Dietas vegetarianas e prevenção do cancro

Poderão as dietas vegetarianas prevenir o surgimento de cancro?

Uma revisão sistemática publicada em 2017 propôs-se a clarificar a associação entre as dietas vegetarianas e veganas e os fatores de risco para doenças crónicas, risco de mortalidade e incidência destas doenças. Os autores concluíram que poderá haver um menor risco para o surgimento de cancro nos grupos de indivíduos com um padrão alimentar vegano. No entanto, os resultados deverão ser interpretados com cautela. Todos os estudos incluídos são bastante heterogéneos e com uma população pequena, o que dificulta o processo de análise e as conclusões.

Um outro estudo publicado em 2016, não se encontraram benefícios significativos com a exclusão de proteína de origem animal, quando comparadas dietas que incluíam peixe com dietas vegetarianas. Os autores referem que o benefício para a prevenção do cancro parece estar no elevado consumo de alimentos de origem vegetal e não na exclusão total de alimentos de origem animal.

Após o surgimento da doença, mais que a dieta, parecem ser os tratamentos o fator com maior impacto na mortalidade por cancro.

Dietas vegetarianas: fatores confundidores

Chegar a conclusões relativamente aos benefícios de um determinado padrão alimentar é um processo complexo, já que raramente é possível isolar a dieta dos restantes estilos de vida dos indivíduos estudados. Os indivíduos que adotaram dietas vegetarianas também apresentavam, por exemplo, menor índice de massa corporal. A obesidade é um fator de risco conhecido para o surgimento de cancro, será assim difícil avaliar qual a extensão do impacto da ausência de obesidade e o da dieta de modo isolado.

dietas vegetarianas,

Por outro lado, de uma forma geral, assume-se que tipicamente indivíduos que seguem dietas vegetarianas adotam estilos de vida mais saudáveis em comparação com indivíduos que ingerem elevadas quantidades de carne, dificultando a dissociação do beneficio do padrão alimentar do benefício do estilo de vida como um todo.

Mais do que um fator isolado, será o estilo de vida o fator com maior impacto na redução ou aumento de risco do surgimento de qualquer doença. Por isso, a mensagem é pouco glamorosa mas importante: os benefícios encontram-se na adoção de estilos de vida saudáveis mantidos de forma consistente.

Seguir as recomendações do World Cancer Research Fund é atualmente um bom começo para a prevenção:

  – Reduza a ingestão de carne vermelha para 350 – 500g por semana (peso após confeção) e apenas ingira carnes processadas esporadicamente.
  – Mantenha um peso adequado para a sua idade e estatura, limitando a ingestão de bebidas açucaradas e de alimentos ricos em açúcares de absorção rápida.
  – Limite a ingestão de bebidas alcoólicas.
– Pratique um mínimo de 75 minutos de atividade física intensa ou 150 minutos de atividade física moderada por semana.
  – Aumente a ingestão de alimentos ricos em fibras como cereais integrais, oleaginosas, leguminosas e ingira um mínimo diário de 5 porções de vegetais e fruta, equivalentes a 400g.

Já escrevemos outros artigos sobre dietas vegetarianas. Pode consultá-los aqui e aqui.

Referências:Godos J, et al. Vegetarianism and breast, colorectal and prostate cancer risk: an overview and meta-analysis of cohort studies. J Hum Nutr Diet. 2017 Jun;30(3):349-359; Dinu M, et al. Vegetarian, vegan diets and multiple health outcomes: A systematic review with meta-analysis of observational studies. Crit Rev Food Sci Nutr. 2017 Nov 22;57(17):3640-364; wcrf.org 

Inês Correia

Inês Almada Correia, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas 3684N, pós- graduada em Nutrição em Oncologia pela Universidade Católica Portuguesa. Tem colaborado com a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL) em atividades, tais como workshops sobre alimentação direc (...)