Cancro do cólon: influência do café

Tendo em conta os fatores relacionados com a alimentação que podem contribuir para a melhoria do prognóstico dos doentes com cancro do cólon, surge o café. Esta hipótese baseia-se na associação que tem sido feita entre esta bebida e a diminuição do risco de diabetes tipo 2, através da redução dos níveis plasmáticos de péptido C e da elevação da adiponectina (sintetizador endógeno de insulina). Além disso, alguns mas não todos os estudos, demonstraram uma relação inversa entre o consumo de café e o risco de cancro colo-retal.Cancro do cólon e influência do café

Um estudo publicado em 2015, no Journal of Clinical Oncology, incluiu 953 doentes com cancro do cólon de estadio III e procurou estudar esta hipótese. Os autores concluíram que uma ingestão aumentada de café e de cafeína estava associada a uma melhoria significativa na recorrência e na mortalidade pela doença e por outras causas, independentemente da dieta e do estilo de vida dos doentes.

No entanto e apesar de este texto assentar no efeito do café no cancro do cólon, é de referir que vários trabalhos sugerem que uma dieta excessiva em calorias, a diabetes tipo 2, a obesidade, o sedentarismo, um padrão de dieta ocidental e um aumento da ingestão de bebidas açucaradas estão associados a um aumento do risco de recorrência e a maior mortalidade. Para além disso, uma mortalidade aumentada foi observada em doentes com este tipo de cancro de estádios I, II e III com elevação dos níveis plasmáticos de péptido C ou com baixos do fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1.

Café – Como atua?

A ciência refere que uma dieta rica em calorias está associada a um aumento do risco de recorrência e de mortalidade por cancro do cólon. E que existe uma relação inversa entre o consumo de café e de diabetes tipo 2. Assim, os autores do estudo referido sugeriram que a redução nas hipóteses de recidiva são consequência de um aumento da sensibilidade à insulina, com redução dos elevados níveis plasmáticos desta hormona. Contudo, o café e a cafeína podem afetar o cancro do cólon através de outros mecanismos, como anti-inflamatórios, antioxidantes, anti-angiogénicos, anti-metastáticos e anti-apoptóticos.

Apesar dos resultados do estudo em questão estarem associados apenas ao café e não ao descafeinado, não nos podemos esquecer que a bebida tem outros componentes, para além da cafeína, os quais poderão ter algum papel nos resultados (por exemplo, o ácido clorogénico).

Outra hipótese que não foi excluída pelos autores é a de que muitos doentes que consumiam café já o poderiam fazer antes do diagnóstico de cancro. Assim, pode haver a possibilidade de os consumidores de café poderem desenvolver cancros do cólon menos agressivos, influenciando os resultados deste estudo. Todavia, os autores não encontraram uma associação significativa entre a ingestão de café e as características do tumor associadas à recorrência da doença.

Em conclusão, o consumo aumentado de café e de cafeína parece estar associado a um melhor prognóstico em doentes de cancro do cólon, de estadio III, embora sejam necessários mais estudos para confirmar estes resultados.

Referências: Guercio BJ et al., Coffee Intake, Recurrence, and Mortality in Stage III Colon Cancer: Results From CALGB 89803 (Alliance). J Clin Oncol. 2015; 33(31): 3598-607; Demark-Wahnefried et al., The role of obesity in cancer survival and recurrence. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev. 2012;21:1244–1259; Fuchs MA et al., Sugar-sweetened beverage intake and cancer recurrence and survival in CALGB 89803 (Alliance) PLoS One. 2014;9:e99816; Meyerhardt JA et al, Association of dietary patterns with cancer recurrence and survival in patients with stage III colon cancer. JAMA. 2007;298:754–764; Wolpin BM et al., Insulin, the insulin-like growth factor axis, and mortality in patients with nonmetastatic colorectal cancer. J Clin Oncol. 2009;27:176–185; Meyerhardt JA et al., Impact of physical activity on cancer recurrence and survival in patients with stage III colon cancer: Findings from CALGB 89803. J Clin Oncol. 2006;24:3535–354; Mills KT et al., Diabetes mellitus and colorectal cancer prognosis: A meta-analysis. Dis Colon Rectum. 2013;56:1304–1319; Ding M et al. Caffeinated and decaffeinated coffee consumption and risk of type 2 diabetes: A systematic review and a dose-response meta-analysis. Diabetes Care. 2014;37:569–586. Fontes de imagens: https://www.terravista.pt/229/as-origens-do-cafe.html; https://nit.pt/fit/saude/portugueses-confessa-usa-pacote-inteiro-de-acucar-cafe  

Dina Raquel João é Nutricionista e Mestre em Nutrição Clínica, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas (nº 0204N), com o Título de Especialista para a área de Terapia a Reabilitação da Classificação Nacional de Áreas de Educação e Formação, subárea da Nutrição, tendo desenvolvido a sua atividade profissional principalmente na prática clínica, na docência e formação e na investigação. Como Nutricionista, iniciou atividade clínica em 2001, tendo exercido a nível hospitalar, em centro de saúde e em clínica privada. A experiência profissional na área da investigação decorreu, essencialmente, na área oncológica, tendo sido premiada nesse campo (1º Prémio de Nutrição Clínica da Fresenius Kabi, em 2002). Conta com diversas comunicações científicas orais e em painel, tanto em eventos nacionais como internacionais. Atualmente, é Professora Adjunta Convidada na Universidade do Algarve – Escola Superior de Saúde, lecionando à licenciatura em Dietética e Nutrição.