Cancro da pele não-melanoma: a influência dos nutrientes

Numa altura do ano em que o cancro da pele é abordado com regularidade na comunicação social, muitas pessoas perguntam se a alimentação poderá também contribuir para prevenir esta doença. Além disso, os doentes com cancro da pele questionam acerca de eventuais modificações alimentares que possam contribuir para o controlo da mesma. Então, o que nos diz a ciência acerca dos nutrientes a restringir ou a suplementar, na prevenção e controlo do cancro da pele não-melanoma (CPNM)?

Cancro da pele não-melanoma e gorduras

Estudos laboratoriais sugerem que uma alimentação rica em gordura diminui o tempo entre a exposição à radiação ultravioleta (UV) e o aparecimento de cancro, aumentando, também, o número de tumores.

Em humanos, os resultados obtidos não são consensuais, havendo estudos que sugerem uma associação direta entre o consumo de gordura e o aparecimento de cancro da pele, enquanto outros sugerem uma relação inversa. Contudo, a maioria dos trabalhos realizados (um estudo controlado randomizado com 48 835 participantes, cinco estudos coorte, quatro estudos caso-controlo e uma meta-análise) não encontrou uma relação entre a ingestão da gordura e o CPNM.

Cancro da pele não-melanoma e vitamina A

Em ratos, a vitamina A e os seus derivados (β-caroteno e retinol) protegem contra o aparecimento de cancro da pele. Relativamente aos estudos em humanos, os resultados não são coerentes.

Em doentes com CPNM, foram encontrados níveis sanguíneos de β-caroteno, de vitamina A e de retinol mais baixos que em indivíduos saudáveis. Além disso, verificou-se que a ingestão de β-caroteno poderia contribuir para a prevenção destes tipos de cancro da pele e que o consumo de vitamina A poderia prevenir o carcinoma baso-celular.

Todavia, outros trabalhos concluíram precisamente o oposto, isto é, que a ingestão de vitamina A pode contribuir para o carcinoma baso-celular, além de níveis mais elevados de retinol terem sido encontrados em doentes, em comparação com indivíduos saudáveis.

A acrescentar a esta inconsistência de resultados, 14 estudos não encontraram qualquer associação, num sentido ou noutro, entre a ingestão de derivados da vitamina A e o CPNM.

Múltiplos trabalhos de intervenção avaliaram o efeito do β-caroteno, do retinol e da isotretinoína na incidência de CPNM. Quanto ao β-caroteno, estudos controlados randomizados sugerem não haver uma influência deste nutriente na prevenção ou aparecimento destes tipos de cancro da pele. Em relação ao retinol e retinoides sintéticos, as conclusões são mais variadas mas sugerem que o impacto do retinol e dos retinoides sintéticos nos carcinomas baso-celular e das células escamosas pode ser influenciado por fatores de risco e comorbilidades individuais.

cancro da pele e nutrientes,Cancro da pele não-melanoma e vitamina C

Estudos laboratoriais mostram que a vitamina C inibe a toxicidade dos raios UVB, além de inibir o desenvolvimento dos carcinomas baso-celular e das células escamosas.

Por outro lado, em humanos, as conclusões divergem. Alguns estudos sugerem que o consumo de alimentos ricos em vitamina C, suplementos desta vitamina e níveis plasmáticos de ácido ascórbico elevados previnem o CPNM. Todavia, existem outros trabalhos em que se encontrou uma associação positiva entre o carcinoma baso-celular e a ingestão de alimentos ricos em vitamina C ou de suplementos. Adicionalmente a esta divergência, outros investigadores não identificaram qualquer associação entre a vitamina em questão e o CPNM.

Cancro da pele não-melanoma e vitamina D

A vitamina D é obtida através dos alimentos e através da síntese de calcitriol, através dos raios UV. Estudos laboratoriais têm mostrado que esta vitamina tem um papel protetor contra o aparecimento de CPNM.

Tal como em relação às vitaminas já abordadas, os estudos em humanos não são consistentes. Um estudo caso-controlo encontrou uma relação inversa entre o nível de vitamina D e o risco do cancro em questão. Todavia, a exposição solar pode confundir estes resultados, pois a radiação UV aumenta simultaneamente os níveis de vitamina D e promove as alterações no ADN que são o ponto de partida para o desenvolvimento de cancro da pele. Por outro lado, três estudos não encontraram qualquer associação entre o consumo de vitamina D e o risco de carcinoma baso-celular.

Cancro da pele não-melanoma e vitamina E

Em ratos, a aplicação tópica de α-tocoferol inibe os danos da radiação UV no ADN e a formação de cancro. Mais uma vez, em humanos, os dados não são consensuais, levando a que não seja recomendada para a prevenção e controlo de CPNM. Os trabalhos realizados até hoje tanto sugerem um efeito protetor da vitamina E (alimentos e suplementos), como sugerem um efeito potenciador ou até nenhuma associação, inclusivamente na resposta à radiação UV, após 6 meses de suplementação oral diária com α-tocoferol.

Cancro da pele não-melanoma e selénio

Estudos laboratoriais sugerem que o selénio protege contra a formação de cancro. Em humanos, estudos de caso-controlo e de coorte também têm encontrado um papel potencialmente protetor contra o CPNM, já que o selénio parece proteger contra a toxicidade induzida pela radiação UV. O único estudo controlado randomizado que investigou o impacto da suplementação oral com selénio no CPNM não encontrou uma associação significativa com o risco de carcinoma baso-celular. Todavia, aumentou o risco de carcinoma das células escamosas e do CPNM, de um modo geral. Outros estudos não encontraram nenhuma associação entre o consumo de selénio ou a sua concentração plasmática e a doença oncológica em causa.

Cancro da pele não-melanoma e fatores nutricionais

Apesar dos estudos laboratoriais sugerirem uma ligação entre fatores dietéticos e o CPNM, estudos em humanos têm sido inconclusivos ou não consensuais. Em conclusão e à luz da ciência atual, uma alimentação restrita em gordura não deverá ser recomendada para a prevenção do CPNM. Quanto à suplementação com selénio, esta pode aumentar o risco de carcinoma das células escamosas e de CPNM de um modo geral, pelo que deverá ser evitada. Por último, o efeito da suplementação com retinol ou retinóides no desenvolvimento desta doença é variável, em função de fatores de risco e comorbilidades individuais, bem como do tipo de cancro.

Referências: Bronsnick T et al.. Diet in dermatology: Part I. Atopic dermatitis, acne and nonmelanoma skin cancer. J Am Acad Dermatol. 2014: 71(6): 1039.e1-1039.e12. Fontes de imagens: http://ioha.com.br/cancer/7/cancer-de-pele; http://www.simplyvibrantnutrition.com/registereddietitian/

Dina Raquel João é Nutricionista e Mestre em Nutrição Clínica, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas (nº 0204N), com o Título de Especialista para a área de Terapia a Reabilitação da Classificação Nacional de Áreas de Educação e Formação, subárea da Nutrição, tendo desenvolvido a sua atividade profissional principalmente na prática clínica, na docência e formação e na investigação. Como Nutricionista, iniciou atividade clínica em 2001, tendo exercido a nível hospitalar, em centro de saúde e em clínica privada. A experiência profissional na área da investigação decorreu, essencialmente, na área oncológica, tendo sido premiada nesse campo (1º Prémio de Nutrição Clínica da Fresenius Kabi, em 2002). Conta com diversas comunicações científicas orais e em painel, tanto em eventos nacionais como internacionais. Atualmente, é Professora Adjunta Convidada na Universidade do Algarve – Escola Superior de Saúde, lecionando à licenciatura em Dietética e Nutrição.