Soja e cancro da mama: do alimento ao suplemento

Atualmente, existe bastante controvérsia acerca da ingestão de soja por parte de doentes com cancro da mama. Assim, nas consultas de Nutrição Oncológica é frequente as doentes chegarem confusas acerca do tema, pelas discrepâncias entre as recomendações que lhes são apresentadas.

Soja e alimentos à base de soja

A soja é uma excelente fonte vegetal de proteínas, contendo todos os aminoácidos que o organismo humano não consegue produzir. Além disso, contém fibra e ácidos gordos essenciais. A soja é, ainda, composta por uma variedade de compostos com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias que auxiliam na redução do risco de cancro e do crescimento do mesmo.

Os alimentos derivados da soja podem ser fermentados (natto, miso, tempeh, molho de soja e tofu fermentado) e não fermentados (edamame, nozes de soja secas, bebida de soja, farinha de soja e tofu). A fermentação não afeta os efeitos benéficos para a saúde da soja, embora os alimentos fermentados tenham um benefício acrescido para o intestino, devido aos probióticos.

Os feijões de soja são a maior fonte dietética de isoflavonas, um tipo de estrogénios existente nas plantas (fitoestrogénio). As isoflavonas que se encontram na soja incluem a genisteína, a daidzeína e a gliciteína e a sua quantidade nos alimentos pode variar, de acordo com as condições de produção. Uma porção de feijões de soja cozinhados (1/2 chávena), de bebida de soja (250 ml) e de tofu (1/2 chávena) fornece cerca de 8 g de proteína e 25 mg de isoflavonas.

Este fitoestrogénio atua na prevenção de doenças do coração e na osteoporose. É importante referir que o metabolismo e a absorção das isoflavonas varia de forma significativa entre indivíduos, de acordo com a composição da flora intestinal. Adicionalmente, sabe-se que aqueles que consumiram antibióticos durante mais tempo absorvem-nas em menor quantidade.

Muitos produtos alimentares podem constituir outras fontes de soja, apresentando a menção que a contêm, embora possam não conter qualquer fitoestrogénio (por exemplo a lecitina de soja). As isoflavonas, contudo, podem ser encontradas em muitos alimentos processados, como pães, cereais e barras proteicas, com ingredientes como concentrado e isolado de proteínas de soja e fibra de soja. Ainda é importante referir que a proteína de soja isolada é adicionada, muitas vezes, a bebidas para aumentar a quantidade de proteína das mesmas mas que cerca de 70% do teor em isoflavonas é perdido durante o processamento.

Soja e cancro da mama

São precisamente estes fitoestrogénios que levantam questões ao seu consumo por parte de sobreviventes de cancro da mama positivos ao recetor do estrogénio. As isoflavonas, por terem uma estrutura química muito parecida à dos estrogénios, têm a capacidade de se ligar aos seus recetores, “imitando” a sua ação nos mesmos. Por esta razão, muitos acreditam que as isoflavonas podem promover o crescimento de células cancerígenas, especialmente as positivas aos estrogénios. Por outro lado, a investigação sugere que pode ocorrer exatamente o oposto. Uma vez que se ligam aos mesmos recetores, “ocupam” o lugar, evitando que o estrogénio exerça a sua ação não desejada nestes casos.

Além disso, as isoflavonas podem também ligar-se a outros recetores, exercendo uma ação antioxidante, anti-proliferativa, anti-mutagénica e anti-angiogénica, promovendo a saúde e a longevidade, através da redução do risco de recorrência.

Soja: consumo antes e após o diagnóstico

Estudos concluíram que as sobreviventes de cancro da mama que consumiram alimentos de soja antes do diagnóstico tinham taxas de sobrevivência aumentadas, comparativamente a mulheres que não tinham consumido. Além disso, aquelas que consumiram maiores quantidades apresentaram menor risco de recorrência e mortalidade, incluindo aquelas com tumores com recetores aos estrogénios positivos.

Por outro lado, o American Institute for Cancer Research, no relatório acerca da dieta, nutrição e atividade física em sobreviventes de cancro da mama, concluiu que o consumo de soja após o diagnóstico, principalmente se superior a 1 ano, pode reduzir o risco de mortalidade por qualquer causa. Todavia, o seguimento de participantes no Shanghai Breast Cancer Study não encontrou qualquer relação entre o consumo de soja e a sobrevivência livre de doença. O Diet Comp Lyf Study (Reino Unido) também não encontrou associação entre a ingestão de fitoestrogénios (de linhaça e de soja) antes do diagnóstico e a melhoria do prognóstico.

Muitos tratamentos oncológicos da mama incluem terapêutica hormonal, como inibidores da aromatase, que impedem certas hormonas de originarem estrogénio, ou moduladores seletivos do recetor de estrogénio (MSRE), que impedem que este se ligue ao recetor (ex: tamoxifeno). As isoflavonas também são consideradas MSRE, pelo que surge a questão se as oriundas da soja podem anular o efeito anti-proliferativo da medicação prescrita.

Estudos preliminares em humanos indicam que as isoflavonas podem atuar em conjunto com o tamoxifeno. Todavia, são necessários mais estudos que assegurem que a eficácia da medicação não possa ser afetada. É também importante determinar a dose de fitoestrogénios que é segura consumir pelas doentes a quem foram prescritos os MSRE.

Soja: suplementos e cancro da mama

Relativamente a suplementos de isoflavonas em doentes com cancro da mama, os estudos são limitados. Essas limitações devem-se aos poucos participantes, com grandes variações nas intervenções usadas e nos tipos de doentes. Assim, são difíceis de comparar e, logo, chegar a uma conclusão. Além disso, alguns trabalhos tiveram uma duração muito curta, não permitindo avaliar corretamente um possível efeito.

Em suma, a investigação acerca do efeito de suplementos de isoflavonas no risco e na recorrência de cancro da mama é inconclusiva e muito variável para que se possa recomendar o seu uso em populações de risco elevado.

Soja: recomendações no cancro da mama

Os alimentos à base de soja parecem ter um efeito protetor contra o cancro da mama, melhorando o prognóstico e reduzindo a recorrência da doença. Assim, a evidência científica concluiu que as isoflavonas oriundas de alimentos à base de soja é segura para a população em geral e para as sobreviventes de cancro da mama, como recomendado por organizações que se dedicam à investigação em oncologia.

American Institute for Cancer Research considera como seguro o consumo de 1 a 2 porções por dia de alimentos à base de soja mas não recomenda o uso de suplementos de proteína de soja.

E a American Cancer Society considera uma ingestão moderada de soja e de alimentos derivados da mesma segura. Assim, recomenda a inclusão de alimentos à base de soja na dieta, devido ao possível efeito protetor contra o cancro da mama hormono-dependente e por serem excelentes fontes vegetais de proteína, antioxidantes e fitoquímicos.

National Cancer Institute concluiu que a soja é segura em quantidades moderadas, quando integrada numa dieta saudável. No que diz respeito a suplementos e também no que concerne a doentes sujeitas a terapêutica hormonal, são necessários mais trabalhos de investigação.

Referências: Messina M. Soy foods, isoflavones, and the health of postmenopausal women. Am J Clin Nutr. 2014;100(Suppl 1):423S-430S; AICR’s foods that fight cancer: soy. American Institute for Cancer Research website; Shu et al. Soy food intake and breast cancer survival. JAMA. 2009;302(22):2437-2443; Kang et al. Effect of soy isoflavones on breast cancer recurrence and death for patients receiving adjuvant endocrine therapy. CAMJ. 2010;182(17):1857-1862; Guha et al. Soy isoflavones and risk of cancer recurrence in cohort of breast cancer survivors: the Life After Cancer Epidemiology study. Breast Cancer Res Treat. 2009;118(2):395-405; Zhang et al. Positive effects of soy isoflavone food on survival of breast cancer patients in China. Asian Pacific J Cancer Prev. 2012;13(2):479-482; Nechuta et al. Soy food intake after diagnosis of breast cancer and survival: an in-depth analysis of combined evidence from cohort studies of US and Chinese women. Am J Clin Nutr. 2012;96(1):123-132; Caan et al. Soy food consumption and breast cancer prognosis. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 2011;20(5):854-858; World Cancer Research Fund International/American Institute for Cancer Research Continuous Update Project report: diet, nutrition, physical activity, and breast cancer survivors. American Institute for Cancer Research. Boyapati et al. Soyfood intake and breast cancer survival: a followup of the Shanghai Breast Cancer Study. Breast Cancer Res Treat. 2005;92(1):11-17; Swann et al. The DietCompLyf study: a prospective cohort study of breast cancer survival and phytoestrogen consumption. Maturitas. 2013;75(3):232-240; Kang et al. Effect of soy isoflavone on breast cancer recurrence and death for patients receiving adjuvant endocrine therapy. CMAJ. 2010;182(17):1857-1862; Soy is safe for breast cancer survivors. American Institute for Cancer Research; Nutrition in cancer care (PDQ®)— health professional version. National Cancer Institute;Rock et al. Nutrition and physical activity guidelines for cancer survivors. CA Cancer J Clin. 2012;62(4):275-276. Créditos das imagens: https://the-green-side.com/home/soja-estrogenios-mito-ou-realidade; https://thesoynutritioninstitute.com/soy-consumption-and-breast-cancer-patients-new-study-changes-nothing/

 

Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº0204N, mestre em nutrição clínica pela Universidade  do Porto. Iniciou a sua atividade profissional em 2001 e, atualmente, além de exercer prática clínica em consultório privado e em meio hospitalar, a su (...)