trends in Cancer. 2019; 5(9): 521-3; Hryckowian AJ et al. Microbiota-accessible carbohydrates suppress Clostridium difficile infection in a murine model. Nat. Microbiol. 2018; 3: 662–669; Desai MS et al. A dietary fiber-deprived gut microbiota degrades the colonic mucus barrier and enhances pathogen susceptibility. Cell. 2016; 167: 1339–1353. McQuade JL et al. Modulating the microbiome to improve therapeutic response in cancer. Lancet Oncol. 2019; 20: e77–e91; Shively CA et al. Consumption of Mediterranean versus Western diet leads to distinct mammary gland microbiome populations. Cell Rep. 2018; 25: 47–56; Wu GD et al. Comparative metabolomics in vegans and omnivores reveal constraints on diet-dependent gut microbiota metabolite production. Gut. 2014; 65: 63–72. Fontes de imagens: https://news.stanford.edu/2019/08/27/researchers-probe-microbiome-cancer-treatment-link/; https://www.scienceandtechnologyresearchnews.com/fecal-microbiota-transplantation-helps-restore-beneficial-bacteria-in-cancer-patients/

 

Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº0204N, mestre em nutrição clínica pela Universidade  do Porto. Iniciou a sua atividade profissional em 2001 e, atualmente, além de exercer prática clínica em consultório privado e em meio hospitalar, a su (...)