Reduzir o uso de estatinas: a missão de uma cardiologista americana

Elizabeth Klodas é uma cardiologista americana, autora do blog Step One Foods e publicou recentemente um artigo na CNN sobre a necessidade de se reduzir o uso de estatinas no controlo do colesterol. Partilhamos o seu ponto de vista.   

Colesterol alto? Aqui está um comprimido. Pressão alta? Aqui estão dois comprimidos. Açúcar alto no sangue? Aqui estão dois comprimidos e uma injeção.

É isto que muitos médicos por rotina fazem, sem nunca abordar com o doente as razões de apresentarem valores acima dos considerados normais do colesterol, da pressão arterial ou do açúcar no sangue.

Esta também era a minha prática, até que percebi que, tudo o que fazia era esconder os efeitos negativos de uma alimentação pobre com uma batelada de medicamentos, em vez de modificar os hábitos alimentares.

Sou cardiologista e formei-me nas melhores instituições médicas do mundo, incluindo a Clínica Mayo e o Hospital Universitário Johns Hopkins, além de ser reconhecida pelos cuidados que presto aos meus doentes. Mas o que eu realmente gostaria de alcançar profissionalmente era não ter tanto trabalho.

Infelizmente, os cardiologistas têm muito trabalho, sem fim à vista. Isto acontece porque estamos a tratar estes doentes de modo errado. Habitualmente, a minha sala de espera estava cheia de pacientes, que tratava na perfeição, mas que continuavam doentes, sentindo-se pessimamente. Alguns até se chegaram a sentir pior com toda a medicação que eu lhes prescrevia. Sem cura à vista, tinham, no seu horizonte, apenas as intermináveis consultas de acompanhamento. Não foi para isto que tirei medicina.

Contudo, ninguém parecia estar a fazer alguma coisa para resolver este problema, ignoravam-no. Então, decidi encontrar uma solução e fundei uma empresa que desenvolve produtos alimentares para ajudar a reduzir o colesterol, com o apoio das ciências farmacêuticas.

Pode haver 30.000 produtos alimentares nos supermercados, mas nenhum deles foi efetivamente submetido a qualquer escrutínio científico.  Esses produtos ostentam diferentes tipos de marcas de certificação e símbolos com o coração, mas isso é apenas uma parte de todo o processo. Por exemplo, os cereais podem conter fibras alimentares, divulgando ousadamente nas embalagens, a capacidade dessas fibras reduzirem o colesterol, mas as letras pequeninas revelam que uma porção desses cereais também fornece açúcares adicionados, equivalentes a três bolachas. Qualquer efeito positivo para a saúde dessas fibras é completamente anulado. É suposto o consumidor comum saber disto? Não, a maior parte dos consumidores não sabe. Os consumidores conseguem avaliar o sabor desses cereais e sentem-se bem ao comprá-los. Os meus doentes faziam esforços para “comer melhor”, mas estavam sendo enganados.

Há duas décadas que as recomendações para o tratamento do colesterol do Instituto Nacional de Saúde determinam que as alterações nos hábitos alimentares deveriam ser implementadas durante três meses, como a primeira abordagem para tratar os doentes com níveis de colesterol elevado, antes de serem submetidos a qualquer prescrição médica para o efeito. Porém, muitos de meus colegas manifestam ceticismo de que uma solução baseada num regime alimentar possa funcionar.

Foram necessárias mais de 80.000 horas de formação para me tornar cardiologista. Deste tempo, quantas horas foram investidas em nutrição? Zero.

As orientações de tratamento, que representam os cuidados padrão apropriados, são apenas declarações simbólicas sobre nutrição. Por exemplo, a mais recente orientação para o controlo do colesterol da Associação Americana de Cardiologia tem 120 páginas. Quantas páginas são dedicadas aos hábitos alimentares? Um parágrafo. São, principalmente, orientações acerca da prescrição de medicamentos e suas doses. As crianças com apenas 10 anos, de acordo com estas orientações, podem começar a tomar estatinas como Lipitor e Crestor.

Além do mais, os médicos apenas conhecem o modelo de prescrição. O que lhes é ensinado é que a única prova eficaz e verdadeiramente válida é um ensaio clínico, tudo o resto é uma suposição. É por isso que a indústria farmacêutica governa, embora a literatura científica esteja repleta de dados sobre os benefícios para a saúde de vários alimentos. Os alimentos não têm “posologia”.

Sabia que os médicos são controlados de acordo com a prescrição de medicamentos? Se eu não seguir as diretrizes para o colesterol prescrevendo estatinas, as seguradoras irão enviar cartas de repreensão. Se eu não falar com o doente sobre os efeitos das nozes e do farelo de aveia na redução do colesterol, ninguém se importa. Os médicos até recebem mais dinheiro quando um medicamento é prescrito. Uma consulta médica que gere uma prescrição é considerada mais complexa, com maior reembolso. Em contrapartida, se um médico usar um pouco do seu tempo para falar sobre antioxidantes e ácidos gordos ómega-3 ao doente, não obtém nada mais.

A minha ideia é disponibilizar aos médicos, às seguradoras e especialmente aos doentes, uma alternativa alimentar para reduzir o colesterol, que possa competir ao mesmo nível dos medicamentos. Esses alimentos devem ter um sabor excelente, utilizando apenas ingredientes promotores da saúde. Eles devem estar doseados, fáceis de prescrever e usar, tal como os medicamentos. Mais importante, eles têm a capacidade de produzir reduções no colesterol clinicamente significativas, confirmadas por ensaio clínico.

Uma vez que 70 milhões de americanos têm colesterol elevado, decidi aproximar-me das grandes empresas de alimentos e de investidores, pensando ingenuamente que eles iriam adorar a minha ideia e querer ajudar. Não, nada disso. Os produtores alimentares consideraram os ingredientes saudáveis (como amêndoas, nozes, nozes e mirtilos integrais) muito caros. Eles queriam substituí-los por aromatizantes, adoçantes artificiais e “pedacinhos de frutas”. Os investidores entenderam que o ensaio clínico que propusemos para confirmar a eficácia era demasiado incerto. E disseram-nos que precisávamos de ter patentes para que pudéssemos cobrar preços como fazem as empresas farmacêuticas. Não admira que isso nunca tivesse sido feito antes. Simplesmente não dava bastante lucro. A saúde do doente, pelo que parece, não é muito valiosa.

Decidida, eu e os meus apoiantes avançamos, financiados através de doações, e conduzimos um ensaio em dois países para testar alimentos na redução do colesterol em indivíduos com intolerância às estatinas, isto é indivíduos candidatos a tomar estatinas, mas que não podem tomar estes medicamentos por reações adversas, como dores musculares. Os participantes do estudo receberam uma única instrução:”Coma estes alimentos duas vezes por dia, para substituir outros produtos alimentares que habitualmente come”, sem fazer mais nenhuma alteração ao estilo de vida. Tão e simples e literal como “tome esse comprimido duas vezes por dia”.

Foram encontrados resultados que atingiram 20%, 30%, quase perto dos 40% em reduções de colesterol em muitos dos participantes, em apenas 30 dias. Estes dados foram submetidos num encontro da Associação Americana de Cardiologia e serão alvo de publicação. Essas respostas aos níveis de colesterol com alimentos estão ao nível das respostas obtidas medicação, sem a necessidade de outras revisões dietéticas ou de rotinas de exercício físico. Estes alimentos não representam só uma opção para os 20 milhões de americanos  estimados que são intolerantes às estatinas e não têm outras soluções, mas também para milhões de pessoas que precisam de baixar o colesterol.

Tal como acontece com os medicamentos, nem todo o colesterol responderá igualmente a uma intervenção alimentar. Algumas pessoas devem tomar estatinas mesmo que o colesterol esteja com valores normais. Mas, considerando que um mês de hábitos alimentares saudáveis é suficiente para determinar se o indivíduo responde positivamente às alterações alimentares, não fará sentido dar às pessoas a oportunidade de tentarem uma intervenção alimentar validada antes de lhes prescrever medicação para uma vida inteira? Tanto mais que os alimentos não têm efeitos colaterais, apenas benefícios como baixar a pressão arterial, melhorar os níveis de açúcar no sangue, perda de peso e bem estar físico.

A alimentação saudável é a solução global para um problema complexo. E isso pode colocar-me a mim… e as empresas farmacêuticas – fora do negócio.

Margarida Vieira

Margarida Vieira, nutricionista, licenciada em Ciências da Nutrição (FCNAUP-1991), mestre em Nutrição Clínica (ISCSEM-2008). Doutorada em Estudos da Criança, na especialidade de saúde infantil pela Universidade do Minho. Membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas com a cédula profissional n (...)