Interações entre plantas e medicamentos usados no tratamento do cancro

O consumo de “plantas medicinais” por sobreviventes de cancro é frequente, sendo, muitas vezes, tidas como “naturais” e seguras”, comparativamente a outras formas de intervenção. Contudo, têm sido verificadas práticas de preparação industrial não adequadas, falta de uniformização dos diversos ingredientes ativos, contaminação dos produtos e graves interações entre as plantas e medicamentos.

Interações entre plantas e medicamentos

As interações entre plantas e medicamentos correspondem ao efeito das primeiras ou dos seus extratos na atividade, no metabolismo ou na toxicidade dos medicamentos. Essas interações podem ser divididas em dois grupos: farmacocinéticas e farmacodinâmicas.

Interações entre plantas e medicamentos: farmacocinéticas

As interações farmacocinéticas dizem respeito ao modo como as plantas podem influenciar a absorção, a distribuição, o metabolismo e a excreção de medicamentos. Assim, diz-se que há interação farmacocinética, quando existe uma alteração da concentração do fármaco no local de ação.

Os estudos realizados no âmbito da farmacocinética incidem nas ações das enzimas do citocromo P450 (CYP) e de transportadores de membrana, como a glicoproteína P (P-gp), os quais têm funções importantes na absorção e no metabolismo de muitos medicamentos.

No caso das “plantas medicinais”, podem apresentar compostos que interferem com ambos, afetando o modo como os medicamentos são metalizados. Por exemplo, o sumo de toranja pode aumentar os níveis sanguíneos de ciclosporina em 38%, de tacrolimus em 110% e de oxicodona em 67%.

Por outro lado, a hiperforina, o maior constituinte do hipericão (a erva de S. João), parece reduzir os níveis sanguíneos de irinotecano, um substrato do CYP3A4 e da P-gp, em 40%. O imatinib, o osimertinib e o lapatinib são outros medicamentos usados em oncologia e que são substratos do CYP3A4, pelo que os níveis sanguíneos dos mesmos poderão ser influenciados pelo consumo de hipericão.

O tamoxifeno é outro fármaco que depende do CYP2D6 e do CYP3A4 para ser metabolizado na sua forma ativa. Deste modo, plantas que inibam estas enzimas podem diminuir a eficácia do medicamento. Um exemplo é o extrato de chá verde, o qual interfere com o CYP3A4, podendo interagir não só com o tamoxifeno mas com outros fármacos metabolizados por esta enzima. Os constituintes polifenólicos do chá verde podem anular o efeito terapêutico do bortezomib e aumentar o risco de toxicidade, quando consumido por doentes em tratamento com tamoxifeno, irinotecano e acetaminofeno.

Uma vez que também interfere com enzimas CYP450, a curcumina, o principal componente da curcuma, pode interagir com medicamentos que são substrato das mesmas.

Para além dos referidos, os cogumelos reishi (não são uma planta mas são considerados “medicinais”, sendo, muitas vezes, consumidos por doentes oncológicos) têm sido reportados como inibidores das enzimas CYP450, podendo aumentar a toxicidade dos fármacos metabolizados por esta família de enzimas.

Interações entre plantas e medicamentos:  interações farmacodinâmicas

As interações farmacodinâmicas relacionam-se com o modo como as plantas podem alterar a ação dos medicamentos, isto é, o seu efeito fisiológico. Deste modo, diz-se que existe uma interação farmacodinâmica, quando há alteração da capacidade do medicamento para interagir com o local de ação. Assim, podem resultar efeitos que são comuns (aditivos ou sinérgicos), efeitos opostos (antagonistas) e efeitos tóxicos. Em oncologia, os fármacos propensos a interações farmacodinâmicas incluem: citotóxicos, anticoagulantes, hormonas e agentes imunossupressores.

Interações entre plantas e medicamentos: citotóxicos e plantas com propriedades antioxidantes

Citotóxicos como as antraciclinas, compostos de platina e agentes alquilantes desempenham o seu efeito, gerando radicais livres. Teoricamente, os antioxidantes podem tornar estes medicamentos menos eficazes. Todavia, a ciência tem mostrado resultados mistos que sugerem um potencial para redução das toxicidades mas sem impacto nos tempos de sobrevivência. Os diferentes resultados podem ser justificados pelas variações entre as formas e as doses dos antioxidantes e os citotóxicos usados. Outros trabalhos referem que baixas doses de antioxidantes após a quimioterapia podem diminuir os efeitos secundários e aumentar a sobrevivência.

Contudo, até que a ciência possa retirar conclusões definitivas, os doentes em quimioterapia deverão evitar a suplementação de ”plantas medicinais” com efeitos antioxidantes. A curcumina é um desses produtos. Devido às suas características antioxidantes, pode interagir com alguns citotóxicos, como a ciclofosfamida e a doxorrubicina. Outro produto são os cogumelos reishi. Tal como a curcumina, as suas características antioxidantes podem reduzir a eficácia de alguns citotóxicos.

Interações entre plantas e medicamentos: anticoagulantes e “plantas medicinais” com efeitos anticoagulantes

Interações entre plantas e medicamentos,

Os anticoagulantes são usados com frequência em doentes oncológicos acamados. Um dos casos é o da varfarina, sobre a qual o dang gui (Angelicae sinensis) pode ter efeitos aditivos, aumentando, então, o risco de hemorragias. Outros exemplos são a curcumina e os cogumelos reishi. O gengibre pode ser outro dos casos, embora um artigo de revisão recente tenha mostrado resultados contraditórios. Assim, aguardemos por mais estudos.

Doentes com trombocitopenia secundária ao cancro ou devida à quimioterapia devem evitar as plantas que têm efeito anticoagulante. Por outro lado, aqueles propostos para cirurgia devem evitar as mesmas plantas nas 2 semanas anteriores, pelo menos.

Interações entre plantas e medicamentos: terapêutica hormonal e fitoestrogénios

As terapêuticas hormonais são frequentemente usadas como adjuvantes do tratamento para situações em que o tumor é sensível a hormonas.

O tamoxifeno um dos fármacos prescritos, em casos de cancro da mama sensíveis ao estrogénio. Plantas como o trevo vermelho e produtos de soja são conhecidos por terem efeitos estrogénicos moderados, podendo estimular o crescimento dos tumores sensíveis a esta hormona. Além disso, a genisteína, uma isoflavona encontrada na soja, tem mostrado interferir com o tamoxifeno. Todavia, resultados de estudos clínicos têm mostrado associações positivas entre o consumo pós-diagnóstico de alimentos derivados da soja e uma redução do risco de mortalidade por cancro da mama (embora não significativa), bem como a uma significativa redução do risco de recidiva. O consumo de derivados da soja também parece reduzir a mortalidade e a recorrência, independentemente do uso de tamoxifeno. Contudo, os suplementos dietéticos de soja estão desaconselhados.

Agentes imunossupressores e plantas imunoestimulantes

Os agentes imunossupressores são usados para minimizar a rejeição de um órgão transplantado. Estes agentes manifestam interações com diversas plantas. O hipericão diminui os níveis sanguíneos de ciclosporina e de tacrolimus em mais de 50%. Por outro lado, o astragalus pode diminuir marcadamente o efeito dos fármacos imunossupressores, devido à sua capacidade estimuladora do sistema imunitário.

Tanto os profissionais de saúde como os doentes podem encontrar informação credível sobre a interação entre plantas e medicamentos em alguns sites como Memorial Sloan Kettering Cancer Center: www.mskcc.org/aboutherbs;National Institutes of Health’s Office of Dietary Supplements: https://ods.od.nih.gov; Observatório de interações planta-medicamento – Base de dados de interações: http://www.oipm.uc.pt

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Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº0204N, mestre em nutrição clínica pela Universidade  do Porto. Iniciou a sua atividade profissional em 2001 e, atualmente, além de exercer prática clínica em consultório privado e em meio hospitalar, a su (...)