Cancro do pâncreas: o papel da nutrição

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Novembro é o mês de sensibilização para o cancro do pâncreas, sobre o qual a nutrição tem um papel muito importante na prevenção, tratamento e controlo.cancro do pâncreas

No mundo, este tipo de cancro ocupa o 2º lugar entre os cancros do aparelho digestivo mais frequentes. O cancro do colon ocupa o 1º lugar.

Em Portugal, o cancro do pâncreas ocupa o 3º lugar, surgindo anualmente cerca de 500 novos casos. Como fatores de risco têm sido indicados a idade superior a 60 anos, o género masculino, os antecedentes familiares, a história de pancreatite crónica, a cirrose, a diabetes, a insulino-resistência, a obesidade, uma alimentação rica em gorduras prejudiciais e o consumo de tabaco.

Durante a fase de diagnóstico, mais de 80% dos doentes já apresenta uma significativa perda de peso. Sintomas como a dor abdominal, a perda de apetite, a saciedade precoce, os vómitos, a diarreia ou obstipação e no aumento da degradação das reservas de proteína do organismo e do gasto de energia são responsáveis pela perda ponderar acentuada.

Vários estudos mostram que a desnutrição leva à perda muscular, à degradação da gordura de reserva, a maiores tempos de internamento, ao aumento do risco de complicações, a uma menor resposta ao tratamento, à redução da qualidade de vida e a um aumento da morbilidade e da mortalidade. Por outro lado, a estabilização do peso e da composição corporal estão associadas a melhoria da sobrevivência e da qualidade de vida. Assim, se a ingestão alimentar não for suficiente, a terapêutica nutricional é absolutamente essencial em doentes com cancro do pâncreas.

Um dos possíveis tratamentos é a cirurgia. Nestes casos, a parte do pâncreas que não foi removida pode não ter capacidade para produzir os enzimas necessários para a digestão (lipase, protease e amilase), pelo que os doentes poderão não ser capazes de digerir os alimentos e absorver os seus nutrientes. Quando isso acontece, a sua permanência no intestino contribui para o aparecimento de diarreia, agravando a desnutrição. Além disso, os doentes poderão apresentar flatulência, distensão abdominal, cólicas e outros sintomas. Consequentemente, o objetivo primário para estes doentes é eliminar ou reduzir a diarreia, restaurar o estado nutricional, prevenir a perda de peso e controlar a sintomatologia.

Recomendações para doentes com cancro do pâncreas

Para controlo de sintomas, os doentes submetidos a cirurgia deverão:

– Tomar a dose prescrita de enzimas pancreáticos com todas as refeições, incluindo lanches

– Evitar gorduras, alimentos ricos em gordura e fritos

– Fazer 6 a 8 refeições diárias, espaçadas em 2 a 3 horas, preferindo as refeições pouco volumosas, dado que são mais fáceis de digerir

– Beber, pelo menos, 6 a 12 copos de líquidos não alcoólicos por dia

– Às refeições, beber pequenos goles, de modo a evitar as náuseas e a sensação de enfartamento. Optar pela ingestão de líquidos 1 horas antes ou depois das refeições

– As bebidas deverão ser ricas nutricionalmente, evitando as bebidas alcoólicas

– Se o doente está nauseado, deve ser dada preferência a alimentos secos

– Evitar os hidratos de carbono simples/refinados, se existir Síndrome de Dumping

– Discutir com o médico ou com o nutricionista o uso de suplementos vitamínicos. O cálcio e as vitaminas A, D, E e K poderão ser necessários, se existir malabsorção provocada pela diarreia

Compostos com possível efeito benéfico em doentes com cancro do pâncreas

Os ácidos gordos ómega 3 também parecem ter um papel benéfico, nomeadamente o ácido gordo eicosapentanóico (EPA). Os estudos que incidem especificamente no cancro do pâncreas são poucos, por se tratar de uma doença silenciosa, numa fase inicial, com uma progressão rápida e que está associada a uma taxa de sobrevivência reduzida. No entanto, os trabalhos realizados têm mostrado uma possível ação benéfica do EPA no peso, na massa magra, no apetite, na energia gasta em repouso e na qualidade de vida.

Apesar de apenas existir um estudo sobre a ação da L-carnitina em doentes com cancro da mama, a suplementação com este composto parece melhorar o estado nutricional e a qualidade de vida, comparativamente a um grupo de controlo sujeito a um placebo.

A ingestão alimentar, a curva de peso, a composição corporal, a frequência e consistência das fezes, as necessidades nutricionais, os tratamento oncológicos e outros parâmetros são todos eles considerados pelo nutricionista para uma correta intervenção nutricional. O plano alimentar deve ser baseado nessas características particulares de cada doente, com vista a uma melhor qualidade de vida, controlo dos sintomas e a uma maior sobrevivência.

Referências: https://www.pancan.org (acedido a 24/11/2017); http://oncomais.pt (acedido a 24/11/2017); Oncology, E. S. f. M. Pancreatic Cancer: a guide for Patients – Information based on ESMO Clinical Practice Guidelines. Annals of Oncology, 2013, 28; Gärtner S et al. Nutrition in Pncreatic Cancer: A Review. Gastrointest Tumors. 2016; 2(4): 195-202; Ferrucci LM et al. Nutritional status of patients with locally advanced pancreatic cancer: a pilot study. Support Care Cancer. 2011;19:1729–1734; Andersson R et al. Nutritional aspects in the management of pancreatic cancer. Ann Gastroenterol. 2000;13:221–224; Davidson W et al. Weight stabilisation is associated with improved survival duration and quality of life in unresectable pancreatic cancer. Clin Nutr. 2004;23:239–247; Kraft M et al. L-Carnitine-supplementation in advanced pancreatic cancer (CARPAN) – a randomized multicentre trial. Nutr J. 2012;11:52. Fontes de imagens: http://frankelperio.com/poor-oral-health-linked-to-pancreatic-cancer/; http://dev.natcom.org/CommCurrentsArticle.aspx?id=996

Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.